Ronin e Asilo Arkham nas bancas

Por Rafael Lima — Quinta, 13 de novembro de 2003

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Os relançamentos nas bancas de Ronin e Asilo Arkham não deixam dúvidas: a década de 80 foi o verdadeiro paraíso para leitores de quadrinhos. E pensar que já se foram 15 anos dos seus principais marcos!

Na graphic novel How to be an Artist, de 2001, Eddie Campbell narra suas agruras no percurso da sua transformação num profissional de quadrinhos, na Inglaterra dos anos 80, e por tabela, conta a história do surgimento, explosão e queda do gênero das graphic novels.

Quem tava lá lembra de como os jornais e revistas abriram enormes espaços para falarem de histórias em quadrinhos. Aqui mesmo, no Brasil, a Folha de São Paulo dedicou uma página semanal ao assunto. Os grandes responsáveis foram mesmo O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns), de Frank Miller, e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Os tradicionais quadrinhos de super-heróis assumiam uma faceta dark, violenta, cínica e sobretudo adulta. Candidatos perfeitos a tornarem-se símbolos emblemáticos da década de Reagan, Tatcher e Lech Walessa. Comentar ou colecionar HQ passou a ser cool entre os yuppies, passou a ser um indicativo de estar antenado com as mais modernas tendências culturais – cultura pop, é claro. Era engraçado ver os engravatados passando a freqüentar o ambiente eternamente nerd das lojas de quadrinhos, procurando a última do Crumb. E, como se fosse pouco, as Hqs tomaram as galerias de arte inglesas, em mostras organizada por Paul Gravett, da revista Escape, como a Strip Search, e catapultaram as convenções, como a Bienal dos Quadrinhos do Rio de Janeiro.

O fato é que, desde Contrato com Deus (Will Eisner, 1977), abriu-se um nicho no mercado editorial para narrativas em quadrinhos mais longas, de teor maduro e apresentação mais sisuda, leia-se: capa dura, lombada quadrada, enfim, quadrinhos – mas formatados no estilo do fetiche que fica bem tanto numa estante de madeira quanto largado casualmente sobre a mesa. No entanto, esse nicho só foi efetivamente reconhecido quase 10 anos depois, com o início da publicação de Maus na revista Raw, por Art Spiegelman, cujos dois tomos encadernados conquistariam um prêmio Pulitzer e atingiriam a lista dos best-sellers, na mais clara reverência do Mundo Sério às histórias em quadrinhos: sim, era possível transmitir informações sérias com elas. Adultos se interessariam em lê-las, ultrapassando o público adolescente e comprariam-nas aos montes. Mal sabia-se que, anos depois, as livrarias passariam a ter uma seção dedicada às graphic novels.

Considerando tal precedente, Eddie Campbell chega a lamentar que os pavios da explosão tenham sido o Batman e Watchmen, duas crias do mundo dos super-heróis, desde sempre vistos com desdém artístico e cultural – David Mazzuchelli contava que, na época, todas reportagens saíam invariavelmente com o mesmo título, “Biff! Pow! Zing! Quadrinhos não são mais para crianças” – isso em dias quando, a cada novo lançamento, o potencial narrativo & expressivo dos quadrinhos se expandia em publicações completamente desvinculadas dos uniformes coloridos e super-poderes.

Era uma época em que cada artista inventava uma maneira nova de narrar uma seqüência, de diagramar uma página, de recriar o uso dos elementos básicos dos quadrinhos – letreiragem, balões, divisão da página – incorporando influências do cinema, da literatura e até da música nos roteiros; tudo parecia caber numa história em quadrinhos, e tudo parecia novo e vibrante naquela linguagem. Essa miríade de possibilidades que se oferecia em tempo real acabou causando uma certa insegurança quanto aos limites da forma, e Eddie registra que a maioria das declarações variavam em torno do comentário que “ainda estamos aprendendo o alfabeto dessa nova linguagem”. Alan Moore disse que ainda não tinha sido escrita o Em Busca do Tempo Perdido dos quadrinhos, mas que nada impediria de fazê-lo.

Quem conhece a história, sabe que os anos 88-91 foram desgraçadamente o simétrico dos anos 84-87. Chega a ser difícil dizer qual foi o pior acidente de percurso: Kevin Eastman enterrando parte da fortuna ganha com as Tartarugas Ninja em títulos sem continuidade; a falência da editora Tundra, fundada por Eastman; a desistência de Alan Moore em freqüentar convenções, depois do assédio absurdo da convenção de Londres, 87; a interrupção brusca da mini-série Big Numbers na segunda edição... A década de 90, se não presenciou o estouro de tantos talentos, teve a sorte de vê-los produzindo com regularidade: os irmãos Hernandez em Love & Rockets, Neil Gaiman no Sandman e nos álbuns com Dave McKean, Daniel Clowes com Ghost World, além dos trabalhos contínuos de Chester Brown, Kyle Baker, Howard Cruse, Chris Ware, todos indicando uma continuidade na publicação de títulos culturalmente mais respeitáveis e artisticamente relevantes, capazes de surpreender e capturar até o mais desinformado leitor – aquele que, em meados da década de 80, leu nos jornais que “os quadrinhos não eram só para crianças”.




COMPRAS
Livro > Batman : a Piada Mortal (Alan Moore)
Livro > Breakdowns: Retrato do Artista Quando Jovem (Art Spiegelman)
Livro > Watchmen - 3 (Dave Gibbons)
Livro > Mangá: Como o Japão Reinventou os Quadrinhos (Paul Gravett)
Livro > A Leitura dos Quadrinhos (Paulo Ramos)
Livro > Quadrinhos e Arte Sequencial: Compreensão e Pratic (Will Eisner)
DVD > DVD Os Super-Heróis dos Quadrinhos (Richard Belfield)
Livro > Nova York: A Vida na Grande Cidade (Will Eisner)

 

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