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Adultas ou imaturas?
Por Leonel Dorkboy — Terça, 4 de novembro de 2003
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Pois é, nos últimos anos temos visto uma verdadeira enxurrada de HQs adultas nas grandes editoras, contrariando a tendência antiga de manter títulos mais maduros em pequenos selos (de preferência da DC Comics, ambientados na Inglaterra e que tratassem de temas sobrenaturais...). Vejamos: na Marvel, temos Thor: Vikings, Born e os outros títulos da divisão Marvel Max (além de Os Supremos) , na Wildstorm temos Wildcats 3.0, Authority e vários outros, na DC temos Gotham Central, e por aí vai... Sexo, violência, drogas, mais sexo, brigas de casal que quase terminam em morte... Realmente estamos vendo uma onda de temas adultos nos gibis.
Mas espere! Sexo? Violência? Estes são temas adultos ou ainda MAIS imaturos do que as HQs normais?
Muita gente levanta esta questão: as histórias polêmicas estariam na verdade chamando o público adolescente e pré-adolescente (atraído pela sangueira e insinuações eróticas), e toda esta roupagem de “títulos adultos” seria puro hype. Por mais que se goste da diversão que é ver todo esse sangue e tripas espalhados pelas páginas (eu mesmo sou um grande fã do Garth Ennis), é inegável que temos histórias “adultas” sem nenhum elemento do gênero, e muitas vezes elas são até melhores (e mais maduras) do que as outras que pingam sangue (vide Tom Strong). Além disso, estes temas (especialmente a violência) já foram abordados à exaustão na idade das trevas dos anos 90, durante a “era Image”, e ninguém pode afirmar a sério que aquelas histórias tinham qualquer coisa de adulto.
Como então diferenciar a polêmica pela polêmica das HQs adultas “de verdade”?
Os críticos parecem ir simplesmente pelo nome do escritor. Se é uma história, digamos, do já citado Garth Ennis, então é adulta. Se a mesma história fosse escrita, vamos ver, pelo Ron Zimmerman, então nada mais é do que lixo pré-adolescente que só tem “valor de choque”. Assim, além do Ennis, Warren Ellis, Grant Morrison, Peter Milligan, Mark Millar, Brian Michael Bendis e outros são “bons”. Zimmerman, Bill Jemas e qualquer um dos fundadores da Image Comics são “ruins”. Meio arbitrário, não é?
Existem exemplos evidentes de HQs que são realmente e obviamente adultas. Quando a violência é um pretexto para lidar com a moral e as motivações dos personagens, quando o sexo apenas serve para colocar em cheque as relações dos heróis, então está claro que temos uma obra adulta (como, por exemplo, Global Frequency). Mas e quando isto não está claro? E quando nós temos aquela sensação de que toda essa sanguinolência não tem nenhum propósito maior? E o pior: se o nome na capa do gibi nos diz que esta deveria ser uma história “adulta”? Podemos ver um exemplo disto em Thor: Vikings. Nesta minissérie (escrita por Garth Ennis), do selo Marvel Max, o Deus do Trovão enfrenta vikings mortos-vivos que matam metade de Manhattan (e fazem – literalmente – uma montanha com cabeças decapitadas). Temos mutilações, estupros e chacina à vontade, além dos pulsos quebrados de Thor e de um Doutor Estranho levemente afeminado... O que Ennis quis dizer? Será que é tudo um comentário ácido e pungente sobre a violência latente no universo Marvel e a vida fugaz das pessoas comuns em um mundo onde os deuses se degladiam? Ou o escritor não tinha idéia melhor e resolveu botar o Thor apanhando por 22 páginas, em cinco edições seguidas? Honestamente, é difícil ver algum propósito maior para a história. Mas ela é tão... tão... divertida.
Fica então a pergunta: por que enquadrar as HQs em “adultas” ou “imaturas”? Honestamente, de vez em quando as histórias serão gratuitas, adolescentes e mais parecidas com um episódio do Beavis and Butt-Head (ou Jackass, para os jovens demais para terem visto B & BH), mas ainda assim serão boas, divertidas. Realmente importa se você se divertiu pensando na natureza do ser humano ou só dando umas risadas?
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