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Nós Lemos: Arrowsmith, A Guerra da Magia
Por Felipe Meyer — Segunda, 13 de junho de 2005
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É realmente bastante difícil iniciar uma resenha de Arrowsmith, A Guerra da Magia (publicada pela Devir) sem cair no vício de repetir os grandes trabalhos anteriores de Kurt Busiek. É difícil principalmente não dizer que a fórmula utilizada em Marvels e Astro City foi reutilizada com maestria nesse outro trabalho de Busiek. E é difícil, também, não parecer confuso ao afirmar que o resultado obtido em Arrowsmith nada tem a ver com as outras séries citadas.
Então farei um esforço extra pra não dizer essas coisas. Em resumo, Arrowsmith conta a história de Fletcher Arrowsmith, um rapaz de quinze anos que ouve falar da guerra que assola a distante Europa nos primeiros anos do século XX e, para desgosto de seu pai, sonha em voar sobre os campos de batalha defendendo a liberdade e as pessoas de boa índole. Fletcher, de fato, se parece muito com muitos rapazes de quinze anos que vemos em livros e filmes que se passam durante a primeira guerra mundial. E a história de como ele foge de casa para se tornar um grande soldado talvez viesse a ser só mais uma das tantas que já ouvimos, não fosse por Hilda, a pequena dragão fêmea que lhe permite voar sem um avião e os feitiços que lhe foram ensinados para combater a ameaça prussiana. Fletcher é um voador, membro da Unidade Aérea Ultramarina e responsável por combater vampiros, lobisomens e qualquer novo desafio lançado pelo Imperador Sangue, um morto-vivo de poderes incríveis que supostamente controla a Prússia, a Tyrolia (ou Áustria, como a conhecemos) e a Bavária.
O mundo descrito por Busiek é rico em detalhes, não só nos trolls, ogros, fadas e dragões mas em todas as referências históricas. Isso se dá em grande parte ao auxílio de Lawrence Watt-Evans, vencedor do prêmio Hugo de ficção científica, e que colaborou com Busiek escrevendo nada mais que mil e cem anos de história do mundo de Arrowsmith. Os dois já haviam trabalhado juntos no romance Spider-Man: Goblin Moon, que Evans assina com o pseudônimo de Nathan Archer. A estrutura da narrativa se assemelha muito aos romances de guerra comuns: um jovem corta os laços com sua vida anterior e sai em busca de glória e aventura, somente para descobrir que o mundo lá fora não é como suas fantasias e se arrepender da jornada que o fez amadurecer tão rapidamente. Inclusive lembra bastante um livro da década de vinte com o mesmo nome (Arrowsmith, Sinclair Lewis, 1925) e que conta a trajetória de um jovem cientista cheio de ideais até descobrir os fins terríveis a que se destinam suas pesquisas e os limites que ele mesmo cruza para provar suas descobertas.
A arte do espanhol Carlos Pacheco é perfeita para tornar reais as fantasias criadas por Busiek. Ao vermos cidades como Paris e Nova Iorque retratadas com tanta fidelidade, a bela arquitetura do início do século XX em suas igrejas e monumentos nos salta aos olhos com tanta força que quase deixamos de notar os anões e ogros que caminham pelas ruas, mesclados à paisagem. As roupas são outro detalhe interessante, unindo elementos medievais à maneira de vestir típica da Belle Époque.
As cores de Alex Sinclair passam uma constante sensação de tristeza e depressão que não desaparece mesmo com as luzes e explosões mágicas que tomam conta da história. Podem-se perceber sutis mudanças na coloração das peles e dos cabelos dos personagens de acordo com o ambiente à sua volta, quando adentram as sombras ou vão de um cômodo a outro. A Devir caprichou na diagramação e eu notei poucos erros no letreiramento (se limitando a algumas das cartas que Fletcher escreve à sua mãe). A opção de não traduzir algumas falas do alemão e francês pode parecer confusa para alguns, mas respeita a intenção original de causar um estranhamento às diferentes nações que se unem em prol da mesma causa.
A edição publicada no Brasil pela Devir equivale às seis edições da mini-série Arrowsmith da Wild Storm, a primeira de uma série de mini-séries que explorarão o cenário, e que foi reunida no encadernado So Smart in their Fine Uniforms (“Tão elegantes em seus belos uniformes”).
Com personagens cativantes e uma grande amostra da imaginação de seus personagens, Arrowsmith, A Guerra da Magia é uma leitura gostosa e de altíssimo nível, tanto para os fãs de fantasia quanto de ficção científica. Obrigatória para se ter na prateleira e reler de vez em quando, enquanto não surgem novos títulos da série. ¤
Arrowsmith - A Guerra da Magia. Editora Devir. 160 páginas. Preço: R$ 51,00
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