Amarga Pílula Vermelha

Por Douglas Donin — Segunda, 10 de novembro de 2003

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ATENÇÃO: O texto a seguir revelará fatos que podem entregar surpresas ou mudar a sua expectativa a respeito de “The Matrix Revolutions”. Logo, se você ainda não viu o filme e espera se surpreender, dê meia-volta agora mesmo! Prossiga a leitura por sua conta e risco!

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Ora, Meu Deus! “Matrix” na coluna Descarga! Isso é um mau sinal?

Com certeza. Mas o aviso foi dado e você mesmo assim continuou lendo, então acho que está pronto para a verdade. A pílula vermelha. Pronto para descer ao fundo da toca do coelho. Para apertar os cintos, porque Kansas vai ficar para trás. Esqueci algum clichê ou referência obrigatória? Hmm, acho que não...

Antes de tudo, vamos explicar: “Matrix” não se enquadra em nenhum ponto do conceito de “trash”. Muito longe disso! Tirando o Keanu Reeves, é uma franquia irretocável do ponto de vista técnico – e quando eu digo “técnico”, eu o faço afastando qualquer análise sobre a história.

Então “Matrix” é ruim? Muito menos. Se escaparmos da inevitável comparação com o primeiro filme, os outros ainda são muito acima da média dos filmes-pipoca que Hollywood vomita sobre os cinemas todo ano. Por que falar de “Matrix” aqui, então?

Porque, senhores, a história da franquia “Matrix” é uma história triste, muito triste. É a história dramática da ascensão e queda de um grande filme; da concepção de uma obra única por dois rapazes geniais, e de sua destruição nas mãos de grande e conservador estúdio. É a história de pessoas erradas com o material certo na mão. É a história do que podia ser e não foi. Mas, acima de tudo, é um retrato fiel e emblemático da mentalidade retrógrada de Hollywood.

Como diz o cartaz – e como você, com certeza, já cansou de ler em todas as críticas - “Tudo o que tem um começo, tem um fim”. Bem, pelo menos isso: com “The Matrix Revolutions”, o universo ficcional mais bacana, interessante, estiloso e promissor criado pelo cinema nos últimos tempos finalmente leva o seu golpe de misericórdia e pode finalmente descansar em paz no Céu das Franquias que Já Morreram, se é que há alguma franquia que já morreu. E que Joel Silver seja condenado à pena de morte se resolver exumar o corpo da série, como andam dizendo os boatos (e eu aposto minha mão esquerda que muita gente graúda da Warner anda fazendo lobby para que isso aconteça).

Depois de seis meses agonizando devido à perda de credibilidade causada por “Reloaded” - que transformou explícita e definitivamente a franquia em um caça-níqueis pretensioso - “Revolutions” apenas confirma o que todo mundo já sabia: o primeiro “Matrix” foi apenas um lampejo de genialidade de uma indústria marcada pela burrice e conservadorismo, uma genialidade que se esgotou de maneira tão rápida como apareceu.

Não vou, aqui, resenhar o filme. Você pode encontrar críticas específicas bem mais elaboradas feitas pelos nossos outros colunistas – e também mais amenas e amigáveis que esta. Não pretendo falar deste terceiro filme, mas da trilogia como um conjunto. Agora que ela já acabou, podemos fazer isto com uma certa segurança – e SÓ agora. Aqui vai, leitor, a história completa dos três filmes, tal qual, a julgar pelos indícios que vieram a nós, provavelmente aconteceu.


A MATRIZ


Em primeiro lugar, “Matrix” não é uma trilogia. É um filme com duas continuações, o que é bem diferente (ou, dependendo do ponto de vista, é um filme com uma continuação dividida em duas partes). Os Irmãos Wachovski não “tinham desde o início a idéia de uma trilogia” coisa nenhuma – isso foi uma clara estratégia para iludir quem ficou fascinado com o primeiro filme. Você foi feito de trouxa, eu fui feito de trouxa, todos foram feitos de trouxa.

Explico: ninguém apostava no sucesso (leia-se “lucro”) que “The Matrix” fez. O filme iria pagar o investimento e garantir alguns trocados, quando muito – esta era a expectativa da Warner. Era um projeto muito inovador, fora dos padrões, estranho. E Hollywood odeia, abomina, rejeita inovações. E droga, era um filme de hackers! Com exceção da Pamela Anderson e do pessoal do Pentágono, quem se importa com hackers?

Joel Silver, o produtor de "Matrix"– aquele que nos extras dos DVDs aparece falando como se fosse o menino de 12 anos fã número um da série – só deve ter aceitado produzir “aquele filme chato de hackers” depois de muita insistência dos irmãos Wachowski. Nem ele nem ninguém na Warner deve ter entendido muito bem do que se tratava “The Matrix”. Ainda bem, porque se os irmãos Wachovski fossem vender o filme como uma metáfora filosófica para a realidade e a aparência ilusória das coisas, calcada na mitologia, religião e o caramba-a-quatro, nunca teríamos “The Matrix”. Sorte nossa que eles devem ter começado a explicação pela parte do Kung-fu e tiroteio.

Mas mesmo assim, o bolo foi para o forno, cresceu, assou, e as pessoas ao redor do mundo comeram e gostaram. E contra a expectativa mais otimista, o filme fez sucesso, muito sucesso. O quê aconteceu? Ora, o óbvio: a Warner queria mais.

Mas aí os Irmãos Wachovski já haviam estourado todos os cartuchos. O próprio final de “The Matrix” passava uma mensagem do tipo “Neo ficou tão poderoso que eventualmente destruiu a Matriz, e todos foram felizes para sempre”. “The Matrix” tinha uma história completa, com três atos, embora o terceiro não fosse mostrado explicitamente. E em termos de evolução dos personagens, não havia muito o que fazer a partir dali - pelo menos, não de uma maneira que já não tivesse sido mostrado em Dragon Ball. E isso era um consenso na época: o não-fim de “Matrix” já era fim suficiente para todos... exceção feita, claro, aos fãs de Dragon Ball, que vão vibrar com "Revolutions". Ninguém queria ver filmes com Neo voando ou jogando bolas de energia, da mesma maneira que todos duvidavam da utilidade de qualquer adição àquele universo ficcional.

E foi aí que a primeira oportunidade de ouro dos Irmãos Wachovski foi perdida: a oportunidade de encerrar a série ali mesmo e entrar para a história como gênios, como garotos-prodígio do cinema, fama que já tinham. E eles estavam cegos demais, aproveitando esta doce fama.

And for a time, it was good.


A MATRIZ REINICIALIZADA

Mas os pobres Irmãos, acorrentados pelos contratos à prova de fuga do cinemão moderno, se colocaram a trabalhar. Devemos dizer aqui que a culpa não é deles: imaginar coisas criativas e originais não é algo que se possa programar. Ninguém acorda e diz: “ah, hoje vou ir para o trabalho, sentar e criar algo criativo e original”. Estas coisas simplesmente acontecem quando nós menos esperamos. E como toda a munição criativa dos Irmãos Wachovski foi descarregada no primeiro filme, não havia muito a fazer. Era sentar e esperar a boa idéia baixar, como uma alma-penada em uma sessão espírita.

Três anos se passaram, e a “boa idéia” não veio. Os espíritos de William Gibson e Bruce Sterling não encarnaram nos Irmãos Wachovski. E os atores – e também o Keanu Reeves – estavam batendo na porta do banheiro, avisando que as gravações estavam para começar. Meu Deus, o que fazer?

Claro que nada bom pode sair de um cenário destes. E assim, “The Matrix Reloaded” nasceu, da necessidade de acrescentar algo ao que já estava completo, como uma simples acumulação de cenas de pancadaria e explosões empilhadas – exatamente o que o estúdio encomendou – recheadas com um palavreado aleatório difícil que não quisesse dizer absolutamente nada, mas que os fãs mais imaginativos fariam o favor de analisar a fundo em madrugadas a fio na Internet. E estes fãs acabariam por preencher as lacunas do filme, transformando-o em algo inteligente. Ou seja, “The Matrix Reloaded” seria o equivalente cinematográfico de um gigantesco livrinho de colorir.

Mas Aristóteles já dizia: “é muito mais fácil parecer ser o David Lynch do que realmente sê-lo”. Uma coisa é deixar lacunas abertas para preservar a subjetividade do espectador e incentivar a imaginação, outra é não preencher as lacunas por que não pensou em nada bom. E assim, o papo furado de “The Matrix Reloaded” pareceu artificial para todo mundo. Não havia significado por trás de nada, eram simplesmente jogos de palavras vazios.

Claro, registremos aqui o golpe-de-sorte mais acidental da história: O Caso da Segunda Matriz.

Convenhamos: seria um clichê monstruoso. Mas não seria de todo ruim: imaginem se este segredo fosse bem-guardado até o final do terceiro filme. Imaginem que no final, depois de levar uma surra homérica das máquinas, e pouco antes da Derrota Definitiva e Inevitável, Neo olha em volta e diz: “esperem, alguma coisa está errada!” – e desperta para a VERDADEIRA realidade, exatamente como o garoto de Animatrix, e onde consegue vencer as máquinas que nunca preveriam este movimento.

Ora, há clichês que vêm para o bem. A história toda faria sentido. Mesmo o discurso incompreensível do Arquiteto faria sentido – cada palavra. O caráter messiânico de Neo faria todo o sentido do mundo – como Marx, as máquinas saberiam que os humanos adoram se iludir com uma religião e armariam o palco, com os atores perfeitos: Oráculo, Smith e Companhia Teatral. Isso os deixaria mansinhos, mansinhos. E o título de “Escolhido” de Neo ganharia uma nova e brilhante conotação.

E assim, por seis meses, “Reloaded” fez sentido. And for a time, it was good.

Mas deixemos de divagações. Agora finalmente sabemos que esta hipótese nunca passou pela cabeça dos Irmãos, e temos uma prova muito forte disso: o final do terceiro filme. Se eles tivessem a idéia da Segunda Matriz na época da confecção do roteiro, nunca terminariam a saga do jeito que acabou. Ninguém com bom-senso trocaria um desfecho pelo outro. E neste ponto a Via Crucis dos Irmãos Wachovski chegava ao segundo estágio, quando eles solenemente fizeram questão de não perceber o que acidentalmente a indecisa edição final do próprio filme terminou por acidentalmente sugerir. É no que dá escrever um roteiro e não pedir para ninguém ler.


AS REVOLUÇÕES NA MATRIZ

Chegamos ao fim com “The Matrix Revolutions”. Este título é irônico. Pois sob o título “Revolutions” agrupamos uma das maiores e mais completas coleções de clichês da história do cinema moderno (alguém notou se tinha um close de bandeira americana no filme?), indo na exata contra-mão da revolução cinematográfica, estética e cultural que foi “The Matrix”. No quesito "clichês", "Revolutions" parece um gigantesco Independence Day com cobertura de caramelo, tão "revolucionário" quanto um casamento de capítulo final de novela das oito..

“The Matrix Revolutions” finca os dois pés no conservadorismo. Para não estragar a surpresa, direi apenas que temos clichês de todos os tamanhos, tipos e gostos, sem nomeá-los: você irá se divertir aos montes caçando os chavões a cada minuto. Embora o filme não seja terrível como foi “Reloaded”, não chega a um quinto da qualidade do primeiro: é cheio de personagens que somem tão rápido quanto aparecem, diálogos vexaminosos, incoerências e furos de roteiro. Mas custa acreditar que você está assistindo a algo saído do mesmo útero que aquele filme genial de 4 anos atrás - tanto que eu não acredito até agora.

“Revolutions” foi filmado ao mesmo tempo que “Reloaded” – e quando eu digo “ao mesmo tempo”, eu quero dizer “tarde demais para mudar qualquer coisa”. Qualquer idéia que possa ter surgido nos fóruns de discussão não poderia nunca ser aproveitada. Logo, não he relação alguma de causa e conseqüência entre a frustração causada por “Reloaded” e a confecção do roteiro furado de “Revolutions”. E, caso as cenas já filmadas fossem de algum modo editadas para aproveitar as idéias e interpretações geniais dos fãs que pipocaram na Internet, “Revolutions” teria REALMENTE todos os motivos do mundo para ser assunto de uma coluna sobre trash. Este foi o último e definitivo erro dos Irmãos: a pressa.

Mas "Revolutions" diverte, tanto quanto irrita. Diverte bastante, em certos momentos, se você fingir para si mesmo que está assistindo outra coisa. O problema é que “The Matrix” não era simplesmente “um filme divertido”, era algo maior. Era um movimento cultural. Era simbólico. Era metafórico, profundo, e “Revolutions” encerra de vez a esperança de ver estes atributos de volta à franquia.

Por isso, possivelmente, nos sites especializados as notas de “Revolutions” serão mais baixas do que as de “Reloaded”, embora unanimemente as pessoas admitam que gostaram mais do que a segunda parte. Este fenômeno possui explicação: apenas depois de quatro anos as pessoas conseguiram perceber que estavam sendo enganadas. Ou para utilizar a simbologia de um excelente filme conhecido: depois de ver a esperança ser pisoteada e estraçalhada pelo final da saga, percebemos que estávamos em uma bolha rosada, ligados por fios ao cinema de Hollywood, procurando em duas continuações vazias de um filme genial um sentido oculto que nunca existiu.

A pílula vermelha é muito, muito amarga.




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