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O cinema nosso de cada dia
Por Eloyr Pacheco — Quinta, 19 de maio de 2005
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Recentemente, em uma entrevista coletiva, alguns jornalistas levantaram a “velha” polêmica de que o nosso cinema é muito “televisão”, como se isso o desvalorizasse. De certa forma, essas colocações quase sempre são feitas empregando o termo como se ele fosse pejorativo. Sem entrar no mérito da qualidade - quase sempre julgada por parâmetros subjetivos - necessária, porém prescindível nesta discussão, para mim, esta colocação além de preconceituosa enfatiza o óbvio, pois com uma indústria televisiva tão forte quanto a nossa isso não poderia ser diferente. Lembre-se que a Globo é uma das maiores exportadoras de novelas do mundo.
Precisamos ter uma indústria cinematográfica fortemente alicerçada antes de exigirmos esse desatrelamento, se é que ele seja realmente necessário. Essas questões são levantadas por aqueles que só querem ver “cinema de arte” e acham que tudo que é comercial é lixo, sub-produto. Será que tudo que é popular - suposto sinônimo, neste caso, para comercial - é ruim? (Permito-me aqui abrir um parêntese: muitos cineastas enchem a burra de dinheiro com filmes comerciais e depois dizem que vão fazer filmes de arte, quase como um pedido de desculpas. George Lucas é um exemplo recente desse tipo de atitude. Nada contra, afinal o dinheiro precisa vir de algum lugar e pedir desculpas pelo quê?) A meu ver é necessário primeiro que o cinema brasileiro, comercial ou não, se estabeleça e ganhe público. Aliás, pelo menos para mim, isso também é claro. Com a quantidade (“a prática leva à perfeição”) vem a qualidade e com quantidade pode-se aqui e ali se fazer experiências, principalmente no caso do cinema.
Tenho visto alguns números que me deixaram surpresos. Em 1980, havia no Brasil 2.300 salas de projeção (cinemas, no popular) e foram vendidos 164 milhões de ingressos no ano. Em 1992, a quantidade de salas simplesmente despencou para menos de mil e, conseqüentemente, a venda de ingressos no ano chegou a míseros 34 milhões. Em 2004, depois de uma grande recuperação, o número de salas aumentou para 1.700 e a venda total de ingressos subiu para 90 milhões. Sobre isso, Rodrigo Saturnino Braga, diretor da Columbia, afirmou recentemente em entrevista na qual estive presente, que temos hoje no Brasil por volta de 2.000 salas e que o mercado comporta mais 2.000. Concordo com ele. Façam vocês mesmos as contas, comparem o número de ingressos vendidos em um ano com a população do nosso país. Espantados?! Eu também fiquei! E muito! Basicamente o brasileiro vai meia vez ao cinema por ano!
Outro fato que tenho percebido é o aumento do número de filmes, nacionais ou não, sendo exibidos em circuito alternativo. Algo que só ocorre devido a uns poucos apaixonados que atuam na área. Iniciativas corajosas que devem ser incentivadas, principalmente pela mídia que deveria dar mais espaço para esse tipo de filme e não somente “acolher” de braços abertos os arrasa-quarteirões, os blockbusters. A exibição de filmes independentes/alternativos é muito importante para gerar diversidade e motivar um “outro tipo de público” a ir ao cinema. É muito mais cômodo alugar um filme e assisti-lo em casa, mas aí entra um outro fator: as locadoras também acabam por não investir nesse tipo de produção e, conseqüentemente, esses filmes acabam não sendo lançados em DVD. Hã?!
PS - depois de ir ao ar a minha última CMYK, o SBT entrou com ação contra Tom Cavalcante para tirar do ar o quadro “Qual era a música” que vem sendo exibido em seu programa na Record. No horário, a Record estava ganhando da rede de Silvio Santos por um ponto no IBOPE. E, neste último domingo, foi ao ar a cena de Silvio assinando uma autorização de 2 anos para o pessoal do Pânico na TV, da Rede TV!. Coisas da TV nossa de cada dia.
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