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Quebra-Queixo: um herói de código aberto
Por Rafael Lima — Sexta, 6 de maio de 2005
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Quando Marcelo Campos despontou nos quadrinhos, há uns 15 anos, veio com um estilo na linha do que havia de mais moderno e cool. O que se via e veria nos quadrinhos de Mike Mignola (Hellboy) e Frank Miller (Sin City), nas ilustrações de Tom B, nos desenhos animados do Batman, Meninas Superpoderosas, Laboratório de Dexter e Samurai Jack; um estilo inspirado nos grafites de rua, fanzines, mangás, com algo retrô das décadas de 1950-60 e europeus herdeiros da linha clara de Hergé como Joost Swarte e, principalmente, Daniel Torres. Com um detalhe sutil: era um estilo absolutamente maleável, servia para ilustrar desde super-heróis tradicionais até terror. Não tinha o personalismo de Flavio Colin ou do Jaca. Não espanta que, de lá pra cá, Marcelo Campos tenha sido designado para as tradicionalíssimas revistas da Liga da Justiça e Action Comics, onde, 67 anos atrás, debutou o Super-Homem.
Também foi mais ou menos nessa época que Marcelo Campos criou um personagem chamado Quebra Queixo, com temática (vilões bizarros, auxiliares bisonhos, nomes escalafobéticos, ciência impossível, mulheres gostosas) e nome de super-herói; ainda que cultivasse um acerta ironia inteligente, era leve demais para ser levado à sério ou considerado uma crítica a eles – como Zot!, de Scott McCloud – e, no fundo, não passava de uma curtição adolescente/nerd – onde mais você pode ler correntemente frases como "picadinho de boiola para todos? É para já!" ou expressões como "animal estúpido"? Há quem ache o fino e, apostando nessa gente, Campos chegou a bancar uma mini-série do Quebra Queixo. Ficasse apenas nisso, o personagem teria poucas linhas em seu verbete de enciclopédia; só que Marcelo teve uma sacada que transcendeu possibilidades: abrir o código do personagem.
O conceito, vindo da informática, é recente e ainda bem pouco explorado nos quadrinhos. Quando se fala em um programa de código aberto, entende-se aquele tipo cujo código fonte é liberado e pode ser modificado por qualquer um, o programa sendo construído e evoluindo em sistema de trabalho cooperativo. Numa situação dessas, evidentemente, abre-se mão dos direitos autorais. Nos quadrinhos, existe toda vez que alguém cria um personagem e o libera para outros fazerem histórias, abrindo espaço para reinterpretações, o que quase sempre é interessante (até The Spirit passou por isso, fosse na homenagem The Spirit Jam, fosse na revista The New Spirit Adventures), sobretudo quando se subverte seu conceito original. E ainda abre espaço para explorar personagens coadjuvantes – no caso do QQ, a selvagem Tanga, Capitão Força e o Insetomic.
No Brasil, o melhor exemplo de personagem com código aberto é o Capitão Presença, de Arnaldo Branco, nas páginas da Tarja Preta. É interessante ver como suas características se mantém fiéis sob a pena dos mais variados estilos. Quebra Queixo corria o risco de passar pelo que Laerte fez com Overman: sair do papel de super-herói para virar passeador de cachorros, contínuo, porteiro. Os artistas escolhidos para produzirem as histórias do álbum Quebra Queixo: Technorama Volume 2, lançado pela Devir, quase todos egressos da Escola Quanta, da qual Campos é sócio, não viajaram tanto (o que era de se esperar, afinal, são iniciantes), mas mesmo assim ampliaram notavelmente o espectro de histórias possíveis de serem contadas com aquele personagem, naquele gênero, prova irrefutável da elasticidade dos super-heróis. Algumas coisas não funcionaram: críticas sociais ao carnaval ou a reality shows televisivos soam deslocadas no meio essencialmente lúdico, e a paginação foi sistematicamente comprometida em nome dos efeitos visuais, mas a mera visão do personagem sob variados estilos gráficos, de certa forma, justifica a leitura. E há desde o típico mangá violento (Technoverse) até o papo-quase-cabeça (Virá que Eu Vi), e há onomatopéias divertidas: CAPAPLAFT, SKATRABUM.

Página de Thiago Cruz, e, à direita, a arte de Jefferson Costa.
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Uma curiosidade, um mérito: a presença feminina, normalmente escassa nos quadrinhos (e ainda mais entre super-heróis), aparece nos desenhos da portuguesa Ana Freitas, Julia Bax e roteiro de Marcela Godoy. Entre os desenhistas, Thiago Cruz é mais estilizado, lembrou-me muito do Tom B; Jefferson Costa é o que mais se aproxima do estilo de Campos; Ana Freitas faz o que talvez seja a experimentação mais interessante, com Quebra Queixo sob ótica do mangá meio infantil; Christiano Borges tem um estilo na linha do Erik Larsen ou Rick Leonardi, mas sua profusão de traços deixa o resultado meio confuso (talvez fosse o caso de reduzi-los ou jogar melhor com os pesos); Rodrigo Arraya faz bom uso da iluminação e, junto com Borges, faz um desenho mais realista. Julia Bax, finalmente, destoa de todos os excessos do álbum (talvez por isso tenha ficado para o fim), optando por uma linha clara e bem mais realista (como Arno).
Espera-se que todos deslanchem no mercado, depurem seus estilos e quem sabe, ali do meio surja um novo Flavio Colin. Ou, ao menos, um novo Marcelo Campos. ¤
SERVIÇO:
O lançamento oficial do album Quebra-Queixo: Technorama Volume 2 acontece hoje (06/05) na Quanta Academia de Artes, em São Paulo. A entrada é Franca.
Horário: das 19h às 22h
Endereço: Rua Minas Gerais, 27 (próxima à rua da Consolação) - Higienópolis - São Paulo
Informações: (11) 3214-0553
Site Oficial: www.quantaacademia.com
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