Bíblia de McCloud de volta

Por Rafael Lima — Sexta, 25 de fevereiro de 2005

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Por que as crianças gostam tanto de ler histórias em quadrinhos? Por que conseguimos ler uma história em quadrinhos, apesar de não sabermos o que acontece entre um quadro e outro? Por que as sensações que temos lendo o Flash Gordon são diferentes das de Dick Tracy? Perguntas como essas – cujas respostas rotineiramente caem no campo do imponderável, "ah, isso não dá para explicar" – e muitas outras são respondidas por Scott McCloud no livro Desvendando os Quadrinhos, relançado pela M.Books dez anos depois de sua primeira publicação no Brasil, pela Makron Books (curiosamente, uma editora de livros técnicos).

Provavelmente a principal referência de McCloud ao escrever esse livro foi o clássico Understanding Media (Os Meios de Comunicação), de Marshall McLuhan, aquele que pouca gente leu e menos ainda entendeu, mas de onde todo mundo tirou a expressão "o meio é a mensagem". Scott McCloud pareceu imbuído da missão de explicar ao mundo qual é o enorme potencial das histórias em quadrinhos enquanto linguagem, assim como McLuhan, durante algum tempo, parecia ser o profeta de uma nova era, na qual a transmissão elétrica das comunicações alteraria a percepção humana. De ambos, a concepção da mídia como uma extensão do ser humano.

A grande sacada de Scott foi, diga-se de passagem, ao contrário de seu mestre Will Eisner, escrever não um livro teórico convencional, com texto e ilustrações, para explicar a gramática da linguagem dos quadrinhos, mas uma imensa história em quadrinhos – uma graphic novel, pode-se assumir – completamente didática, onde ele desvela os mecanismos ocultos da gramática das Hqs e, em seguida, os demonstra na prática. É comum, ao longo do álbum, ver McCloud utilizando um recurso cujo efeito ele tinha explicado pouco antes. Por causa disso, a resenha que saiu na revista Panacea quando do lançamento da primeira edição brasileira tinha como título "Faça o que eu digo, faça o que eu faço". Cobra e pau: você lê uma história em quadrinhos que te explica primeiro o que é, e em seguida como se faz... uma história em quadrinhos.

No embalo de explicar como a linguagem dos quadrinhos funciona – a transição suave de quadro para quadro, as diferentes maneiras de indicar a passagem de tempo nos quadrinhos – o leitor é conduzido por pequenas aulas de História da Arte, dos primórdios da imprensa, de estética, lingüística e cognição. Não é uma leitura leve, por mais cuidadosa e didática que seja a narrativa, sobretudo se você nunca se questionou nada do que é proposto por McCloud.

Entretanto, se você é um artista ou ao menos já arriscou a entender a, para usar o termo de Gabriel Garcia Márquez, carpintaria que existe por trás de qualquer obra de arte, certamente vai reconhecer no esforço de Scott a explicação clara para vários efeitos visuais, o que levou Art Spiegelman a chamá-la de "a história em quadrinhos mais inteligente que já li". Mas que ninguém cometa o erro de iniciar alguém em quadrinhos apresentando-lhe o livro de Scott McCloud; o mais provável será um soterramento de informação & conceitos. O ideal para quem começa ainda é seguir os clássicos, as grande narrativas. Deslumbrar com a mágica, e só depois chamar McCloud para explicar o truque.

Entre as grandes sacadas de Scott McCloud estão o conceito de "closure", traduzido para "conclusão", ou seja, a capacidade humana de terminar uma seqüência a partir de uma premissa (usado exaustivamente nos quadrinhos, onde o envolvimento do leitor para preencher lacunas de informação é fundamental, o que faria dos quadrinhos um dos chamados "meios frios" de McLuhan), onde McCloud se vale de exemplos da gestalt, sem sequer mencionar o que seja gestalt; a idéia de que o "closure" ocorre unitariamente a cada passagem de um quadro para quadro, no espaço em branco chamado de "gutter" (e mal traduzido para "sarjeta", mal porque traz junto a idéia de rua ou sujeira; "calha" talvez fosse mais apropriado) onde, segundo McCloud, toda a história acontece e, sobretudo, a pirâmide classificadora do estilo de desenho, no sentido realismo – abstração, que o permite enquadrar todo estilo artístico de qualquer quadrinhista e, de tabela, explica como a simplificação icônica no traço força o leitor a se identificar com os personagens cartunizados.

Scott McCloud é um otimista, um visionário, um profeta das possibilidades e potenciais das histórias em quadrinhos, e os trabalhos que se seguiram a este, Reinventing Comics e o livro atualmente em produção, são investigações sobre o futuro deste meio, o quanto ele pode se transformar em função do suporte e da disseminação, e muitos experimentos aparecem na própria página que ele mantém na internet.

Como já foi dito, não é uma leitura fácil, nem para principiantes. Mas é extremamente recompensadora. E obrigatória para qualquer um que se proponha a entender as entranhas das histórias em quadrinhos.




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