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Os últimos lançamentos do mercado americano
Por Felipe Meyer — Sexta, 10 de junho de 2005
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The Walking Dead #19
Às vezes o que eu mais gosto em Robert Kirkman é também o que eu mais odeio. Ele vem fazendo um trabalho fantástico em Invincible e eu chego até a me sentir culpado por não ter descoberto o cara antes. Mas o melhor trabalho dele, sem dúvida, ainda é The Walking Dead, e também pode-se dizer que é uma das melhores série sobre mortos-vivos já feita (competindo lado a lado, com certa vantagem, com a mente doentia de Steve Niles). A edição que chegou às lojas a menos de uma semana, a de número 19, é tão bem escrita que você acaba lendo a revista de uma vez só, e é aí que entra o meu comentário “amo e odeio”. Quando você percebe, está na seção de cartas se perguntando “como? Já acabou!?” e rezando pro próximo mês chegar logo.
É bom perceber também que Kirkman está cumprindo suas promessas. Desde o início da série, apesar de ser basicamente uma história com zumbis, o escritor insistia que era na verdade a história de Rick, o ex-policial que acabou assumindo a liderança do grupo; e a história de como uma pessoa é capaz de mudar completamente em circunstâncias de estresse. Depois de quase dois anos, Rick ainda é um dos poucos personagens que não viu sua família ser feita em pedaços pelos “roamers” (vagantes, como ele mesmo apelidou os zumbis que caminham sem rumo) e por isso mesmo é o que ainda tem mais a perder e o mais propenso a privar-se do controle a qualquer momento. Nas duas últimas edições, por exemplo, tomou decisões bastante frias e autoritárias que o Rick bonzinho do início da série nunca aprovaria. E fez isso sem pensar duas vezes.
Mais uma pra lista “tem que ser publicada em português”.
Exiles #65
Lembram da história do Ratinho e o Leão ferido? É mais ou menos nisso que se transformou Exiles, a série que pra mim sempre pareceu ter o mérito de contar as boas histórias que What if (no Brasil traduzido como O que aconteceria se...) tentou contar e nunca conseguiu. Mas como tudo que é bom, as boas histórias um dia também acabam, e aí surgem as fábulas como a do Ratinho e o Leão que, claro, têm seu valor, mas para crianças de cinco ou seis anos.
A conclusão do arco “Timebreakers”, em Exiles #65, pode ser resumida em duas coisas: pancadaria e mensagens bonitinhas do tipo “com um coração puro você pode tudo”.
Essa entra pra outra lista, a “vamos fingir que isso não aconteceu”.
House of M #1
Quando li as primeiras notícias de House of M não pude me conter e pensei “oh droga! Outro mega-crossover que mudará o universo Marvel como o conhecemos”. Desculpem-me os grandes fãs da casa das idéias, mas estou um pouco traumatizado depois de coisas como Heróis Renascem e todos os Infinitos alguma coisa, que causam grandes mudanças somente para permanecer tudo igual. Pronto. Tendo falado dos meus medos, deixem-me falar de como mordi a língua, mesmo que de leve. House of M, pelo menos até o momento, não se mostrou uma grande sacada, mas também não se mostrou uma grande porcaria. A reunião entre Vingadores e X-Men para decidir o destino da Feiticeira Escarlate de fato lembra a discussão sobre tirar ou não a vida de Thanos (nas séries Infinitas, já mencionadas) mas é só até aí que ficam as semelhanças. A discussão tem muito mais profundidade e você de fato consegue imaginar os personagens dizendo o que dizem, pois tem muito a ver com suas respectivas personalidades, ideais e, principalmente, com o que passaram recentemente. Wolverine, como sempre, é curto, grosso e parece ter toda a razão, o que não impede que se discorde dele. A edição não mostra muita coisa além disso, portanto não é possível realmente dizer se a série trará boas histórias ou se será só mais uma releitura boba do universo Marvel como as últimas edições de Exiles. Mas de fato dá aquela coceirinha quando você vê o Peter Parker acordando ao lado de uma loira e se pergunta “será Gwen Stacy?”.
A arte de Olivier Coipel não apresenta nada de muito inovador, mas admito que me agradam artistas que desenham uniformes que parecem roupas de verdade. A colorização de Frank D’Armata é bastante detalhista, mas destoa muito do traço e dá uma sensação de artificialidade, de excesso. O roteiro de Brian Michael Bendis é competente, como habitual, e o escritor soube trabalhar as personalidades de Magneto e Charles Xavier, mostrando o pior de um e o mais secreto de outro, sem mesmo assim nos fazer lembrar de Onslaught ou outras burradas da Marvel.
De qualquer modo, é muito cedo pra expressar uma opinião precisa sobre a série. Vale como curiosidade.
Elke’s Run
Outra série que talvez seja impossível fazer uma análise precisa sobre o pouco mostrado. Mas basicamente Elke’s Run parece ser uma história sobre gerações, intercalando o ponto de vista de um adolescente entediado e a de seu pai, um soldado veterano. Os dois vivem na cidade que dá nome à série, que um dia atraía muitos homens e suas famílias para trabalhar na mina de carvão, mas que hoje é quase uma cidade fantasma, em que os jovens penam para conseguir um pouco de diversão. Quando um adolescente morre vítima de um motorista bêbado, a cidade decide fazer justiça pelas próprias mãos, no melhor estilo “olho por olho”, sem se preocupar muito com o fato de que suas crianças assistem a tudo. A arte de Noel Tuazon tem um toque saudosista, com linhas grossas e um bom aproveitamento das sombras, mas com rostos bastante expressivos. As cores de Scott Keating são despretensiosas e dão um ar aquarelado aos desenhos, que funciona muito bem. A narrativa de Joshua Hale Fialkov é ágil, do tipo que faz você ler a revista em poucos minutos e ter a impressão de ter pulado algumas páginas (não sei dizer ainda se isso é bom ou ruim). No geral, a série é bem feita e competente no que se propõe. Mas ainda precisa mostrar melhor a que veio.
Son of Vulcan
Miguel Devante é um garoto com vários problemas. Ele vive em um lar para crianças abandonadas, tem uma única amiga no mundo e sempre que sai da linha (um conceito muito subjetivo, que pode simplesmente significar que ele foi a uma entrevista de emprego) é posto de volta ao “rumo certo” por um nada simpático bastão de madeira carinhosamente chamado de “a mensagem”. Um belo dia presencia um confronto entre super-seres e do dia para a noite vira o ajudante de um super-herói obscuro. Em resumo, essa é a história de Son of Vulcan, que reaproveita um antigo e pouco conhecido personagem da DC. Infelizmente não há como falar da revista sem acabar contando boa parte da história, mas nem por isso estraga a diversão. Não é uma obra de arte, mas com certeza entretém. A postura de Vulcan é quase satírica, brincando com o velho estereótipo dos super-heróis, suas missões e seus destinos gloriosos... e é exatamente essa postura que vai lhe trazer problemas (do tipo que não se resolve muito facilmente, se é que você me entende). E são exatamente esses “problemas” que devem tornar a série interessante daqui para frente. A arte de Keron Grant é até interessante, mas o apelo à estética mangá acaba deixando os meus olhos irritados. Scott Beatty tem uma narrativa interessante, bem jovial, e escreve ótimos diálogos. Juntando tudo, é como um gibi “sessão da tarde”. Divertido, mas não vai ganhar um Oscar (ou um Eisner).
Invincible #23
Tudo bem. A edição “zero” recontando a origem do personagem foi ótima pra preencher o espaço de tempo entre a edição 22 e a 23. Mas ainda assim foi quase insuportável a espera. Invincible foi realmente uma grande surpresa de 2003, quando a Image anunciou que iria retomar a linha “super-heroística”, e essa edição só confirma os motivos do sucesso dessa série. Tinha de ser, afinal é Robert Kirkman de novo. Dessa vez os desenhos ficam a cargo de Cory Walker, co-criador do herói adolescente: ele próprio só tem 14 anos.
Esse número dá continuidade aos eventos mostrados no número anterior e no “zero”, em que Mark decide contar à sua namorada que é o herói conhecido como Invincible. Basicamente, Kirkman se contém ao que todos estavam esperando: Mark vai se “dar bem”; e corta bruscamente para contar a história de Allen, o Alien (um nome tão bom quanto Marvin, o Marciano. É risada garantida), e de sua missão. Duas coisas me chamaram a atenção - e me permito mencioná-las aqui pois podem não ser spoiler, mas sim puro devaneio de minha mente paranóica - a ponto de me fazerem pensar longe: em certo momento, o narrador deixa escapar uma frase “a la Yoda” que impede de não reparar no quanto a capital da Coalizão de Planetas é parecida com Coruscant (capital da República de Guerra nas Estrelas); e Thaedus, chefe do alto conselho, é o único alienígena que eu vi em toda a série (tirando os Viltrumitas, a raça de origem de Invincible) com aparência humana. Tendo reparado nesses dois pontos, dá pra adicionar a relação que ele parece ter com Allen, o voto de confiança entre os dois e a exigência de que Allen reporte somente a ele pela suspeita de haver um espião no alto conselho. Faz ou não faz pensar em Anakin Skywalker e Palpatine?
Bom, como eu disse, pode ser pura imaginação. Leiam e me digam.
Girls #1
Muitos leitores devem ter se sentindo um pouco desolados (como eu) ao fim da mini-série Ultra, que mostrava sete dias da vida de uma super-heroína. Estes podem ficar mais tranqüilos com o lançamento de Girls, nova parceira dos irmãos Luna e que dessa vez mostra os problemas amorosos de um jovem rapaz, Ethan Daniels, totalmente desiludido com o sexo oposto. Antes de ler a revista, li uma nota em algum lugar onde os irmãos alertavam o público feminino (que com certeza deve ter sido conquistado por Ultra) de que podiam se sentir um pouco ofendidas com o novo trabalho. De fato, ao ler essa primeira edição (que esgotou e já ganhou uma segunda impressão) dá pra entender os motivos da preocupação. Em certo momento o jovem Ethan, bastante alcoolizado, decide descontar todos os traumas de sua vida nas mulheres presentes e cita um discurso bastante inflamado que eu não teria coragem de repetir na frente da minha namorada (mas que, não contem pra ela, eu adorei). Mas a história não é apenas sobre Ethan e sua incapacidade de transar. Algo muito estranho acontece ao fim da revista dando a chance de Ethan escapar das fêmeas enfurecidas e de um valente cavalheiro que decidiu defendê-las. Transtornado e fora de si, ele quase atropela uma jovem nua e confusa que, segundo os autores, mudará a vida de Ethan nas próximas edições e terá efeitos sobre todo o mundo. O momento do encontro dos dois tem um “quê” de Ghost in the Shell e com certeza faz você supor que a mulher em questão é mais que humana. A arte de Jonathan Luna está ótima, porém muito mais sombria que em Ultra. Não somente pelo fato de boa parte dos acontecimentos desse número se passarem à noite, mas é facilmente perceptível que é uma série mais madura, explorando melhor o lado “feio” dos personagens. A espera pelo próximo número vai ser difícil.
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