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A insustentável leveza do sofrer - Parte I
Por Marcos Vasconcelos — Quinta, 24 de março de 2005
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Caríssimo leitor, se você é daqueles ouvintes que, ao escutar o simples tanger de um acorde mais lento ao violão, ou o suave toar das cordas do violoncelo ou as pianas notas de uma flauta, não se controla e a primeira coisa que diz é: "- toca uma animada!!!", eu o aconselho a parar de ler este texto agora, antes que seja tarde, e procurar outra coluna. Aqui mesmo no SoBReCarGa tem muitas bem melhores que a minha. É que hoje nós vamos falar de tristeza.
"Tristeza não tem fim, felicidade sim", já dizia o poetinha Vinícius de Moraes. Não é de hoje que a música e a melancolia estão intrinsecamente ligadas. Desde que o primeiro neanderthal gemeu seus sofrimentos, o homem usa a música para expressar sua tristeza, ou sua solidão, ou sua mágoa, enfim. E mesmo lado a lado com a música que exalta a alegria, as canções, sonatas e sinfonias tensas e dramáticas sempre foram expressão muito mais corrente entre os compositores mais conhecidos. Séculos e séculos mais tarde, Drummond diria, acertadamente, que "uma alma em paz não escreve uma linha que preste". Nem literal nem musicalmente.
O fato é que, observando a música moderna e contemporânea de modo geral, podemos perceber que, com a desonrosa exceção daquilo que se chama de axé music, todos os estilos musicais já passaram pelo seu momento down em mim. Dos metaleiros aos pagodeiros, dos seresteiros aos grunge, passando pelos DJ's e instrumentistas, todos, sem exceção, mais cedo ou mais tarde, deixaram fluir o sentimento, derramaram as lágrimas e choraram melodias e letras. E muitos desses momentos se tornaram insuspeitas obras-primas. Algumas dessas tristíssimas canções são inesquecíveis, como "Love of my life", do Queen, "Something in the Way" do Nirvana, ou "Vento no Litoral" do Legião Urbana, para ficar entre as mais modernas. Quem quiser recuar um pouco no tempo, vai encontrar pérolas como "O Ciúme", de Caetano Veloso, "Morro Velho", de Milton Nascimento e "Se tu Soubesses", uma das mais belas serestas de Sylvio Caldas.
Nos dias de hoje, no entanto, pouca gente tem coragem de escrever e musicar suas dores. Como disse o Jabor em recente crônica, o bode tornou-se um pecado abominável. É proibido ficar triste, a vida é a alegria, a dança, as bundas duras e os corpos malhados e dourados de sol nos comerciais de cerveja gelada (ao som de axé, claro). Por sorte, nem todos os artistas contemporâneos compraram essa idéia. Alguns deles, inclusive, estão construindo uma bela carreira sobre uma lírica e densa melancolia. No Brasil, há pouco tempo, Adriana Calcanhotto fazia esse papel, até que, aos poucos, foi sendo seduzida pela quimera dos baticuns mais andantes. Mas nos estrangeiros, principalmente três artistas se consagraram, nos últimos anos, como arautos da tristeza, de uma tristeza musicalmente riquíssima: uma lourinha do Alaska, uma islandesa filha de italianos e um menestrel irlandês.
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