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Nós lemos: Planetary - Mundo Estranho
Por Felipe Meyer — Terça, 28 de junho de 2005
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Pulps. Essa palavra tornou-se verbete obrigatório na cultura popular. Sua origem vem de antigas revistas literárias impressas num papel barato e de baixíssima qualidade, feito da polpa de árvores. Ao fim do século 19 essas revistas ganharam grande força sobre as massas trabalhadoras, sendo vendidas a um preço muito pequeno e trazendo histórias fantásticas que instigavam a imaginação de uma classe quase miserável e pouco letrada, que tinha pouquíssimas surpresas em sua vida mecanizada (como fazem até hoje os mangás no Japão).
Com concorrentes poderosos como o Rádio e o Cinema, os Pulps tiveram de evoluir, investindo na ficção científica, no terror e nas histórias policiais. Essa mudança faria dos Pulps uma espécie de “pais biológicos” das histórias em quadrinhos. E foram justamente os quadrinhos, com seus desenhos coloridos e personagens super-humanos, quem mais contribuíram para o fim dos heróis das Pulp Magazines.
O escritor Warren Ellis e o desenhista John Cassaday tiveram motivos de sobra, portanto, para iniciar Planetary - série de quadrinhos que brinca com vários elementos da cultura pop dos últimos 100 anos, e cujas quatro primeiras edições acabam de ser lançadas pela Devir num encadernado de altíssima qualidade - com uma metáfora da transição entre esses dois formatos distintos de contos de aventura.
Em “Ao Redor do Mundo”, história que abre o encadernado, os “arqueólogos do impossível” Jakita Wagner, Elijah Snow e O Baterista encontram um homem imortal chamado Axel Brass (Brass, em inglês, significa bronze. É uma referência ao personagem dos pulps Doc Savage, também conhecido como “o homem de bronze”), que conta a história de como ele e um grupo secreto de heróis tentou dar fim à segunda guerra mundial alterando a realidade como a conhecemos. A experiência deu terrivelmente errada e o grupo foi atacado por seres de outra dimensão tentando salvar o seu próprio mundo da destruição. Brass foi o único sobrevivente e passou as cinco décadas seguintes acordado, em frente ao portal, preparado para fazer o que fosse preciso caso mais alguém quisesse atravessá-lo.
Os alienígenas combatidos por Brass e seus companheiros nada mais eram que versões bizarras dos heróis mais conhecidos do mundo, os membros da Liga da Justiça. A história pode ser traduzida como uma versão resumida de como as histórias em quadrinhos, recém surgidas, deram fim às Pulp Magazines na primeira metade do século passado.
O capítulo seguinte, “Ilha”, é uma nova imersão de Ellis num gênero que influenciou muito a ficção científica como a conhecemos hoje: os filmes japoneses de monstros gigantes. Um obcecado novelista e líder religioso leva seus discípulos a uma terra de ninguém, uma ilha fora dos mapas cujo território é disputado desde a segunda guerra entre Japão e Rússia. Uma ilha que durante anos foi habitada por criaturas mutantes muito parecidas com os famosos monstros Godzilla, Gamera e Mothra.
O encadernado segue com as histórias “Pistoleiros Mortos” e “Estranhos Portos” que brincam respectivamente com os filmes policiais chineses e com o mito de um dos maiores heróis da DC, o Capitão Marvel; e fecha com chave de ouro com a curta “Origem Atômica”, uma releitura bastante criativa da origem do Hulk, personagem da Marvel (e que foi publicada lá fora como um breve preview da série).
Planetary é, num todo, um amontoado de referências e homenagens, numa mistura bastante eficiente de diferentes gêneros e temas. Tendo como pano de fundo esse “mundo estranho” de monstros, fantasmas e super-heróis, uma organização de recursos inesgotáveis viaja o mundo desvendando a história secreta da humanidade desde o início do século passado.
A edição lançada pela Devir, apesar do título, reúne apenas os quatro primeiros números da revista (a história “It’s A Strange World”, ou “É um mundo estranho”, só surgiria no número #6, que fecha o primeiro encadernado norte-americano, “All Over the World & Other Stories”) além do curto preview. O acabamento é de primeira, tornando o álbum bastante atraente. As capas originais foram mantidas, uma ótima decisão que infelizmente não é uma regra seguida por outros encadernados da editora. A tradução no entanto poderia estar melhor, tendo se preocupado mais em transpor fielmente o que os personagens dizem quando talvez devessem ter prestado atenção ao que os mesmos queriam dizer. Expressões e figuras de linguagem são traduzidas muitas vezes à risca e apesar de não atrapalharem o entendimento dos diálogos acabam por fazer pior, tornando-os bastante artificiais. A escolha da tipografia poderia ter sido melhor pensada em alguns pontos, pois leva-se algum tempo até se dar conta que a mudança de fonte refere-se ao fato dos personagens estarem falando um outro idioma que não o inglês.
Apesar dessas poucas falhas, Planetary - Mundo Estranho é um álbum de altíssimo nível e muito bem executado pela Devir, valendo cada centavo gasto em sua compra. Ellis criou um verdadeiro tratado à cultura popular do século XX, muito bem endossado pela introdução de Alan Moore. Os desenhos de John Cassaday na maior parte do tempo apresentam seu melhor momento, apesar de não se manter regularmente dessa forma. É até compreensível, visto a periodicidade também irregular da revista nos Estados Unidos (a série foi concebida por Ellis em 1997 e teve sua primeira edição publicada em 1999. Apesar disso, ainda está no número 22, com o número 23 previsto ainda para este ano).
Planetary - Mundo Estranho
Devir Livraria
Warren Ellis, John Cassaday, Laura DePuy & David Baron
Introdução de Alan Moore
112 páginas
Preço: R$ 39,00
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