
Talvez aqui no Brasil não tenhamos idéia do tamanho do culto a
Douglas Adams e à sua maior obra, o
O Guia do Mochileiro das Galáxias. Marco importantíssimo na literatura de ficção científica do século XX, a sátira do Adams possui um exército de fãs lá fora, capazes de tirar instantaneamente da manga citações dos livros a toda hora, coisa que a maioria dos nerds de nível médio brasileiros conseguem também fazer com a obra máxima do Monty Python (com quem Douglas Adams já trabalhou),
O Cálice Sagrado.
No entanto, apesar de ser um clássico absoluto lá fora, aqui no Brasil nunca teve a publicidade que merecia. Contando com apenas uma edição antiga, esgotada e virtualmente desaparecida da obra, publicada há eras pela Editora Brasiliense, o público nacional só teve uma chance significativa de acompanhar as aventuras espaciais de
Arthur Dent e
Ford Prefect graças ao lançamento às pressas da série pela antenada Editora Sextante, a mesma que correu na frente para lançar
O Código da Vinci antes de toda a febre.
Não fosse por isso,
O Guia do Mochileiro das Galáxias, que chega aos cinemas brasileiros em uma caprichadíssima produção, seria encarado pelo público nacional como apenas "mais um filme baseado em um livro que ninguém sabia que existia". Salvo na última hora deste terrível destino - felizmente - ainda temos outras preocupações: estaria o filme à altura do texto inteligente, hilariante, altamente irônico e sarcástico de Adams? Dá para entender alguma coisa mesmo sem ter lido o livro? Quem é este tal "Deus", afinal?

Bem, para responder a estas perguntas da maneira menos clara possível, vamos apelar para uma metáfora.
Imagine que você está nos corredores do Louvre, observando as maiores obras dos gênios renascentistas, onde cada detalhe de cada quadro, por menor que seja, toca profundamente o seu espírito.
Bem, isso é ler o texto de Douglas Adams.
Agora imagine que você percorre os mesmos corredores dentro do museu, passa pelas mesmas obras, cuja beleza individual permanece a mesma, mas desta vez faz todo o percurso dentro de um carro a 200 quilômetros por hora, olhando pela janela.
Esta é a sensação de assistir a
O Guia do Mochileiro das Galáxias na tela do cinema. Tudo esta lá, os personagens, as tiradas, os símbolos, mas seria bem melhor se todas as situações que o roteiro traz (e não são poucas as reviravoltas, acreditem) pudessem ser vistas com mais calma, digeridas com menos pressa, com pausa para respirar e entender o que exatamente Adams quis dizer entre uma e outra situação.
Na ânsia de, em apenas duas horas, ser fiel à estrutura da história, acabamos deixando pelo caminho diálogos, descrições e outras passagens hilariantes. Por exemplo, em determinada parte da história, Arthur Dent discute com um funcionário da prefeitura que pretende demolir sua casa. Alertado pelo funcionário que o projeto acerca da demolição estava o tempo inteiro em exposição na prefeitura, Arthur responde que somente encontrou o projeto em um porão sem escadas de acesso, dentro de um banheiro trancado com uma placa de "cuidado com o leopardo". No filme, este crescendo de nonsense foi reduzido a um simples "é, mas o projeto estava no porão".
Por isso mesmo,
O Guia do Mochileiro das Galáxias, o filme, não pode ser tratado como uma tentativa de substituir a obra original (como nenhum filme, aliás, deveria ser encarado), mau-hábito típico daqueles que não pensam duas vezes em espinafrar um filme "porque o livro é melhor". Deste ponto de vista,
O Guia, embora não contenha as melhores soluções que se possa imaginar, é bastante divertido e agradável. O roteiro (co-escrito pelo próprio Adams, antes de morrer) é um pouco confuso e sofre de excesso de informação, mas consegue manter o interesse - e a mente do espectador funcionando - o tempo inteiro.
Visualmente, o filme é espetacular. Certas cenas são de fazer cair o queixo, como a visita de Arthur à fábrica de planetas. Os alienígenas, por sua vez, são criados pela Jim Henson Workshop, do criador dos Muppets, veteraníssima no assunto.
A trilha sonora, no entanto, é bastante deficiente. Embora a canção de abertura seja deliciosa, o restante da trilha é bem pouco memorável, além de ineficientemente tentar pontuar os momentos humorísticos do filme com todos os cacoetes batidos do gênero.
Uma curiosidade: o filme, pelo menos a cópia exibida à imprensa, é meio-dublado-meio-legendado, totalmente em inglês, com o "guia" (o livro) sendo dublado por
José Wilker.
Outra curiosidade:
O Guia do Mochileiro das Galáxias deveria ser filmado em 1980, por Ivan Reitman, Dan Aykroid e Bill Murray. Na última hora, o trio optou por outra idéia, dando origem a
Os Caça-Fantasmas.
Curiosidade final:
O Guia do Mochileiro das Galáxias é o primeiro de cinco livros:
The Hitchhiker's Guide to the Galaxy (
O Guia do Mochileiro das Galáxias),
The Restaurant at the End of Universe (
O Restaurante no Fim do Universo),
Life, the Universe, and Everything (
Vida, O Universo e Tudo Mais),
So Long, and Thanks for All the Fish (
Adeus, e Obrigado Pelos Peixes) e
Mostly Harmless (
Geralmente Inofensivo). Devido ao sucesso do filme, já foram anunciados pelo menos mais dois pelo estúdio. ¤