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Oscar 2005: diferente, mas igualzinho...
Por Tiago Cordeiro — Terça, 1 de março de 2005
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Vamos combinar: Hollywood também possui sua parcela de incompetentes. Quando a gente vê uma cerimônia como a do Oscar televisionada para o mundo inteiro cometer gafes monumentais em nome de um marketing burro, isso fica mais claro.
Chris Rock jamais teve lá muito a ver com o Oscar. Saudades de Crystal... Mas, enfim... Ao contrário do que esperávamos o cara não exagerou. Talvez porquê a preocupação com o tempo foi muito mais forte este ano do que em outros. Alguns indicados foram colocados diretamente no palco, outros foram premiados próximos de suas cadeiras e os discursos – tirando o de Hilary Swank – não foram demorados. Rock contou suas piadas no início e passou discretamente pela cerimônia.
Fica difícil entender algumas idiotices que os produtores da festa cometeram. Especialmente no tocante às músicas. Deixando de lado o fato de colocarem Beyoncé Knowles para cantar com alguém muito melhor (a pobrezinha quase explodiu no final) a trilha de O Expresso Polar a gafe favorita da noite foi Antonio Banderas e Santana interpretando Al Otro Lado Del Río. O mundo inteiro reclamou do equívoco de colocar um espanhol e um mexicano para cantar uma música latina. Mas, os marketeiros do Oscar não deram ouvidos. Afinal de contas, “quem esses latinos pensam que são? Indicamos eles ao prêmio e eles ainda acham que podem vir cantar a sua própria música?” aí nós temos o aclamadíssimo Santana pagando o maior mico de sua gloriosa carreira e Banderas cantando a belíssima música como se fosse novamente El Mariachi (seu personagem de A Balada do Pistoleiro). Aliás, a gente fica querendo saber o que faz um ator consagrado cair em um papel ridículo desses. Dinheiro? Ele já tem e muito. Fama? Até o Oscar o cara tinha muita, e era bem visto pelos latinos, mesmo não sendo um.
Logo, os produtores não estavam nem aí e deu no que deu. Jorge Drexler foi fino, educado e sintético. Tudo que eles queriam que a festa fosse. A música foi justamente premiada e o músico subiu e cantou para o mundo inteiro do jeito que a música realmente era e os dois “intérpretes” foram flagrados disfarçando o indisfarçável embaraço. Nessas horas, eu me pergunto: onde estavam os gênios que passaram por cima de fatores como qualidade, respeito e integridade artística em nome de audiência? Provavelmente, tentando ocupar uma das várias cadeiras vazias no teatro Kodak.
E todo ano, a gente torce para alguém. Depois que Baz Luhrmann perdeu o Oscar para Mente Brilhante, eu vivo tentando não torcer. Só que não dá. Lá estava eu, com os dedos cruzados por Hilary Swank e Clint Eastwood. Fiquei feliz, mas a verdade é que cedo ou tarde, a academia pode fazer com Scorcese a mesma injustiça que cometeu com diretores como Orson Welles e Alfred Hitchcock. Porém, esse ano Menina de Ouro merecia cada um dos prêmios. Afinal de contas, 2004 era um ano bem morno com O Fantasma da Ópera despontando como o único filme poderia trazer algo. Mas de repente, Eastwood trouxe sua melhor direção para agitar as coisas. Se o trabalho de diretor é administrar toda uma equipe e checar cada etapa do processo o que podemos falar de um diretor que compõe uma música e atua magistralmente no filme, entre outras coisas?
Jamie Foxx conseguiu a raridade de dedicar o prêmio a alguém, sem ficar piegas. Cabe ressaltar que esse ano, dois negros receberam o Oscar sem que ocorresse o famoso “ajuste de contas” da academia que premiou, injustamente, Denzel Washington e Halle Berry (que talvez não coincidentemente, recebeu o prêmio Framboesa de Ouro como pior atriz) em um ano onde Russel Crowe (Mente Brilhante) e Nicole Kidman (Moulin Rouge) estavam melhores. Ninguém pode negar que a transformação de Foxx em Ray Charles e a competência de Morgan Freeman fizeram os dois merecerem os prêmios. Na verdade, Freeman não é nenhuma estrela em Menina de Ouro, mas estava bem acima de seus concorrentes.
A festa mostrou uma das coisas mais tristes que o ser humano pode possuir: rancor. Colocar Marlon Brando junto com todos os outros atores falecidos é tratar igualmente os desiguais. Os aplausos espontâneos na festa revelaram a obviedade que a Academia teima em não aceitar. Mesmo já tendo recusado o Oscar e sendo uma personalidade controversa, Brando foi o melhor dos galãs e um dos mais fantásticos atores que a Academia já teve a honra de premiar. Muito acima de seus colegas, o ator merecia uma homenagem à parte, mesmo que isso fizesse alguns membros cerrarem os dentes. Aliás, relembrar que Christopher Reeves e Brando (pai e filho em Super-homem) já se foram, não dá muito ânimo de continuar assistindo.
Como se tudo isso não fosse o bastante, a gente fica tendo que agüentar os comentaristas da tv aberta. Escutar José Wilker soltar a pérola de que “filmes como esse do Homem-aranha são inteligentes demais para mim” está longe de fazer parte do espetáculo. É chatice mesmo.
E como se não bastasse toda a burrice monumental, os americanos insistem em tratar uma festa que exibem para o mundo como se fossem apenas eles assistindo. Ter que ver um figurão dedicando a festa “a todos os soldados norte-americanos que estão no Iraque” é dose pra matar leão (“ Ei tio, se é assim... Porquê vocês reelegeram o cara?”). Tudo bem. Espero que logo, logo, passem a televisionar o BAFTA ou o Césanne. De repente, aí os filhos do tio Sam descobrem o resto do mundo. ¤
Confira a lista completa dos ganhadores do Oscar 2005 aqui.
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