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Se ao menos eu pudesse
Por Alexandre Maron — Segunda, 10 de novembro de 2003
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Os escritores, ou seja lá quem cria ficção, são uns inconformados. Não podem mudar o mundo, então criam mundos para mudar. E nos últimos anos, uma coisa que aparecia só de vez em quando começou a surgir aos montes, as séries ou filmes que falam de como seria se nós pudéssemos mudar o passado.
Antes era só o “Early Edition” e volte e meia aparecia um ou outro filme como o “Feitiço do Tempo” que debatia essa idéia. Claro. Qualquer um de nós gostaria de voltar ao passado e refazê-lo melhor para que o presente fosse mais ao nosso gosto.
Da mesma forma, criar seres humanos com capacidades especiais segue o mesmo princípio: “como seria se tivéssemos a capacidade de mudar o mundo?”.
São fantasias infantis, mas deliciosas. E alimentam a ficção o tempo todo. Nos últimos anos, surgiram duas séries que mostravam homens na casa dos 30 voltando à adolescência e fazendo tudo diferente. Este ano, “Tru Calling” mostra uma menina que recebe chamados de pessoas mortas e volta no tempo para evitar as suas mortes. A série, se sobreviver no disputado mercado americano, deve estrear no Brasil em março do ano que vem, na Fox.
Tru mistura “Corra Lola Corra”, “Feitiço do Tempo” e o próprio “Early Edition” e, se não encontrar uma fórmula que não seja a repetição da sequência “chamado-investigação acidentada-resolução no último segundo”, vai virar uma daquelas séries nova era escrotíssimas ao estilo de “Touched by an Angel”.
No primeiro episódio, salva o irmão, ajuda a irmã e ainda a pessoa morta do dia. No segundo, acerta as contas com o namorado infiel, compra uma camisa que tiraram de suas mãos numa loja e ainda evita a queda de um açucareirio e a morte de uma garotinha. Nas próximas semanas, espero que ela subverta esta fórmula.
Mas a série ainda é jovem e a gente nem sabe se vai cuidar bem dessa premissa da volta no tempo. A ficção já teve representantes de primeira. Ou você se esqueceu de “De Volta para o Futuro” e o próprio já citado “Corra Lola Corra”? O mais importante nessas séries é que elas materializam um sentimento de inconformismo mesmo, nada de dizer “tudo bem”, aceite seu destino e pronto. O que eu odeio é quando rolam aquelas obras nas quais o passado é imutável, o destino foi traçado e pronto.
Uma ótima referência para se discutir viagem no tempo e suas múltiplas possibilidades de histórias é o livro “O Fim da Eternidade”, que está sendo roteirizado e pode virar filme. Ali, o herói é um técnico que faz consertos no tempo e, durante seus trabalhos, faz que pessoas apareçam ou desapareçam. Até que um dia ele se apaixona por uma moça que irá desaparecer após uma alteração em uma linha temporal e resolve salvá-la. No prefácio desta obra, Isaac Asimov conta que tentou discutir todos os paradoxos possíveis da viagem no tempo. Fora a pretensão do mestre, a história é bem bacana.
Os jogadores de RPG ganharam uma outra obra que discute até com mais propriedade as possibilidades e pode ser lida com gosto até por quem nunca pensou em fazer uma sessão que seja do jogo nerd por excelência. É o caso do GURPS Viagem no Tempo, editado no Brasil pela Devir.
Ali, está esquematizado quais são os tipos de história de viagens no tempo explicando que há aquelas em que é possível mudar o passado e aquelas em que isso não é possível e que há as variações nas quais ao se fazer uma mudança entra-se em outra maluquice, os mundos paralelos...
É a senha pra parar. É pra gente ver aonde nos leva o inconformismo de um criador de histórias. Ele não se conforma em criar os personagens, o cenário e contar as suas idéias. Seu próximo passo é voltar atrás e desfazer o que fez, pra depois fazer tudo outra vez.
* * *
Boa Notícia: “Jake 2.0” a série que eu elogiei algumas semanas atrás por ter aquele gostinho de Peter Parker, o alter ego do Homem-Aranha, foi confirmada pelo canal americano para ter uma temporada completa de 22 episódios. Acho que ela tem cara de AXN aqui no Brasil, vamos ver.
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