Finalmente, Equilíbrio na Força
Geralmente, ao resenhar um filme, o crítico deve ter uma certa sensibilidade para falar sobre a obra sem estragar a surpresa daqueles que ainda não o viram – ou seja, evitar o chamado "
spoiler". Principalmente em um filme tão antecipado quanto um novo episódio de
Star Wars, onde um
spoiler acidental pode facilmente virar assunto de páginas policiais.

Apesar disso, no caso de
Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith esta preocupação é bem menor. Afinal, todos já sabem exatamente o que vai acontecer: sabemos que Anakin será corrompido pelo Lado Negro, que os Jedis serão exterminados, que Yoda e Obi-Wan fugirão para o exílio, que a República se tornará o Império, e que Luke e Leia serão salvos e separados no nascimento. E sabemos disso há pelo menos 20 anos.
Assim, o grande segredo do filme não é mais "o quê acontece", mas o "como acontece", e principalmente, "o quanto estes acontecimentos podem ser emocionantes, já que todo mundo sabe o final da história". Bem, se esta última é a dúvida que não te deixa dormir, temos boas notícias:
George Lucas conseguiu entregar, desta vez, um filme vibrante, espetacular, muito bem feito – e o que é melhor – que está muito coerente e bem amarrado, tanto com os episódios anteriores quanto com a trilogia original.
Aliás, talvez este filme esteja bem mais integrado à trilogia clássica do que aos seus antecessores imediatos. Não é, de maneira nenhuma, a simples conclusão dos acontecimentos já colocados em andamento pelos apenas medíocres
Episódios I e
II. Tanto a trama quanto a estética do filme – naves, uniformes, cenários, penteados, armas – aproximam-se pouco a pouco da trilogia original, mesclando-se perfeitamente com o primeiro filme da série, de 1977, de modo que, nos minutos finais, não há, entre estas obras, diferença maior do que simplesmente o rosto dos protagonistas. Ou, no caso de Obi-Wan, nem isso.
Claro que apenas isto já pagaria, para muita gente, o valor do ingresso, mas há bem mais. A força emocional do filme e o sentimento de tragédia iminente que acompanha a história até o final garantem redenção até para performances medianas, como a de
Hayden Christensen e
Ian McDiarmid (que abusou nos trejeitos), ou, simplesmente apagadas, como a de
Natalie Portman. A genialidade com a qual são amarradas as pontas soltas da trama e o capricho técnico do filme compensam, com sobras, a já clássica deficiência que George Lucas possui em extrair de seus atores interpretações de qualidade, dependendo muito do carisma dos astros.
Esta deficiência por vezes torna-se bem evidente. Por exemplo, na sequência onde Anakin dá o seu passo final para o Lado Negro, interferindo em um confronto entre Mace Windu (
Samuel L. Jackson) e Palpatine (Ian McDiarmid) – a qual, por razões mais do que óbvias, tinha todos os motivos para ser uma das mais tensas e dramáticas de todos os seis filmes – a corrupção do jovem Jedi ocorre de maneira muito rápida, incoerente e injustificada, deixando uma sensação de que toda a situação foi rapidamente improvisada no roteiro. Culpa de Lucas ou dos atores?
Mesmo assim, estas poucas incoerências e defeitos tornam-se, neste contexto tão grandioso, meras curiosidades, que não são de modo algum o suficiente para condenar a obra. Seja no impacto visual ou na ação, este episódio – que deixa de lado o falatório burocrático e inócuo dos anteriores – é extremamente intenso e vibrante. George Lucas consegue unir ação em quantidade alucinante – não se passam dez minutos sem que algum personagem saque um sabre de luz ou uma pistola - com combates de qualidade, em terra ou no espaço, que deixarão o espectador com os dedos cravados na poltrona.
Star Wars: Episódio III pode até não ser melhor do que os filmes da trilogia original – longas discussões ainda ocorrerão sobre isso – mas é um passo gigantesco além dos dois primeiros episódios. É um magnífico desfecho para uma saga que transpõe os simples limites da cultura pop para integrar a mitologia moderna. No entanto, mais do que tudo isso, é uma prova da competência e genialidade de George Lucas, que apesar de seus tropeços recentes e limitações de longa data, volta merecidamente aos braços dos fãs e ao topo do cinema de entretenimento. ¤