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Os últimos serão os primeiros
Por Maria Luiza Porto — Quarta, 22 de junho de 2005
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Como o próprio nome já diz - Batman Begins - apesar de ser o último, conta o início de tudo. E o motivo do bom desempenho do filme é que, finalmente, levaram o lendário Cavalheiro das Trevas a sério. Não desmerecendo os outros títulos do homem-morcego, mas Christopher Nolan (de Amnésia – um dos top 10 da minha lista) mergulha nas profundezas do soturno personagem e nos revela os detalhes da incipiente saga de Bruce Wayne com destreza. A escolha de Christian Bale para o papel de Batman foi determinante - tanto para o sucesso de crítica do filme quanto para a minha ida ao cinema numa noite chuvosa de domingo.
Bale teve sua estréia nas telonas como a estrela-mirim do inesquecível Império do Sol, de Spielberg. Sua emocionante interpretação do garotinho que se perde dos pais em plena Segunda Guerra Mundial, e come o pão-que-o-diabo-amassou para sobreviver na terra nipônica, nunca me permitiu entender porque Christian passou tanto tempo desapercebido do grande público – até reaparecer em grande estilo (e que estilo!) em Psicopata Americano. De resto, sua filmografia se recheia de papéis insípidos.
Voltando ao filme em questão, Batman Begins foge ao ritmo frenético dos blockbusters usuais, apesar de sua temática ser digna de um “pipocão”. Ele se arrasta seguindo a cadência da angustia de Bruce e ganha vida na medida em que o protagonista consegue encarrilhar seus planos. Não é um filme “divertido” - é denso, longo e intrigante (não tem nada de “Santa encrenca, Robin!” e outras cafonices do gênero). Assistir à construção da bat-caverna, à costura do bat-uniforme e ao “test-drive” do batmóvel já vale o ingresso para os mais fanáticos, apesar do processo de edificação do personagem discorrer de uma maneira natural, sem muito show-off – como acontecia nos filmes de Joel Schumacher, em que até o Jim Carrey ele vestiu de “Charada-Mangueirense”.
Um dos principais acréscimos dessa película em relação as anteriores é o hiato da vida de Bruce Wayne que permanecia desconhecido até então: a maneira como sucedeu o desenvolvimento de seus dotes bélicos. Essa fase do filme é um mix de Kill Bill com Matrix e Karatê Kid - com direito a isolamento nas montanhas, Pai Mei e filosofia de vida (até o Liam Neeson se rendeu ao metier e tascou um cavanhaque de Sr. Miyagi). Os filmes de Hollywood parecem estar sofisticando a metodologia do “aprender a bater”, nada mais daquela gentalha de gangues-de-rua e sociopatas de Alcatraz. Todos agora tem um “mestre”.
O elenco do filme é “abrilhantado” por vários rostos famigerados: Morgan Freeman, Michael Caine, Tom Wilkinson, Kate Holmes (a futura Mrs. Tom Cruise), entre outros. O destaque especial é para o-recorrente-vilão-de-todos-os-filmes Gary Oldman no papel do policial correto e prestativo, Jim Gordon. Quem já se acostumou a vê-lo sempre maquinando contra os mocinhos, não consegue deixar de imaginar que a qualquer momento ele apunhalará Batman pelas costas (o que não acontece, logicamente). Outro bom resgate foi o envelhecido ator Rutger Hauer de Feitiço de Áquila (top 10 - Sessão da Tarde) e Blade Runner, que caiu no ostracismo ao longo dos anos, imerso em títulos B de ação.
Apesar do primoroso casting, quem rouba a cena mesmo é o personagem central da trama: o medo. Ele é o inimigo número um do homem-morcego e vencê-lo será seu grande desafio. Batman é um homem que se personifica de medo no único intuito de poder combatê-lo, encontrando no temor a força motriz para reagir e buscar a superação – puro Freud. E olha que este é apenas o começo... ¤
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