Hora de ser diferente
No mundo artístico, onde celebridades colocam o termo “artista” em xeque inúmeras vezes com produções ruins, a coisa mais difícil é cada ator ou artista definir o que quer ser. Parece piegas, mas é verdade. Imagine só: você resolve ser ator, uma profissão com uma enorme chance de fracasso financeiro (fora o profissional) e, de repente, consegue emplacar um personagem de sucesso em uma série de comédia. Pronto, você pode ter toda uma rentável carreira na TV como comediante. O problema é se isso basta para você.
Já perdi a conta de ótimos atores que se perdem nessa tentação de seguir um caminho que dá muito dinheiro, algum respeito e nenhum desafio. Julia Roberts, Robbie Willians e tantos outros.
Zack Braff, é a grande estrela do seriado de tv
Scrubs que satiriza as séries como
Plantão Médico e outras. Um ator engraçado, uma boa série e... Pronto! Alí está sua carreira, Braff... Você pode ficar nessa de fazer risinhos em comédia pastelonas e fazer seu pé-de-meia. Porquê não continua aí?
Bem, não sei a resposta... Mas, Braff resolveu não continuar só ali.
Hora de Voltar é o filme em que Braff protagoniza, escreve e dirige. Tarefa inglória ou melhor, um desafio, que poucos aceitam fazer e conseguem cumprir com um mínimo de competência.
A história do drama (isso mesmo: drama. Nada de comédia...) começa quando a mãe de Andrew Largeman (Braff) morre e ele resolve voltar à sua cidade natal após nove anos longe dali. Nos dias que passa ali, o relativamente bem-sucedido ator (aqui talvez o filme ganha um certo ar biográfico) reencontra velhos conhecidos, enfrenta o passado que ainda lhe afeta, evita o confronto com o pai, Gideon (
Ian Holm, o Bilbo de
Senhor dos Anéis) e conhece Sam (
Natalie Portman), uma garota que vai mudar sua forma de enxergar o mundo.
Sam, é uma mentirosa compulsiva e Largeman um depressivo recalcado. Os dois se apaixonam e esse clichê está longe de estragar o filme. Não é que o trabalho de Braff seja irretocável, mas ele mostra ser muito mais do que um ator de comédias de TV. Largeman é um personagem mais sisudo do que Braff costuma interpretar, mas também faz rir e de uma forma que não lembra, nem de longe, a série de tv. Isso tudo contracenando com Natalie Portman, uma das maiores atrizes de sua geração, com quem cria uma ótima sintonia e empatia com o público.
Como roteirista, Braff precisa aprender alguma coisa. Na verdade, esse tipo de drama tem tudo para cair em diálogos verborrágicos que lembre séries como
Felicity e só de não ter chegado a esse ponto, já se chega a algum lugar. Contudo, ainda assim, muitas vezes os personagens são mal-caracterizados e há situações apressadamente forçadas e pretensiosas, apesar disso não comprometer o filme.
O diretor Braff é mais competente. Usando uma linguagem típica de cinema pop, Braff conta uma boa história, trabalha bem os atores (inclusive a si próprio) e não perde a estrutura, mesmo com uma história que é preciso repetir: tinha tudo para cair em um drama choroso e pretensioso. Se muitas vezes o filme esbarra nessa situação, na maior parte do tempo Braff usa simplicidade e brinca com situações inusitadas e coadjuvantes cômicos para tornar a história divertida. O acerto se estende para a escolha da ótima trilha sonora.
E mesmo no fim,
quase previsível. Você se emociona. Ponto para Braff. Resta saber o que ele vai querer ser daqui para frente. ¤