Houve um tempo em que ser fã era mais fácil.
Nos meus tempos, se você queria acompanhar alguma série de TV, cultuar um personagem ou um determinado ator ou diretor, bastava assistir ao programa, ou colecionar os quadrinhos e livros, ou frequentar as salas de cinema sempre que surgia um novo lançamento.
E pronto.
A oferta de informação era (em muitos casos) bastante restrita. O filme que entrava em cartaz no cinema, por exemplo, demorava anos para chegar às telas da TV. Era um mundo mais simples, pelo menos em termos de mídia.
Hoje em dia, a coisa ficou bem mais complexa (que não é sinônimo de “complicada”). Se alguém quiser, por exemplo, se considerar um “expert” em alguma coisa dentro da cultura de massa, vai ter um trabalhão danado. Afinal, a quantidade e a variedade de informações e de meios por onde elas circulam é tão grande que torna-se praticamente impossível assistir tudo, ler tudo, conhecer tudo.
Quer um exemplo?
Veja o que acontece agora com o lançamento do terceiro (ou sexto?) e último capítulo da saga de George Lucas, A Vingança dos Sith, marcado para estrear no mundo todo por volta do dia 19 de maio:
Entre o Episódio II e o Episódio III, George Lucas produziu, juntamente com o Cartoon Network, duas séries de animação que focalizam as Guerras Clônicas e fazem a ponte entre os dois filmes. A segunda série, exibida atualmente na TV por assinatura, mostra os eventos e acontecimentos que precedem o último filme, apresentando e desenvolvendo personagens de destaque na história, como o Chanceler (e futuro Imperador) Palpatine, o Conde Dookan (ou Dooku, no original) e principalmente o anunciado, mas desconhecido vilão do filme, o General Grievous (cujo nome, felizmente, não tem sonoridade cômica ou pornográfica em português...)
Não precisa ser nenhum Mestre Jedi para perceber que existe uma grande diferença de percepção (e de recepção), um grande distúrbio na força que a história do novo filme vai ter entre os fãs que assistiram e os que não assistiram ao desenho animado. Uns saberão mais do que os outros. E, ainda que gostem do filme com a mesma intensidade, suas experiências serão radicalmente diferentes.
Se acrescentarmos nessa equação os romances (nos EUA eles são muito populares), os quadrinhos (já está nas bancas uma revista da Ediouro que é anunciada como “o prólogo” - mais um! - do
Episódio III), os videogames, os sites oficiais e não-oficiais na internet (por onde circulam toda sorte de informação e imagens do filme), sem esquecer, é claro, dos DVDs (lançados recentemente) e da TV, que já exibe programas especiais sobre a saga de George Lucas, dá para se ter uma idéia de quão variado e virtualmente inesgotável se torna esse universo de personagens, histórias e produtos - já que existe um hiper-espaço para o merchandising (que vai das roupas aos brinquedos, dos cadernos às mochilas, dos salgadinhos às promoções de marcas de refrigerantes ou cadeias de fast-food).
E olha que Star Wars é apenas um dos muitos universos ficcionais que se apresentam dessa maneira nos últimos tempos. Além das febres asiáticas de consumo (como
Pokémón e
Yu-Gi-Oh!), temos por aí o mundo do bruxinho britânico
Harry Potter (que junta livros, cinema,
games etc) e filmes estilosos como
Matrix (com animes e
games fazendo parte da cronologia oficial e interligando a história dos filmes de cinema).
Dá para perceber facilmente que isso tudo é tão importante que já existem vários antropólogos, sociólogos e estudiosos da comunicação em geral pesquisando a fundo esses novos trajetos dos textos e imagens dentro da cultura de massa.
Um deles, o inglês David Buckingham - que estudou profundamente a relação entre as crianças e o universo de Pokémón - defende que esses novos fenômenos não devem ser encarados de forma isolada, só como desenhos animados, videogames, jogos de cards, revistas em quadrinhos (incluindo os mangás) etc. Para ele, eles devem ser entendidos como uma “prática cultural”, como algo que “se faz”, que “se pratica” e não simplesmente “se assiste” ou “consome”.
Mizuko Ito, uma antropóloga que pesquisa a relação entre crianças e jovens e as novas tecnologias (como os celulares com câmera, por exemplo), enxerga nesses fenômenos de mídia uma dimensão “transmidiática”, que ela chama de “media mix”, defendendo que eles trabalham com novas (e inovadoras) formas de intertextualidade, atuando quase como hiper-textos, permitindo múltiplas e inesgotáveis apropriações diferentes de um mesmo personagem, universo ou história, dependendo dos suportes e meios de comunicação aos quais o “leitor” tem acesso.
Portanto, não se engane. Se você achou que ia ser moleza acompanhar o Episódio III, pode levantar o seu traseiro dessa cadeira e ir atrás da informação, onde quer que ela esteja. A época em que um filme era apenas um filme parece perdida para sempre no passado – há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante. ¤