Cerebus quase lá

Por Rafael Lima — Segunda, 10 de novembro de 2003

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O final da década de 70 foi uma época para os quadrinhos norte-americanos assim como a sístole que precede a diástole. Quem encontrasse nas bancas o último número Luke Cage, Herói de Aluguel, não poderia conceber a magnífica explosão criativa da década seguinte. Se tivesse a pachorra de conferir uma revista em quadrinhos independente recém-lançada, Cerebus, não seria capaz de acreditar que aquela história engraçada porém em estilo ainda vacilante, evoluiria em desenho e sobretudo roteiro, conquistando lugar em qualquer lista dos maiores quadrinhos de todos os tempos.

Dave Sim era apenas um fã tornado profissional com uma breve carreira nos quadrinhos quando decidiu bancar sua própria empreitada, criando e editando título próprio: Cerebus. Tratava-se de uma paródia das histórias tipo espada & magia de Conan, então sucesso de público, sob a pena de Barry Windsor-Smith (grande influência no estilo inicial de Sim), com um pequeno detalhe: no papel do mercenário bárbaro, uma espécie de tamanduá estilizado, falante, empunhando um gládio. A idéia do único animalzinho num mundo de humanos viera do contemporâneo Howard, the Duck, o revolucionário “pato entre homens” do universo Marvel, em roteiros cheios da chamada contrapartida social e ação, furiosamente redigidos pelo esquecido Steve Gerber. Dave Sim conta que nos primeiros anos a pindaíba era tal que teria feito mais grana trabalhando de baby sitter do que publicando seu gibi. Ninguém notou quando ele disse que a revista cobriria toda a vida do personagem central, numa seqüência só, coerente e longa (como uma vida), culminando com sua morte na 300ª edição, a última.

Quando esse texto for ao ar, a edição de número 293 já estará pronta, Sim já estará desenhando a de dois meses depois e todo o roteiro do último número já estará pronto em sua cabeça. Nesses 26 anos de publicação ininterrupta, Cerebus passou de mercenário bárbaro a prefeito e de prefeito a Papa, decaindo à sua primeiro ocupação. Foi barman, apaixonou-se, casou-se e se separou, nunca perdendo a teimosia e irritabilidade típicas de sua personalidade. Fez aparições especiais ao lado de Flaming Carrot (de Bob Burden), das Tartarugas Ninja, do Spirit (de Will Eisner) e do Spawn, história nunca publicada no Brasil por causa de uma briga em torno de direitos autorais com Todd McFarlane. Dave Sim ganhou inúmeros prêmios de excelência, foi capa de várias revistas especializadas (ou não), fomentou o mercado dos publicadores independentes, descobriu e apadrinhou vários talentos, defendeu intensamente os direitos autorais, enriqueceu muito e arrumou um brilhante desenhista, Gherard, só para fazer os fundos das histórias – cada vez mais ocupadas por idiossincráticos personagens parodiando figuras notórias da ficção (Sandman, Príncipe Valente, Wolverine), das artes (Marty Feldman, Mick Jagger e Keith Richards, Oscar Wilde, Norman Mailer) e até da política (Margareth Tatcher). Sim só viu sua popularidade decair, depois de anos de reconhecimento de crítica e público, quando embicou numa série de histórias francamente misóginas (no arco Mothers & Daughters), o que lhe custou críticas das feministas, perda de leitores e o afastamento de amigos, até mesmo a leitora teste e editora Diana Schultz.

Talvez o mais extraordinário seja que, lendo as histórias em seqüência, não dê para discernir claramente o ponto onde Sim sai da “grande sala onde todos os quadrinhistas se encontram” para atravessar aquela portinha onde tem uma plaqueta pendurada: Só Gênios. Porque é incomparável o quanto as histórias crescem em páginas, os roteiros crescem em densidade, os diálogos crescem em caracterização. Dave Sim parece esgotar todo o potencial narrativo dos quadrinhos encadeando às vezes vinte ou trinta revistas em série numa única história que ultrapassa as 500 páginas; a inacreditável Church & State tem dois volumes de 600 páginas cada um! (Para fins de comparação, Watchmen ou Ronin não passam de 400, cada) Não foi à toa que Alan Moore afirmou que Cerebus é o átomo de Hidrogênio das Hqs. Qualquer lista com as melhores graphic novels da década de 80 não está completa sem High Society – e olha que é a década de Love & Rockets, de A Piada Mortal e de Maus; nenhum leitor de Hqs pode se dizer verdadeiro conhecedor sem ter lido que seja uma única edição de Cerebus.

E estamos a menos de um ano disso tudo acabar.




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