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No camarim do Nabuco
Por Felipe Ricotta — Quinta, 7 de abril de 2005
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"Nós vendemos nossas ilusões. Vocês compram suas verdades."
(...)
"Cara, aquela hora em que eu entrei no camarim de vocês, tu tava com duas mulheres semi nuas no teu colo e tinha um cara lambendo o seu joelho. Você já se acostumou com esse assédio grosseiro?"
"Olha, você tem certeza de que olhou direito? Na verdade eu não lembro muito bem se as mulheres no meu colo eram realmente mulheres e se o cara me lambendo era realmente um cara. Acho que você precisa rever os seus conceitos."
(...)
Antes do show, tomando uma no Arco Íris, me deram o toque.
"Cara, você tem certeza de que vai entrar no camarim do Nabuco?"
"Ué, qual o problema?"
"Você sabe o que dizem sobre o camarim do Nabuco, não sabe?"
"Nem sei, cara. Diz aí."
"Olha, me falaram que é meio... sabe aquele filme ______________________"?
"Sei, sei."
"Igualzinho, cara. Igualzinho."
"Putz, sério? Sinistro."
(...)
"Alô, Rataus?"
"Quem é?"
"É o Ricotta, pô!
"Quem?"
"Pô, Rataus. Tô aqui na porta e meu nome não tá aqui. Eu fiquei de fazer a matéria, lembra? Como que faz?"
"Olha, agora não dá pra falar. Tô dando uma entrevista."
E desligou na minha cara.
("aquela bicha! tava dando era o __, isso sim!")
(...)
Logo após o fim do show, me dirigi ao recinto. A porta tava fechada e eu confesso que uns segundos antes de colocar a mão na maçaneta, deu um certo frio na barriga. Será que era verdade mesmo o que falavam por aí sobre o camarim dos caras? Abri e dei de cara com o Rataus que não deu a mínima pra minha presença.
"Estamos entrando aqui no camarim do Nabuco On The Roxy, finalmente eu vou conseguir falar com alguém da banda e... chegaí, Rataus, só um minutinho, você tem um minutinho pra falar?"
"Não, agora não dá mesmo."
"Cara, mas é só um minutinho, não rola?"
"Eu preciso de uma hora. Volta mais tarde."
"Daqui a uma hora então, beleza?"
"Beleza. Na sua casa ou na minha?"
"?!"
"FECHA ESSA PORTA AÍ, FECHA ESSA PORTA AÍ."
"Fecha essa porta logo. Entra ou sai."
Fechei e fiquei dentro. Fudeu.
(...)
Fica difícil pra mim tentar descrever o que era tudo aquilo que eu estava vendo.
Além disso, tenho muitas leitoras puritanas que poderiam ficar chocadas com os sórdidos detalhes então vou apenas dizer que era algo como um Parque de Diversões Luxuriosas Ilegais e Imorais, quase uma versão em braille da CASA DOS BUDAS DITOSOS do João Ubaldo.
Um deles tava pegando uma groupie e no meio do beijo eu cheguei pra interromper.
"Dá licença, eu tô fazendo uma matéria."
"A gente tá ocupado, menino. A gente tá beijando, se toca." - a groupie rosnou.
"Na verdade, a gente tá dando só um estalinho." - ele deixou bem claro - "Você é da onde?"
"Eu sou da imprensa."
"E eu sou groupie, eu tô agarrando ele."
"É, eu tô vendo mesmo."
"Ser groupie é um trabalho sério, sab..."
"Ei, mas peraí. Eu te conheço! Você é da televisão, você apresenta aquele programa, o..."
"É, mas não vai publicar isso, por favor, né?"
"Ok, ok."
(...)
"Você acha que um dia o Nabuco vai estar tocando no Riocentro, que nem o Jammil?"
"Olha, eu acho possível. A gente tem essa vertente pop. É uma puta banda de rock'n'roll mas tem esse apelo comercial pra carai, sabe?"
"Sei. Fala um pouco sobre as influências de vocês. Com quem vocês gostariam de dividir um palco?"
"Eu acho que tem tudo a ver a gente tocar com artistas como Wanessa Camargo e..."
"Putz, eu adoro Wanessa Camargo, cara."
"Além disso, ela é a maior gata."
"Olha, não sei não, ela tem um pouco de cara de cavalo e tal..."
"Mas quando ela bota uma sainha, até que fica gostosa, hein?"
"Verdade, verdade."
(...)
O baixista me parecia ser uma das pessoas mais tranquilas do recinto e tentei falar com ele. Só não conseguia entender pra quê tanto glitter na beiçola.
"Cara, e aí? Como é ser um Nabuco?"
"Olha, o Nabuco é uma banda de estrelas. E eu sou uma estrela."
"Certo, mas e sobre o rolo de vocês com os caras do..."
"Fim da entrevista." - ele me deu um beijo no rosto e minha bochecha ficou cheia de glitter.
(...)
"Eu tô aqui com o Dunas, vocalista da banda, que tá enrolado numa toalha, acabou de sair do banho e tá se trocando aqui na frente de todo mundo mesmo, o cara é todo desinibido e... peraí, chegou uma groupie aqui agora e ela tá... não, ela não tá fazendo isso na frente de todo mundo, eu não tô acreditando nisso... peraí, eu vou tentar falar com ele, diz aí, cara, como que foi o show?"
"Olha, eu...eu...eu não posso te ajudar agora, tá bom, querido?"
"Cara, mas é importante, eu tô escrevendo uma matéria sobre vocês, pô."
"Pra qual jornal você ...AI, PORRA! Ô lindinha, assim machuca, assim machuca!"
O cara deu uma bica na garota, que sinistro.
"NÃO SABE FAZER NÃO FAZ! SOME DAQUI!"
Nisso, o cara esqueceu que eu existia por alguns minutos.
Passaram a mão na minha bunda, quando olhei pra trás tinha um casal se pegando e eles queriam que eu me junt... bem, finalmente o cara se tocou e me perguntou já meio irritado.
"Mas então, querido, você é de jornal?"
"Cara, isso não interessa, interessa? É rapidinho, cinco minutos do teu tempo."
"Olha, querido, se você for de fanzine, mais tarde, mais tarde, ok?"
Aí eu acabei me emputecendo, pô. Quem esses caras pensam que são?
"Porra! Vai dar uma entrevista ou não vai?"
"Coméquié? Você tá pensando que é quem, querido? BRUNÃO! PAULÃO! TIREM ESSE CARA DAQUI!"
"Não, peraê, peraê, calma, calma, calma. Eu tô aqui fazendo um trabalho sério, pô!"
Surgiram dois negões engravatados e praticamente me levantaram do chão.
"Pô, calmaí, estrela! Eu só quero a minha matéria, pô... e tu num vai se vestir não? Pelamordedeus, vai ficar andando peladão pelo camarim, num tem vergonha não?"
"TIRA ESSE MALUCO DAQUI, PORRA! CARALHO, SAI DAQUI MOLEQUE! SAI DAQUI, EU NÃO TE CONHEÇO!"
"Pô, que cara mais estressado aí. Ei! Tira a mão de mim, porra! Eu sou imprensa, rapá!"
Voei alguns metros porta afora e fui parar ao lado de uma groupie que tinha acabado de sair do camarim e se ajeitava pra descer.
"Cê viu isso? Quase rolei da escada!"
"Tadinho, machucou? O Paulão e o Brunão não brincam em serviço mesmo."
Ela era linda, cara. O rosto dela era meio triste, era uma daquelas garotas que já se acostumou a ser usada o tempo todo e que até conseguia enxergar um pouco de graça nisso. Pelo menos essa foi a primeira impressão que tive enquanto me levantava e sacava que ela tava tendo problemas pra terminar de se vestir.
"Dá pra você prender meu sutiã, por favor?"
"Lógico, lógico. Mas afinal, faz quanto tempo que você é groupie do Nabuco?"
"Ah, sei lá, faz uns anos já. Fui a quase todos os shows, eu tenho o DVD e tal. Meu nome é Penny Lane."
"Prazer. Ricotta. E pra você, qual é o melhor Nabuco dos seis?"
"Acho que é o _____ mas no momento eu tô com interesses no _____."
"Então você já experimentou um Nabuco? Como é?"
"Olha, eu acho que todo ser humano deveria experimentar um Nabuco. É o mínimo."
"Podecrer. Pô, num era você que lá dentro tava lixando as unhas do cara e ele te deu uma bica?"
"Eu mesma."
"Pô, e você leva isso numa boa?"
"Ah, ele é assim mesmo meio temperamental. Um dia diz que ama, outro dia nem dá bola, eu já tô acostumada."
"Cara, eu acho que a gente devia ir ali no Arco Íris tomar uma cerveja, vamos?"
"Vamos sim, vamos sim."
(...)
(os dois funcionários do Teatro Odisséia conversando.)
"Cara, olha só aquele maluco ali. O show já acabou faz tempo e ele tá ali dentro do camarim falando sozinho com um gravador. É esquizofrenia que chama isso, né?"
"Acho que é. Tem dia aqui no Odisséia que só dá maluco mermo, não? Nos dias de samba, dá uma galera mais normal."
* Felipe Ricotta é vocal e guitarra do Carol Azevedo e poser frustrado.
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