Tributo a Linda Blair
Constantine é um filme baseado numa história em quadrinhos em que mudaram um bando de coisas, certo? Não sei. Eu nunca li a HQ direito - só duas ou três edições de meio de saga. E nem preciso ler.
Constantine é fiel consigo mesmo, o que é suficiente. E cumpre, largamente, o objetivo de divertir do início ao fim. Esqueça
Hellblazer. O filme é a melhor continuação (com foco ampliado) que
O Exorcista já ganhou.
Os leitores estavam temerosos com a troca de cenário. Los Angeles funciona. A cidade dos anjos tem um lado sombrio já mostrado em vários outros filmes. E seu nome dá uma ótima ironia com a trama. Os imigrantes latinos, que abrem o filme, funcionam. As culturas latino-americanas têm elementos de sobrenaturalidade cuja atmosfera são muito bem anexadas ao filme. E, principalmente,
Keanu Reeves funciona. O filme joga muito bem com as limitações do ator. Seu Constantine tem que ser um sujeito sem muitas expressões, com uma asquerosa indiferença a tudo e todos. E isso Keanu Reeves sabe fazer. No primeiro
take, você já sabe que ali está um bom personagem.
O diretor de video-clipes
Francis Lawrence - o cara trabalhou com vários nomes, de Shakira a Garbage - estréia muito bem em longas. É cuidadoso com a estética "video-clíptica", adequando-a bem à história. A fotografia e os movimentos de câmera são ousados sem parecer firula. Todo o ritmo do filme é muito bem equilibrado. E boas falas e rabugentisse são emprestadas a Constantine pelos roteiristas.
Rachel Weisz dá o tom certo às suas duas personagens. Mas os destaques nas atuações é o elenco de apoio, como
Djimon Hounson (de
In America), o Papa Meia-Noite, e
Shia LaBeouf, o assistente "alívio cômico" de Constantine. Até mesmo
Gavin Rossdale, vocalista da moribunda banda Bush, está bem com seu afetado Balthazar (uma boa homenagem ao Duas-Caras, explicitada melhor no meio do filme). Mas são dois atores forjados no teatro shakespeariano que engrandecem os principais representantes do Bem e do Mal. A inglesa
Tilda Swinton (de
Adaptação) dá o ar exato de nobreza decadente ao anjo Gabriel, melhor ainda com seu sotaque britânico. E o sueco
Peter Stormare (de
Fargo) quase barra Keanu Reeves na categoria "como ser sacana".
Os demônios digitais do filme que deixam um pouco a desejar. Mas são bem "escondidos" pelas sombras e pela montagem. A idéia dos produtores para o inferno é interessante, mas os efeitos pasteurizam o visual, tirando um pouco da graça.
Finalizando, o melhor de
Constantine é mesmo a graça feita com a peleja entre Deus e o Diabo - "as superpotências originais", talvez a fonte de histórias (e piadas) mais antiga da humanidade. Acreditando ou não, relaxe e divirta-se. ¤