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Monstros sagrados no XVI Salão Carioca de Humor
Por Rafael Lima — Quinta, 31 de março de 2005
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Que o Salão Carioca de Humor tem por sede a Casa de Cultura Laura Alvim, não é de hoje. Nem de ontem, nem de anteontem; sua permanência como evento cultural do verão vai para mais de década. Novidade é que este mesmo Salão tenha, ano passado, estendido um tentáculo para outros centros culturais da cidade, que permaneceu por lá também este ano, na XVI edição.
Estou me referindo ao Centro Cultural dos Correios, localizado próximo da Praça XV e sede da segunda Bienal Internacional de Quadrinhos, em 1993. Um dos lugares para exposição historicamente mais mal aproveitados da cidade, aliás. Esse ano, os Correios abrigam as melhores mostras: retrospectivas comemorativas de 80 anos de Millôr e Lan, homenagem póstuma a Borjalo e convidados estrangeiros & nacionais.
Millôr Fernandes ocupa, compreensivelmente, o maior espaço: o que se tenta representar ali são mais de 60 anos de produção para a imprensa, tarefa impossível tanto pela contingência de espaço quanto pela dificuldade em recuperar originais, mesmo considerando-se apenas artes visuais. Entre os inúmeros cartuns e charges expostos (vários, infelizmente, sem identificação ou data), admira a diversidade de estilos e técnicas explorados graças aos mais de 10 anos de reprodução em 4 cores possibilitada pelas páginas da Veja e Isto É, notavelmente uma divertidíssima piada sobre pichadores de um Jackson Pollock. Sobressai, sempre, o humor combativo, de crítica social e política. A retrospectiva traz peças clássicas, expostas ano passado na Casa França-Brasil: "Êxodo Rural", "Conformismo", "Poluição Burocrática" (procurem pelo atestado de óbito no canto inferior direito), além das versões original (de 1955) e, refeita de "O Esforço do Autor e a Indolência do Personagem", o mais conhecido da série sobre árvores. O grande mérito desta "exposição sem estilo" é trazer a público os originais desses vários trabalhos famosos, além de mostrar raras artes originais e reproduções em acetato de páginas da revista Pif-Paf, antigo nome de seção em O Cruzeiro, de curtíssima duração, fundada pelo homenageado em 1963. Difícil montar uma exposição só que represente todos os períodos de Millôr, mas ainda assim sente-se falta de algum exemplar da série Persoas.
Embora em menor quantidade de pranchas, a retrospectiva de Lan apresenta um painel mais completo de sua carreira do que a de Millôr (o que é compreensível, em vista da enorme produção do segundo e da melhor rastreabilidade dos originais do primeiro). Assim, é possível conferir caricaturas de gente famosa feitas na Argentina, ainda na década de 50, onde Lan chegou a expor antes de vir para o Brasil; maravilhosas caricaturas feitas para a União Brasileira de Compositores, incluindo aqui Nélson Cavaquinho, Pixinguinha, D.Ivone Lara e Wilson Batista inesquecíveis; litografias recentes de paisagens cariocas; muitos originais das chamadas "cariocaturas" (instantâneos em que capta com rara precisão e humor cenas da vida urbana) e dos quadros que faz, atualmente, para O Globo, se auto-retratando. Quem confere esses quadros pode não imaginar o domínio, fácil de se confirmar numa mostra dessas, que Lan tem de técnicas tão diferentes como o nanquim, lápis de cor, grafite (um formidável cartum chamado Mengo!, de 1965, em que a cidade parece se metamorfosear num só torcedor, gritando), isso quando mistura várias delas. Completa a exposição uma ampliação da página de esportes do Última Hora onde Lan publicou sua primeira no Brasil. Só faltou pelo menos uma charge em preto & branco sobre política, como as que ele fez para o Jornal do Brasil.
Falecido ano passado, Mauro Borja Lopes, o Borjalo, foi o homenageado (à maneira de Redi, em 2004). Muito se comentou da injustiça que fora Borjalo abandonar o cartum, desde que migrou para a televisão, no final dos anos 1960. Nessa curta exposição, entende-se por que. Traço enxuto, simplíssimo, Borjalo chega a evitar pôr boca em seus personagens mudos, para não cair na tentação de uma legenda ou balão. Seu humor é lírico, poético, sintético; tem a força significativa e a beleza plástica do que melhor se fez em traço de nanquim no século passado. Borjalo não deixa nada a dever a um Quino, um Sempé, um Schulz e graças, sobretudo, às artes refeitas a partir de 1986 (ano da catarse de "Reencontro", cartum mudo gigante, com centenas de personagens), de piadas de temas ecológicos, ou de obras mais antigas como "A Lavadeira", é possível perceber por que. A mostra conta ainda com uma exibição das vinhetas animadas para o plim-plim da Rede Globo, e seus respectivos storyboards. Um gênio.
O Centro Cultural dos Correios abriga ainda os convidados, em mostra meio disforme, misturando estrangeiros e brasileiros; cartuns, charges e caricaturas; hors concours e concorrentes. É uma boa chance de conferir o talento dos argentinos Sábat (com 5 pranchas de sua série sobre jazz), Pancho, Crist (premiado por charge), do português António (com uma brilhante caricatura de De Gaulle) e dos brasileiros Quinho, Angeli, Gilmar, Dálcio Machado e Jean Galvão. É notável como o computador se popularizou na realização do humor gráfico.
Na próxima coluna: a exposição do homenageado, Jaguar, os classificados e os vencedores do Salão nas categorias Charge, Cartum, Caricatura e História em Quadrinhos.
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