Sangue, ninjas e perversão

Por Rafael Lima — Quinta, 14 de abril de 2005

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A edição encadernada de Elektra Assassina que a Panini mandou para as bancas é uma chance excelente de conferir uma das histórias que mudou a face dos quadrinhos nos anos 1980. É provavelmente onde Bill Sienkiewicz atingiu seu auge artístico e o trabalho mais adulto de Frank Miller. Mérito maior para Jo Duffy, editor original da mini-série, que deu liberdade e espaço de sobra para ambos experimentarem à solta.

Miller e Bill já tinham feito parceria na graphic novel Love & War; era 1986 e Frank Miller, recém-consagrado, achava que tinha descoberto o novo grande talento dos quadrinhos. Bill, entretanto, já gozava de certa fama entre os leitores dos Novos Mutantes. O público estava ávido por novidades e surpreendentemente receptivo ao não experimental e iconoclasta. Depois de levar a volta da concorrente, que publicara duas mini-séries (Ronin e The Dark Knight Returns), a Marvel deve ter chamado de volta Frank Miller com as promessas de liberdade criativa, escolha de ilustrador e abundância de páginas. A única restrição seria a nota "recomendável para maiores de 16 anos" na capa, mas francamente, pouco diante do quadro de Hyeronimus Bosch que aprontaram lá dentro.

Acompanhar o roteiro de Elektra Assassina é complicado. Simplesmente não há o tal narrador onisciente; o que se lê é o diálogo interno das cabeças de diversos personagens, só discerníveis entre si através da cor de fundo dos requadros (ferramenta que Miller já usara antes, em menor escala, leia-se: com um só personagem). Além desse ping-pong de consciência, os cortes jogam a ação de um canto para o outro sem direito a cinto-de-segurança para o leitor – talvez por isso o roteirista se valha, várias vezes, de um expediente maroto para explicar o que está acontecendo: o relatório de um agente, uma reportagem na televisão (como em Dark Knight). A câmera também não ajuda muito: é comum retratar apenas uma parte do corpo, criando desconforto na tentativa de visualizar o todo. Não contente com isso tudo, Sienkiewicz delira nas tintas, ora para retratar esquisitices propostas por Miller como armamentos pesadíssimos ou agentes ciborgues, ora quando pega pesado na caricatura e em simbolismos bizarros (uma sonda mental vira máquina de costura gigante, uma moto vira uma locomotiva). O clima geral é totalmente Frank Miller: paranóico, violento, vulgar; as armas são fálicas, o sexo é pervertido, os personagens são estereotipados. Pesadelo.


Muito já se falou sobre as inúmeras invenções visuais de Bill Sienkiewicz; entre as mais lembradas estão os carimbos que bolou para o rosto do candidato do Partido Democrata a presidente, que só aparece com duas expressões a história inteira – mas pouca gente nota que esse rosto é um decalque de Kennedy, assim como o rosto do presidente, com uma única expressão, é uma caricatura de Nixon infinitamente mais deformada do que o Reagan de The Dark Knight Returns (Aliás, a crítica é pesada: políticos mentem e são maniqueístas, liberais servem de joguetes nas mãos dos verdadeiramente poderosos e conservadores; são belicosos, eternamente a um passo da detonação nuclear. Ah, e pensar que hoje em dia tem tanta festa temática de nostalgia dos anos 80 por aí... Particularmente notável é a maneira como Miller retrata a S.H.I.E.L.D., um braço armado intervencionista em países de fundo-de-quintal e acobertadora de psicopatas em seus quadros militares, bem distante do elenco de agentes 007 liderado por Nick Fury. Bill valoriza as splash pages (páginas ocupadas por um único quadrinho) criando cenas memoráveis, onde mistura elementos realistas e exagerados, num espectro que vai do impressionismo à caricatura, passando pelo expressionismo e por diversas técnicas, do lápis de cor à colagem, no caminho. Foram essas páginas a exposição inaugural do Words and Pictures Museum, o museu fundado por Kevin Eastman.


Se a arte é delirante, onírica, simbolista, o roteiro é uma barafunda deliciosa. Elektra, a mercenária ninja, naufraga num país da América do Sul onde sai à caça do embaixador norte-americano, que seria um servo da Besta – a entidade mística idolatrada pelo Tentáculo, seita ninja da qual ela desertou. Como todos na seita, Elektra tomou uma certa beberagem que desenvolve as habilidades assassinas ao mesmo tempo em que faz uma lavagem cerebral, transformando o bebedor num escravo mental. Elektra quer eliminar essa lavagem passando a faca na Besta, e pretende fazer isso assassinando seus principais servos. O problema é que, nesse ínterim, ela descobre que o tal candidato democrata também era submisso à seita – e faz dele seu alvo; nessa empreitada, mata tanta gente – e de tanta maneira diferente, a mais comum arrancando o coração da vítima com a própria mão, como fora popularizado dois anos antes por Indiana Jones e o Templo da Perdição – que acaba chamando a atenção da S.H.I.E.L.D., responsável pela proteção de membros do governo. Elektra se envolve com Garret, graças a um elo mental que é uma sacada típica de Miller: nada mais do que um super-poder disfarçado de treinamento marcial; elo mental que oscila, com várias nuances, entre submissão completa e relação sado-masoquista ao correr das páginas.

Estranhamente, essa cacofonia sensorial se transformou numa das mais marcantes Hqs de seu tempo por, como se costuma dizer, levar adiante os limites do meio e fazer o leitor acreditar piamente em candidatos controlados por feras místicas, agentes secretos psicopatas, ciborgues sanguinolentos, ninjas em pleno centro urbano graças à furiosa magia das Hqs.




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