
Todo fã de cultura pop deveria ler ou ao menos se informar sobre
O Herói de Mil Faces de Joseph Campbell. No livro, o autor destrinchou todas as fases que os heróis da ficção e da mitologia passam e deu as bases para um certo George Lucas criar toda a história de
Guerra nas Estrelas catapultando o cinema hollywoodiano e gerando um produto que vende milhões até hoje.
Entender todas as referências mitológicas que as trilogias de
Guerra nas Estrelas trazem não é difícil. Na verdade, se percebermos que todas as mitologias de todos os povos se tocam e sempre concordam em um ponto ou em outro, podemos concordar que, sob certo ponto de vista, Lucas criou sua própria mitologia. Não é a toa que, recentemente, fãs norte-americanos da família
Skywalker tentaram declarar o jedaísmo sua religião e oficializá-la nos EUA.
Todas as tragédias gregas contam a história de algum mortal que ultrapassa seu
metrón a sua medida, ou seja, desafia o destino e as leis universais. Se
Guerra nas Estrelas começa com a corrupção de
Anakin, podemos perceber que o futuro Darth Vader começa a cair para seu Inferno ao desrespeitar as leis Jedi. Ele assassina os saqueadores que mataram sua mãe e se apaixona por Padmé Amidala.

Para os Jedis vingança é algo que não pode ocorrer, assim como a paixão (
porque o amor leva ao ciúme, o ciúme leva ao ódio e o ódio leva ao... Ah, você já sabe!). Logo, Anakin é punido por desafiar estas regras. Entre as razões para seu desprezo pelas leis, está uma certa dose de autoconfiança. Quando enfrenta
Dooku pela primeira vez, Anakin não se intimida. Assim como outros heróis que terminam tragicamente. Édipo, por exemplo, mata seu pai e sua comitiva inteira, cometendo um pecado terrível, mesmo sem saber por pura soberba (o rei Laio mandara que abrisse passagem). Tanto Édipo quanto Anakin são seres com poderes sobre-humanos, mas em um instante de excesso é esse lado divino que os condena. Édipo por sua força e Anakin por causa da Força.
Toda a desgraça contada nas mitologias costuma acabar.
Zeus chega para tirar o pai
Cronos do poder e libertar seus irmãos. Da mesma forma Luke Skywalker surge para quebrar o ciclo que o pai começou. Porém ao contrário das outras histórias, aqui, embora Luke seja o elemento que mais ajuda a mudar a história, é o próprio Anakin que quebra o ciclo ao matar o Imperador. Dessa forma, Anakin cumpre o destino que lhe fora traçado mesmo que de uma forma diferente da que os Jedis gostariam (
por linhas tortas, a Força certo escreve).
Para completar Luke se desvia do caminho do pai de forma sutil. É treinado por um
Obi Wan mais maduro, que, ao deixar Luke presenciar sua morte, o faz desejar se tornar um Jedi para superar Darth Vader. Além de ser treinado também por Yoda, Luke não se apaixona como o pai. Seu amor pela Princesa Leia é, desde o início, algo platônico. Idealizado. Ao descobrir que são irmãos, ele abandona esse amor e está definitivamente a salvo dessa heresia jedi.
No fim de
A Vingança dos Sith há o autêntico Ragnarok entre os irmãos Anakin e Obi-Wan (“
Você era meu irmão”), assim como
Thor e
Loki. Obi Wan vai até o planeta vulcânico (tal qual uma descida ao inferno) e derrota o maculado Anakin. Sem querer, Obi Wan apenas está tornando o Sith Darth Vader ainda mais Sith. Lucas ousou tornar a história tão forte quanto suas referências. Os personagens apaixonantes e o cenário de conto de fadas. No fim das contas, mitológicos ou não, são histórias que merecem nossa admiração. Ou idolatria. ¤