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Por Rafael Lima — Sexta, 10 de junho de 2005

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Suponha a seguinte cena: você vai até a banca da esquina, corre os olhos pelas novidades e saca um álbum europeu completo, com as cores originais; apenas impresso como revista: em papel vagabundo e capa mole para viabilizar uma edição popular. Ficção científica? Só no roteiro - desde que a Ediouro reabriu sua linha de quadrinhos (houve uma tentativa antes, há uns 5 anos) com Aquablue, primeira de uma série escrita por Cailleteau e desenhada por Vatine.

As primeiras páginas indicam que o roteirista fez direitinho o dever de casa do curso de mitologia de Joseph Campbell: personagem de origem divina tem nascimento em meio a catástrofes, é criado longe dos pais biológicos e se defronta com rito de passagem ao chegar na idade adulta. Podia ser a descrição de Édipo, podia ser Tarzan ou o Super-Homem; nesse caso, é Nao, humano – é sempre importante fazer essa distinção de raça numa série de ficção científica, onde a qualquer hora pode aparecer um verdinho – que escapa, bebê, em uma nave espacial, sendo criado por um robô e aprendendo tudo sobre o mundo em disquetes e telas de computador.

Aos 8 anos de idade, a nave onde se encontram entra na órbita de um planeta habitável, o qual escolhem para aterrisar; um planeta praticamente coberto por água chamado... Aquablue (quem disse Terra vai para o cantinho e, de castigo, lê o livro do Sebastião Salgado 3 vezes). O robô acaba sendo danificado e Nao, reconhecido como uma entidade divina pelos nativos aquáticos que passam a criá-lo. O clima é total Waterworld, ou simplesmente Tarzan debaixo d'água, com a sutil distinção que a história de Cailleteau foi publicada 4 anos antes do filme de Kevin Costner. No dia do ritual de entrada na vida adulta de Nao, uma nave espacial com humanos aterrisa em Aquablue em missão de pesquisa científica, e à medida que o ecologista Maurice Dupré tenta descobrir o nome de batismo de Nao, o roteiro ganha em complexidade e tensão; mais à frente, ele descobrirá que trata-se, na verdade, de um sobrinho de alguém beeem poderoso, com interesses econômicos no planeta aguado e, adivinhem?, sem um pingo de escrúpulos ou preocupações ecológicas. Onde já se viu vilão politicamente correto?

Não é difícil entender por que Aquablue fez sucesso na França, (seu país de origem, tendo sido premiada em Angoulême), na década de 80, quando a chamada conscientização ambiental chegou às massas. Tem aventura, intriga política, antropólogos interessados em povos exóticos e primitivos (alguém aí falou em Pierre Verger?), cenários paradisíacos, robôs metidos a engraçadinhos (alguém aí falou em Jerry Lewis?) e um discurso ecológico atravessando toda a trama, às vezes até nem tão sutilmente assim. Ou seja, tudo que francês – os mesmos que deram aquelas comendas literárias para o Paulo Coelho – gosta.
Olhando do ponto de vista do século XXI, quando defesa da ecologia já deixou de ser bandeira de malucos e discurso de partidos radicais para invadir declarações de missão no mundo corporativo (submetendo funcionários a campanhas de preservação e adotando práticas corretas, como a reciclagem de papel), o conteúdo de Aquablue soa um quê envelhecido, e os personagens, um tanto quanto esquematizados para renderem uma série. Olhando apenas para a arte, encontra-se um traço sem dúvida mais cuidado do que a média, embora bem aquém da qualidade de um Juan Gimenez, para ficar num símile da ficção científica.



Salva-se a concepção aquática do planeta, que alcançaria latitudes inesperadas nas telas, com brilhantes desenhos de espirros de água, mergulhos e tchibuns; a elegante fauna marinha criada por Vatine, onde tudo parece se mover com a elegância de arraias, e a perfeição clássica da narrativa e da diagramação européias, que nunca transforma a grade de 6 quadros por página numa prisão para o andamento. Não é um Astérix ou um Tintin, muito menos um Moebius ou um Hugo Pratt. É, por excelência, uma daquelas histórias gostosas de se ler, ir sendo apresentado aos poucos aos personagens, apreciar os detalhes de um quadrinho particular e, sobretudo, ler sem cansar dezenas de páginas – ao contrário do ejaculação precoce das rápidas 20 páginas de super-heróis. Se você não conhece nada da HQ européia, é ainda mais recomendável.




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