A melhor resenha de Planetary já foi escrita. É o prefácio assinado pelo mestre das HQs Alan Moore que abre Planetary – Mundo Estranho. A edição encadernada (e bem luxuosa!) publicada pela Devir reúne os quatro primeiros números de Planetary, série criada por Warren Ellis (The Authority) e John Cassaday (Astonishing X-Men) já publicados aqui no Brasil pela Pandora Books, em 2002. O encadernado traz ainda uma história inédita publicada originalmente em Planetary Preview, onde é recontada a origem do Incrível Hulk.
Mas um instante! Planetary pertence ao selo Wildstorm, da DC Comics. O que o personagem da concorrente Marvel está fazendo naquelas páginas?
Bem, exatamente isso é Planetary. Um grupo de super-arqueólogos que pretende desvendar a história oculta da humanidade. E essa “história oculta” não é outra senão a própria história da cultura pop. Portanto, espere de cada aventura de Planetary citações e referências ao mundo do cinema e das histórias em quadrinhos. Nesse encadernado temos os típicos heróis pulp enfrentando uma invasão de super-heróis – o que, de fato, aconteceu na vida real no mercado editorial. Doc Savage e toda a Liga da Justiça estão lá. Godzilla e Capitão Marvel também aparecem em aventuras posteriores. Como o próprio Alan Moore comenta, “Warren Ellis e John Cassaday fabricaram um engenhoso mecanismo com o qual podem explorar as possibilidades de nossa situação contemporânea.” Isto é, resgatar elementos do passado dando um novo encaminhamento e apontando para um possível futuro da nona arte.
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Entretanto, Ellis faz mais do que mero experimento saudosista e acaba (re)criando algo original, novo, por mais contraditório que pareça. O roteiro segue uma fórmula simples, mas bastante eficaz. O leitor acompanha os passos de
Elijah Snow, um mal-humorado imortal e o mais novo membro do Planetary, espécies de “arqueólogos do impossível.” Em cada história, junto a Snow, descobrimos mais sobre o universo (ou melhor dizendo, multiverso) onde a trama se desenrola.
O suspense criado nas histórias pouco tem a ver com os clichês do gênero. Na verdade, são pequenos mistérios ou informações brevemente citadas que compõem o universo de Planetary e aguçam a curiosidade do leitor, sempre esperançoso que em algum futuro número venham as respostas para perguntas como “Quem é o 4º homem do Planetary?” ou “O que aconteceu com o antecessor de Snow?” Tais indagações são quase que camufladas dentro da trama, pois cada aventura se encerra nela mesma, sendo cada número uma história independente – o que lembrou-me, de certo modo, as primeiras temporadas da série de tevê Arquivo X.
Quanto às ilustrações, a arte de Cassaday é irregular: hora está boa, hora está ótima. Ainda assim, a inconstância de um estilo pode incomodar os leitores habituados a digerir desenhos esteticamente padronizados.
Ao final das 112 páginas, fica a sensação de que Ellis criou algo que pode entrar para a história das HQs, se for bem trabalhado. Caso tudo degringole e o roteirista perca o rumo, pelo menos a diversão já está garantida.
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