Sintonizando o futuro

Por Marcos Vasconcelos — Quinta, 19 de maio de 2005

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Responda rápido: que mídia apresentou o maior índice de crescimento de usuários nos últimos três anos nos Estados Unidos? Telefonia celular? Televisão a cabo? Internet? Nada disso: foi o velho rádio, na verdade, nem tão velho assim.

De mídia desprezada e anacrônica, o rádio vem ganhando uma modernização conceitual e tecnológica maior que a maioria dos grandes meios de comunicação nos últimos anos. Uma boa parte dessa modernização veio atrelada às atividades da websfera. Mas não é só essa a virada do rádio. O grande fenômeno, que já conquistou mais de cinco milhões de usuários nos EUA e que tem crescido em taxas exponenciais é a novíssima rádio via satélite. Junto com o streaming, - ou rádio via Internet - e o podcasting, a rádio via satélite vem revolucionando a relação entre emissora e ouvinte.

Os números das rádios via satélite americanas – existem apenas duas empresas no mercado: a XM Satellite, lançada em 2001 e a forte competidora Sirius – impressionam. Só nos três primeiros meses de 2005, a XM ganhou 540 mil novos assinantes e estima-se que as duas operadoras cheguem a mais de oito milhões de consumidores pagando em torno de U$ 13 por mês para ouvir aos seus programas. Mas no que esses programas diferem de uma emissora comum de FM? As rádios funcionam como as primeiras rádios de Internet, com diversos – em torno de 60 por operadora – canais temáticos, de jazz, ou música latina, ou música da década de 40, e mesmo canais religiosos, culinários, esportivos, de notícias e até só de piadas ou de sexo. Além disso, a variedade da programação contrasta com a estreita padronização das rádios abertas e por fim, a qualidade de som é coisa de outro universo. E como se não bastasse tudo isso, há a vantagem – para o ouvinte, indiscutivelmente – de que as programações são praticamente advertising free, ou seja: nada de comerciais. As operadoras, que até hoje operam no vermelho, prevêem para breve a chegada do lucro, dado o crescimento estrondoso do número de usuários pagantes. A XM, que tinha em torno de 350 mil ouvintes em 2002, chegou a quase quatro milhões deles em 2005.

A Sirius não fica muito atrás. E hoje, muitas empresas, além das próprias operadoras já estão tendo a clara noção da grandeza do potencial desse mercado. As operadoras já começam a contratar estrelas da música e da comunicação em geral para se juntarem aos seus quadros. E até montadoras de automóveis – a Hyundai com a XM e a Jaguar com a Sirius – já se comprometeram a instalar aparelhos de rádio via
satélite em seus novos modelos. O preço da novidade não chega a ser caro para os padrões americanos, em torno de 200 a 800 dólares de aparelhagem e instalações, fora a assinatura. A popularização e a concorrência possivelmente farão com que esses preços caiam. Agora é esperar algumas décadas para que esta brincadeira chegue à Pindorama.

Quem lembra dos rádios Transglobe? Meu pai tinha um da Philco. O enorme rádio era capaz de captar ondas curtas e prometia transmitir programação de qualquer rádio no mundo. É claro que, na maioria dos casos, a promessa não se cumpria e os tijolões acabaram dando lugar aos radinhos de pilha. A promessa de escutar rádios de qualquer lugar do mundo é hoje cumprida pelo streaming, ou rádio via Internet. Com a popularização da transmissão em banda larga, fica muito fácil acessar a página de qualquer rádio do mundo que tenha um site e colocá-la para tocar em seu computador. Com a mesma facilidade pode-se ouvir a BBC de Londres e a Verdes Mares de Fortaleza. E, como qualquer rádio, sem qualquer custo, além da conexão via banda larga.


As primeiras rádios via Internet, entretanto, tinham outra lógica. Era
algo que se aproximava do conceito que as rádios via satélite usam hoje: uma multiplicidade de canais temáticos. Ainda hoje, essas rádios podem ser acessadas, como a RadioClick. Outra idéia destas rádios, era o conceito de rádio pessoal ou personalizada. Usuários poderiam dentro dos sites das rádios, criar canais pessoais com suas músicas preferidas. Essa teoria – a da customização – está sendo levada às últimas conseqüências na nova mania da web, o podcasting, que é a ação de criar rádios personalizadas – diferentes dos canais pessoais das rádios de Internet, que no fundo eram apenas compilações de músicas – onde se pode fazer de tudo: montar programas, entrevistas, locuções e o que mais for possível com os recursos de gravação que se tiver e a criatividade. Depois do programa criado e colocado na rede, o toque final: os podcasts podem ser baixados para serem ouvidos em MP3 players, como os iPods da Apple – daí vem o nome do processo. MP3 players ainda não são populares, e tampouco programas de gravação de som são amigáveis como processadores de texto. Mas está aberto aí um canal interessante, para que apareçam novos talentos na área, assim como a febre – ainda crescente – dos blogs tirou muitos talentosos escritores de dentro de gavetas.



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