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Fãs: não se pode viver com eles, não se pode viver sem eles...
Por Tiago Cordeiro — Terça, 5 de abril de 2005
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Fãs são realmente uma esfinge. Ao mesmo tempo em que sua existência fortalece e possibilita a criação de personagens e universos interessantes, muitas vezes limita essas criações. No mundo dos fãs de cultura pop, as adaptações cinematográficas de livros e histórias em quadrinhos são uma prova cabal. "Decifra-nos ou devoramos-te!"
Obviamente, fãs não desconfiam à toa. Hollywood tem seu quinhão de culpa, se lembrarmos de filmes como Batman Eternamente ou Super-homem IV ou o obscuro Quarteto Fantástico (muito antes de Jessica Alba surgir). Sem proteger ninguém, a verdade é que os produtores nunca deram muita atenção para os leitores que fizeram aquele personagem alcançar seu próprio nível de popularidade, mas para a bilheteria que este ou aquele roteiro teria. Como se uma coisa fosse indissociável da outra, não precisa ser cego para perceber.
O problema surge quando releituras para a telona são rejeitadas por fãs que não aceitam absolutamente nada que não seja, no mínimo, idêntico ao original. Há os que odeiam Senhor dos Anéis de Peter Jackson e outros que não aceitam Hulk de Ang Lee, por ser inteligente demais (nesse caso, amigos meus reclamaram de não terem ouvido "Hulk esmaga"). Como alguém pode querer que uma outra linguagem seja exatamente igual à outra? Até porquê, a única razão de se adaptar uma história em quadrinhos ou livro para o cinema é a possibilidade de enriquecer e facilitar o acesso àquela obra. Entretanto, começam discussões fundamentalistas como: "onde está o Tom Bombadil? Sem ele essa história não existe"; "o Wolverine usa colete amarelo! A Vampira não é adolescente, e porque o Magneto não é sarado aí?" O que parece estar distante desse jeito "fãnático" de ser é a percepção de que essas adaptações precisam se ater ao conceito e não aos fatos do personagem. Muito mais importante que ouvir a clássica frase do alter ego de Bruce Banner é entender os traumas que geraram uma divisão entre gênio e monstro, muito antes de qualquer acidente com os raios gama e mais importante do que conhecer um personagem que só aparece em um ou dois capítulos de uma enorme trilogia, é entender (ou ver) que a saga do Um Anel é uma história sobre heroísmo.
Há algumas semanas estreou o filme Constantine estrelado por Keannu Reeves. As reclamações dos fãs surgiram novamente (mesmo porquê a Warner tem mais pecados a pagar...) a respeito de certos detalhes como: o fato de Alan Moore ter dito, após acompanhar as filmagens, que jamais deixaria um personagem seu ser adaptado novamente; Keannu Reeves se recusar a pintar o cabelo de loiro; e o filme não se passar na Inglaterra. Ora, Moore, que é um dos melhores roteiristas da história das histórias em quadrinhos, não é exatamente um papa da integridade artística. O mesmo depoimento não ocorreu quando A Liga Extraordinária foi lançada, e, apesar de suas afirmações, V de Vingança deve estrear nos cinemas ano que vem. Reeves não pintou o cabelo de loiro, mas, apesar de suas limitações dramáticas, carrega o jeito cínico e ácido de John Constantine, e pouco importa a cidade se a tensão das revistas é transmitida no filme. Digam o que quiserem, Constantine não é uma história em quadrinhos de Moore, mas é um filme e carrega em si muito do personagem, de suas histórias e do clima nada maniqueísta da relação entre céu e inferno. Não é um gibi, mas uma adaptação, mesmo que não agrade aos conservadores. Enfim, o que mais poderia se esperar de um filme que gerou críticas muito antes de ser visto?
E enquanto isso, Watchmen já traz algumas notícias de escolha de elenco e produção. O que mais poderíamos esperar? Em diversos sites e fóruns os fãs já começaram a reclamar. Não se pode viver com eles, não se pode viver sem eles... ¤
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