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Terrorista é o Batman
Por Rafael Lima — Quarta, 22 de junho de 2005
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PRIMEIRO AVISO: quem não viu Batman Begins deve pular esta coluna a menos que queira saber informações sobre a caracterização de alguns personagens antes de ir ao cinema. SEGUNDO AVISO: quem viu esteja preparado para a defesa de uma opinião pessoal e intransferível a partir de agora.
Negócio seguinte: Batman Begins comete um erro justo onde mais vem colhendo elogios, a construção e a caracterização do personagem-título.
No conflito que se estabelece entre Batman e Ra's al Ghul ao longo da película, fica evidente a diferença que os separa: a clemência. Batman tem em sua personalidade um traço que o impede de se tornar o justiceiro vingativo que Ra's al Ghul é. Também fica evidente o que os une: a capacidade de provocar o medo; o auto-controle que os faz dominar o próprio medo e, assim, causar medo nas outras pessoas. Agir através do medo é a tática de ambos, o que os credencia como autênticos terroristas. Essa afirmação não deveria causar surpresa a ninguém, dado que os roteiristas do filme informaram para quem quis ouvir que a construção do personagem de Ra's al Ghul foi inspirado em Osama Bin Laden.
Na verdade, nem mesmo a afirmação de que Batman é um terrorista deveria causar espanto. Desde as primeiras histórias, na década de 40, Bob Kane concebeu-o como alguém que usaria uma imagem das sombras para causar medo nos malfeitores; Frank Miller resgatou como ninguém esse conceito, ao desenhar o Batman de Cavaleiro das Trevas, história revestida de fortes cores políticas. The Dark Knight Returns passa-se na década de 80, em plena era Reagan, quando os EUA interviam militarmente em países periféricos e a corrupção marcava a cena política. Nesse contexto, o Batman idoso de Miller é quase um anarquista, alguém que se nega a respeitar a ordem vigente – que proibira a atuação de super-heróis, anos antes – e usa o mote da justiça com as próprias mãos para descarregar sob forma de bordoadas um bocado da frustração decorrente do peso da idade, do caos social que se instaurou na sua ausência, dos pesadelos recorrentes causados pelos morcegos. E ai de quem saísse da linha por perto dele.
Esse mesmo Batman, na continuação de Cavaleiro das Trevas, The Dark Knight Strikes Again, rasga a fantasia e assume de vez seu lado terrorista. Se em Cavaleiro das Trevas ele é um ativista político, um líder das massas, um rebelde (mesmo que, no fundo, só quisesse impor seu próprio conceito de ordem), em O Retorno, ele é já um guerrilheiro, um criminoso assumido, nada menos do que um terrorista. Eis o foco da questão: o personagem explorado por Frank Miller ficou tão interessante por apresentar esse paradoxo de ser um criminoso "do bem", de unir em si mesmo a semente do mal (vinda do terror) e a semente do bem (objetivo de seus atos). Como os dois são inconciliáveis, Batman torna-se, necessariamente, um ser atormentado, assombrado por pesadelos, que consome a si mesmo, na sua luta. Um neurótico cuja terapia realimenta a própria neurose. Frank Miller teve a genialidade de sacar e explorar este conflito, estabelecendo um padrão de comportamento repetido nas histórias que se seguiram e que angariam, merecidamente, legiões de fãs: Asilo Arkham (onde Batman acaba se identificando com os loucos criminosos encerrados no manicômio), A Piada Mortal (onde Alan Moore estabelece uma simbiose entre Batman e Coringa, inclusive através de seus passados), Ano Um (onde Batman confunde-se com os marginais que pretende combater).
O começo do filme dá toda a pinta que esse conceito vai ser aplicado: Bruce Wayne aparece numa prisão aparentemente asiática, em meio a delinqüentes, tal e qual nos quadrinhos de David Mazzuchelli. Porém, à medida que a película avança e sua personalidade vai sendo construída, todo e qualquer conflito por usar o método do terror – um método típico dos criminosos, não dos mocinhos – desaparece da consciência de Wayne, como se o fato de que ele estivesse usando-o para propagar o bem redimisse qualquer problema de consciência. E como se sabe, não é assim que a banda toca; por exemplo, o hoje deputado Gabeira, ex-guerrilheiro no regime militar, renega suas ações terroristas por acreditar que nada justificar atentar contra a vida, por crer que as táticas terroristas invalidam a conquista, qualquer que seja.
Ra's al Ghul não acredita nisso em Batman Begins; é maquiavélico na busca de seus objetivos, não contabiliza os mortos no caminho. E Batman é o único que pode usar métodos terroristas sem que isso lhe cobre a consciência – perturbada, sim, mas somente pela culpa da morte dos pais, pela incapacidade de se vingar e, em maior escala, de varrer o mal da face de Gotham. Mas, em nenhum momento, por se igualar ao seu adversário nos métodos de atuação.
Isso faz do Batman das telas um personagem significativamente menos complexo e mais maniqueísta do que o dos quadrinhos. ¤
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