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…Câmbio. Desligo!
Por Pedro Serrano — Quinta, 28 de abril de 2005
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Eis que a minha temporada no exílio caminha para o seu fim, que será permeado de futuros esquecimentos e eternas piadas infames. Viver dois anos nessa tal de Washington não foi nada fácil; essa terra é careta ao extremo e deixa qualquer boêmio de cabelo em pé com o preço indigesto de um reles pint da boa cerveja lager, isso sem mencionar o preço punitivo das casas de strip e puteiros em geral. Um fulano de boa conduta marginal como eu fica sem qualquer motivação pra viver nessa situação inglória... Foi bem penoso.
Como algum alguém que não use a cabeça como mero separador de orelhas já pode ter suspeitado, acabando o tal exílio e o período de trabalhos em terra estrangeira, também acaba ( ou se transforma, vai saber! Perguntem pro Lavoisier ) a famigerada, fedorenta, pútrida e indolente D.C. Blues, essa coluna esquizofrênica que o SoBReCarGa fez o favor de ninar em seu colo maternal.
Bem, isso aqui tem o intuito de ser uma nota de despedida. O que dizer em uma nota dessas, como deve ser o teor de uma despedida fragorosa? Sempre me disseram que notas de despedida são de suprema importância, haja visto o caso de Getúlio, o Vargas. O que seria de um suicida sem o seu adeus glorioso? Nada! Pra mim, o tal presidente-ditador dos pampas só entrou pra história por causa de sua carta de despedida. Como também quero entrar pra História, escrevo esse texto. Ok, vá lá, não vai acontecer nenhum suicídio por aqui, mas lidaremos com a morte de uma coluna. Coitada, tão nova… Levem o caso à sério! Devo apertar o grande botão vermelho em breve, tenho que desligar os aparelhos que mantém viva essa humilde coluninha, coitadinha. Como pode, né, pular de escrivinhador inútil e imbecil pra cúmplice de uma morte em tão pouco tempo... A vida é ingrata, sempre me disseram. Por favor, legalizem a eutanásia! Não me façam sair do SoBReCarGa e entrar em um B.O. ou Linha Direta da vida, tão diferente do caso de Vargas, o Getúlio.
Ok, apelo feito, vamos pro que viemos. Creio que com o pouco que foi redigido e publicado nesta intrépida e canastrona coluna, pude passar pra alguns incautos humanos pequenas peculiaridades do universo que rege a loucura yankee. Eu tentei, assim como McMurphy tentou. Tentei mostrar algo de risível, tosco e humilhante. Posso afirmar com certa ironia festejante que tive determinado sucesso em um ou dois textos, sem contar umas indiscritíveis e ínfamas frases de pseudo-efeito moral que também foram muito valorosas nesse trilhar da estupidez. E os erros brutais que cometi contra o português?! Putz, nem conto... Só sei que esses erros me incomodam até hoje. Por culpa deles tenho enorme pavor em mexer nos arquivos da “DC”, que viraram o meu “Arquivo da Ditadura” particular. Não toque neles! Aquilo me humilha e trás grande vergonha pra toda a minha família. Até hoje, antes de dormir, choro feito criança quando lembro desse meu ato miserável de “atropelamento e fuga”. Enfim, a coluna tem toda a sorte de agressões que uma cabeça doente e alienada pode cometer. Dizem que é assim que se faz comédia. Viva a tragédia e a tragédia de um povo, que foi a mola-mestra de inspiração pra esse espaço amoral e imberbe.
“Mas, ora bolas, afinal, quem é você que falou tanta besteira em tão pouco tempo?” Sou um... er, aliás, era... era um estudante universitário que aproveitou a bocada de ter um pai trabalhando na gloriosa ( sic! ) Embaixada Brasileira em Washington para terminar os penosos e desagradáveis estudos acadêmicos no quintal do caquético Sam, almejando conseguir um diploma escrito em inglês ( essa língua bárbara ), sonhando com que tal papel facilitasse minha caminhada rumo à dominação do mundo e da raça humana, que seria escravizada e trabalharia para o meu orgasmo mais supremo, tornando-me feliz e sorridente. De tudo, não consegui quase nada, só o tal papel e uns dólares que não são tão valorizados como quando aqui cheguei, dois anos atrás, num verão tão quente quanto o verão manauara. Agora, 730 dias mais velho, volto pras terras tupiniquins viciado em irlandesas, PhD em Bourbon, um tanto quando bitolado e levemente tarado por cheerleaders com sainhas curtíssimas e pulinhos histéricos.
No que diz respeito ao meu dia a dia como expatriado modelo, posso dizer que fui um camarada relativamente esforçado que estudou na University of the District of Columbia, uma das primeiras universidades americanas a aceitar negros em suas cadeiras. Confesso que a minha escolha por tal instituição foi motivada por um pensamento bobo, eu achava que um “reduto negro” seria cheio de vida política, atitudes vanguardistas, discursos engajados, artistas loucos, black panthers, Luther Kings... Não, não é bem assim. O que vi foi um prédio com 90% dos alunos negros, todos preguiçosos e escorados sobre seus direitos iguais, porém, lutando para viverem isolados do mundo, felizes por pertencerem a um grupinho seleto, uma panelinha torpe. Além do mais, nenhum deles demonstrava ter o menor saco pra “revolução” ou equalização de idéias ou ideais. Um desastre. Viva a touperice! Aquilo é desastroso... Tão desastroso que até o time de basquete, formado só por afro-americanos enormes, era um fiasco! Culpa da acomodação... Sem falar que também presenciei um enorme sectarismo e estudantes brancos, os inúteis WASP ( White Anglo Saxon Protestant ) padrão, evitando até passar na porta da UDC, esse “gueto negro, essa jaula”. Coisa mais ridícula, impossível. Cada qual brigando pelo seu pedacinho de chão, cerca bem definida e “bem-estar”. Tosqueira ampla, geral e irrestrita! Parece mentira, mas isso ainda é verdade. “Você estuda na UDC? Ah, lá só tem preto!”
Em todo caso, foi legal passar um tempo andando pelos corredores de uma faculdade bem aparelhada e com muita bufunfa pra preparar da melhor forma possível os seus estudantes. Sem bem que isso não foi lá grande coisa... Bom mesmo foi ver o povinho mais ou menos desfilando seus casacos dos Depto. Atléticos e menininhas bobas querendo trepar com algum figurão do time “x”. O que via nos seriados era a mais pura verdade. Acreditem nos seriados, eles nunca mentem! Também aprendi várias gírias interessantes, desenvolvi um inglês coloquial incompreensível, socializei com o povo porco das Fraternidades e comi muito pretzel, manteiga de amedoim e algum sanduíche de bacon, mesmo não gostando das iguarias supra-citadas. Foi uma enorme adição de cultura na minha vida. Enfim, a boa sempre é ser otimista, ver sempre o melhor lado das coisas... Ô, miséria!
Foi embalado pelo otimismo que fortaleci minha biblioteca com bons livros, minha cdteca com disquinhos chatos e irritantes de blues do famoso delta do Mississippi ou das ruas esfumaçadas de Chicago, conheci o Grand Canyon, Nova Orleans ( com direito a libertinagem na Bourbon Street. Aquilo é o céu dos libertinos! ), Nova Iorque, vi uns shows e fiz uma mítica viagem alucinante ao deserto, chegando lá pela legendária Route 66. Eu até “fugi” pra Tijuana! Pra ficar completo, só me faltou comprar um par de botas de cowboy... Bem, não podemos ganhar todas... Do mais, ainda devo voltar pra cá pra comprar o meu Mustang 67 e tentar uma oportunidade em Hollywood. Isso é pra um futuro distante. Não vamos falar sobre especulações, certo?
De resto, quero é agradecer o povo pela paciência... Sou muito desligado e bagunçado, deixei vários furos na coluna... Trevas! Meu mais sincero “foi mal” pra quem interessar possa. No momento estou empacotando tudo o que tenho, perdido entre cuecas e meias sem par, tentando dizer algo que preste. Querem saber o que tenho em meu quarto? Um colchão no chão, um móvel capenga que segura com singular louvor uns livros, um baú com tralhas inúteis e algumas roupas que precisam ser jogadas em um aterro sanitário com a mais rápida urgência. Sobra uns casacos pra frio rigoroso ( suportei 16 graus negativos com eles! ) que pretendo colocar à venda. Interessados, favor, procurar este que vos importuna com tanta falta de propriedade. Enquanto vou tentando dar ordem no quarto, nos pacotes e no fim desta coluna, vou rezando para que as minhas infundadas letras, no momento que estiverem soltas no limbo, sejam alvo de suas orações, ó leitores que não sei se existem, que implorarão aos céus pelo ressurgimento de Pedro Serrano nas malhas negras e pegajosas da internet. Conto com o apoio dos mais loucos mentecaptos. Se preciso for, façam piquetes e passeatas na avenida mais movimentada de sua cidade. Precisarei de todo o apoio popular possível. Quero voltar da forma que Jânio quis e não conseguiu.
Até hoje não consigo lidar direito com essa de despedidas. Nunca sabemos o que dizer quando o momento da partida urge e ruge, seja lá o que for. Aliás, eu nunca soube o que dizer, sempre fui uma monstruosa bagunça personificada em um corpo ogro e ébrio. Mas, pô, é foda dizer tchau. Melhor seria se pudéssemos simplesmente sair à francesa e deixar geral na mão. Mas, num dá, temos de lidar com as lágrimas, gritos, choro e tapas na cara que ganhamos das mulheres que ferimos os sentimentos e deixamos pra trás com cria nova no colo e peito cheio de leite, estrias e outras coisas mais delicadas que não merecem qualquer tipo de menção... Mesmo assim, não se preocupem, eu sei me virar. Além do mais, estou indo pro Rio pra tentar realizar meu maior sonho - abrir uma destilaria de bom whiskey!
Camaradas-leitores-malucos que não têm coisa melhor pra fazer, relaxem, estou bem. Entretanto, é chegada a hora de apagar as luzes. Deixarei a DC Blues num cantinho, gemendo baixinho até que a fome e a sede a consumam, tal qual aconteceu com Schiavo. Enfim, foi legal. Olhem pra trás, foi bom, foi lindo, frutífero, inspirado, preguiçoso e arrastado. Foi interessante fazer esses textos inúteis, inodoros, insípidos e incolores. Mas, tudo acaba, oras... Não, não chorem ou se preocupem. Prometo me cuidar ( tirando as horas que estiver de porre, cuspindo fogo ). Continuarei sendo um cara pedante, libertino, mezzo caffa, mezzo sensível, bebum, contraditório, escrachado, risonho, intragável e deveras bobo. Agora, devo dizer a frase mágica: “Um abraço e até outra vez!”
Pedro Serrano, depois deste último contato direto do pitoresto Distrito de Columbia, não fará outra coisa senão pensar nas menininhas cariocas e na saudosa Skol. Se quiser conversar com ele, saber sobre sua vida ( sua, não, ô, mané, sobre a vida do Pedro! ), coisa e tal, procure por ele nos botecos cariocas a partir de junho. Ele é ranzinza e mal-humorado, excêntrico e rabugento, mas fica contente quando não precisa pagar pelo álcool que consome... Sacou? Entendeu? Pegou o espírito da coisa? Enfim...
P.S. de Extrema Importância: Já que o Patolino aparece na figura que ilustra esse tétrico texto, devo perguntar: Alguém aqui também acha que o Patolino curte entrar numas com ácido? Pra mim, ele e o Pernalonga são totais acid eaters. O Gaguinho já é outra história. Ele usa uppers ou poppers... Daí ele fica pensando várias paradas ao mesmo tempo... Assim sendo, quando ele tem de falar, se embaralha todo. Entendeu o motivo da gagueira? Além do mais, o cara tem de ser muito drogado pra usar gravata borboleta...
P.S. Final: Não venham me dizer que o fim dessa coluna vai trazer sérios problemas psicológicos pra toda a gente. Não inventem merda! Se Patton fosse vivo, ele chutaria seus traseiros e gritaria a plenos pulmões que “problema psicológico é coisa de viado, deixem de ser frouxos, seus borra-botas!”
Câmbio. Desligo!
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