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Para garantir o leite das crianças
Por Tatiana Tavares — Quinta, 6 de novembro de 2003
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O rock nacional tem alguns medalhões que, mesmo com o passar dos anos, permanecem intocáveis. O maior deles, sem dúvida, é a Legião Urbana, mitificada pela presença quase messiânica de Renato Russo. Outro que estava na categoria eram os Titãs. Entretanto, depois do lançamento de seu "Acústico MTV" e seus mais de dois milhões de cópias vendidas, record na carreira da banda, a coisa mudou de figura. Aí, vem o senhor Malu Madder e diz: "Sucesso, quando é muito, incomoda". Ah Tony, não é bem assim.
O "Acústico" em si, não foi o maior dos problemas afinal, gravaram com orquestra, tiveram convidados bacanas e tal. A coisa começou a degringolar mesmo no dispensável "Volume dois", uma espécie de continuação do anterior, trazendo aqueles sucessos que ficaram de fora pelo simples fato de que a gravadora - na época a Warner - não acreditar no taco dos caras e por isso, não apostar em um álbum duplo do que aliás, seus executivos devem estar se lamentando até hoje. A crítica caiu de pau, falou que a banda havia se "vendido" para o mercado e essas bobagens.
Durante as entrevistas para divulgar o trabalho, os na época sete integrantes, tentaram explicar que aquilo fazia parte de um projeto e blablablá mas a verdade, é que hoje, anos depois, fica mais fácil admitir que a intenção alí foi mesmo ganhar dinheiro e tentar repetir a façanha do anterior. "O nome mercado já traz implícito os conceitos de compra e venda", diz Tony Bellotto. Tudo isso é para colocar em pauta a seguinte discussão: Afinal, qual é o problema de músicos quererem sucesso, fama e fortuna com seus trabalhos? Quem inventou esse negócio de que músico tem que ter um ideal pelo qual lutar? Músicos também tem filhos para dar de comer, contas para pagar no fim do mês, prestações a vencer...talvez fale apenas sinceridade para alguns que muitas vezes, dão eles próprios a entender que fazer discos para vender é algum crime.
E essa discussão volta e meia vem à tona. Foi assim com o retorno dos Sex Pistols por exemplo, ou de tantas bandas da década de 80 que aproveitaram o revival da época para ganhar o seu. O problema é que, por causa dessa vontade justificável de faturar alto, parece ser necessário apagar o passado e isso, é imperdoável. RPM e Capital Inicial são exemplos de grupos que esqueceram todas as atrocidades e farpas trocadas através da mídia e posam de amigos inseparáveis. Acho que o que mais incomoda é isso: não é a qualidade - as vezes sofrível - de algumas dessas voltas que perturba a estabilidade da música pop e sim, essa necessidade de transformar tudo em um mundo cor-de-rosa. As pessoas brigam, se desentendem e isso, é tão normal quanto querer ganhar dinheiro. Mas ao invés de negar a existência desses conflitos, seria mais honesto assumir que hoje, simplesmente não os julgam mais importantes e pronto afinal, ninguém tem nada a ver com a vida privada de ninguém e se fulano e cicrano se detestam mas tem uma banda juntos, melhor pra eles.
No fim das contas, o culpado por tudo isso é mesmo o público que, louco por uma fofoquinha, se amarra em ver neguinho brigando nos jornais. Isso da ibope, faz a banda ficar na mídia e, claro, gera mais dinheiro. Por tanto, é um ciclo vicioso que talvez nunca tenha um fim.
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