Lourenço só nas letras

Por Rafael Lima — Sexta, 18 de março de 2005

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Um autor de faroestes de banca de jornal em crise criativa é convidado a passar 3 meses sem sair de um hotel, escrevendo um roteiro de cinema sobre as angústias e dificuldades de um escritor na concepção de sua obra. Um autor de histórias em quadrinhos é convidado a escrever um roteiro cinematográfico, que acaba se convertendo num romance, revelando inesperado(?) talento. O segundo é Lourenço Mutarelli, o consagrado quadrinhista de O Dobro de Cinco e A Confluência da Forquilha. O primeiro é Eugênio, protagonista e catalisador de toda ação que acontece no terceiro livro de Lourenço, Jesus Kid, editado em 2004 pela Devir. E Jesus Kid é o nome do caubói que estrela os faroestes que Eugênio escreve.

Talvez o que mais salte aos olhos de quem conhecia o Lourenço Mutarelli dos quadrinhos ao ler o Lourenço Mutarelli escritor seja a profusão de referências pop – citando nominalmente Quentin Tarantino, Charlie Kaufman, John Fante - nem parece o mesmo autor que enfiava letras de tangos obscuros, pinturas clássicas e quadrinhos europeus nas suas graphic novels. A segunda é a diligência com que conduz os acontecimentos: períodos curtos, frases rápidas, muitos diálogos: nem parece o quadrinhista de longos requadros preenchidos com linguagem quase barroca e poucos quadros por página, valorizando mais clima do que ação. Não tivesse Lourenço grande domínio da técnica narrativa, seria de se esperar o pior. Mas ele mostra que sabe onde segurar o laço.

E após um primeiro terço cheio de personagens caricaturais e situações inusitadas (como nos filmes dos irmãos Coen, outra referência), é possível aos mais atentos encontrar aquele Mutarelli no texto. Quando ele se refere à música de abertura de um laptop como "vinhetinha estúpida". Quando diz que o estafeta do hotel vestia-se como um macaquinho, desses que dançam e colhem moedas para um aleijado. Sobretudo, quando conta, próximo ao final, como Eugênio relembra a explicação que seu pai lhe dera sobre o conceito de proporção, usando insetos num cocô para ilustrar: "É proporcional a quantidade de vida que há nessa merda com a quantidade de merda que há em minha vida". Mas, provavelmente, a melhor maneira de comprovar que o cara que está escrevendo ali é o verdadeiro Mutarelli é a maneira matadora com que batiza seus personagens: um barman perdulário chamado Gastão, um produtor de cinema chamado Máximo ("eu sou o Máximo, o produtor") e, a minha preferida, a enfermeira Nurse.

Se o primeiro terço do livro impressiona pelo inesperado das situações e dos personagens, na maior parte dos outros terços, o que se impõe sobre a visão de mundo absurda e desconexa é o negativismo; sai o mondo bizarro de Barton Fink, entra o mundo dos rinocerontes de Ionesco – que fornece a epígrafe do livro -, onde todo diálogo é circular e, se evolui, é para degenerar em conflito físico entre os interlocutores. O inferno não são os outros, o inferno está dentro de cada um: da enfermeira que cuida de um velho paralítico, igualmente condenada a não sair do hotel; do gerente traiçoeiro, que se faz de bonzinho; do chinês que usa o papel dos biscoitos da sorte para avisar que está preso, trabalhando em regime escravo.

A (falta de) ação fica centrada na figura patética do escritor de romances de banca, outrora capaz de cuspir um livro de 200 páginas em 3 semanas, bloqueado pela própria incapacidade em traduzir essa mesma incapacidade num roteiro de cinema, cheio de ação, porque cinema é ação!, como lhe pedem os produtores – e também pedem que ele arrume um papel para a namorada gostosa do diretor, para o halterofilista filho do dono do hotel, e encaixe na trama as batatinhas de pacote de um futuro investidor e um bando de favelados, "para facilitar a captação". O maior símbolo do absurdo é a tampinha da banheira, que teima em sumir, noite após noite.

Lourenço se vale de motivos, repetições temáticas, para reforçar o clima de tédio e desumanização a que Eugênio é submetido, arrastando a leitura nas páginas centrais; usa de humor pastelão nos momentos mais inesperados – particularmente hilárias a primeira cena de sexo e aquela na qual o escritor cai em si do prejuízo que estava levando com a conta do bar ("me traz um copo de água! Mas da bica!") - e joga com clichês (um caubói caladão, uma enfermeira linda cuidando de um velho paralítico, uma dupla de produtores inescrupulosos e estúpidos) de maneira quase indecente; surpreende pelo frescor com usa elementos antigos. É particularmente notável a evolução do relacionamento entre o escritor Eugênio e o personagem Jesus Kid, que acompanha, incorporado, a empreitada de seu criador. Todos os temas básicos de Mutarelli estão aqui: as situações kafkianas, a criação como forma de expiação, o dilema do artista frente ao mercado.

Lourenço Mutarelli ficou conhecido como um dos maiores quadrinhistas brasileiros pelos álbuns que produziu nos últimos 15 anos, seria ousadia imaginar que ele galgaria à mesma posição na literatura, em seu terceiro livro. Ouvi dizer que ele teria abandonado de vez as histórias em quadrinhos em nome dessa nova atividade. Acompanharei com curiosidade seus passos nessa estrada.




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