Atenção: Texto livre de revelações sobre o filme, leia sem medo.

Em “Matrix” não há espaço para a expressão “The End”. O terceiro filme, que promete o produtor Joel Silver, será o último, não se chama “Revolutions” por acaso. Em vez de marcar o fim, assinala o começo de um novo ciclo. Mas não se engane com as baboseiras que saem por aí, as “revolutions” do título nada têm a ver com revoluções no sentido de derrubada de um regime político. São as voltas que a vida dá, seus ciclos de nascimento e morte.
Já em “Reloaded” os críticos insistiam em dizer que era confuso ou sem sentido aquilo que eles simplesmente não haviam entendido. No terceiro episódio da saga de Neo e seus seguidores, muita gente não entendeu nada de novo e saiu xingando o filme.
Há que se entender em parte esses críticos. Se têm uma virtuosidade visual considerável e um domínio narrativo incontestável, os irmãos Wachowski não sabem escrever um diálogo que preste. Tudo soa solene e artificial, como se todos estivessem lendo suas falas o tempo todo. Isso irrita quem está acostumado a obras escritas por gente boa como Woody Allen, Robert Towne ou alguns dos roteiristas dos bons tempos do cinema.
Mas, se escrevem diálogos ruins, os irmãos fazem boas histórias e sabem brincar de mitologia muito bem. E mais importante, embora gastem milhões de dólares, os dois mantiveram sua visão intacta ao longo dos três filmes. Assim, “Revolutions” acaba exatamente como eles acham que devia acabar. O que quer que o espectador goste ou não, pode cobrar diretamente dos Wachowski.

E o final está farto de sentidos e metáforas. O messias completa seu ciclo e descobre a duras penas que só poderá triunfar quando entender que não há saída na vitória, mas sim no equilíbrio e no sacrifício. A mocinha mostra que não há ameaça grande o bastante capaz de se colocar entre ela e o seu amado. O fiel Morpheus, por sua vez, perde a fé e precisará recuperá-la.
Cada um desses contos, aliados à luta nobre, apaixonada e explosiva dos humanos pela sua liberdade, torna “Revolutions” um filme que completa com perfeição a saga iniciada em “Matrix”. Tudo embalado em seqüências de tirar o fôlego, como a batalha por Zion, a luta entre Neo e Bane-Smith e, claro, o incensado combate final entre Neo e o Smith 2.0. O que torna a série tão boa é sua capacidade de agradar tanto quem busca a diversão descerebrada e a pancadaria pura e simples quanto quem se dá ao trabalho de notar que, no meio de todos os fogos de artifício, a vitória final não acontece por meio dos punhos. Para esses últimos, a recompensa está na conclusão sutil de que é possível passar pelo moedor de idéias dos grandes estúdios hollywoodianos e ainda assim sair do outro lado um blockbuster com alma e pedigree.