No final do ano passado a Devir veio com dois lançamentos de peso em seu catálogo nacional: Claustrofobia e Crítica. O primeiro vem com a marca do medalhão Julio Shimamoto, que felizmente viveu para ver os tributos a si mesmo impressos em ábum, ao contrário do companheiro Flavio Colin. O segundo é dos novos - ainda dá para chamá-los de novos? - Fábio Moon e Gabriel Bá, os gêmeos que formam a dupla 10 Pãezinhos. Moon e Bá escrevem e desenham as próprias histórias, enquanto Shimamoto pilota roteiros de Gonçalo Júnior, jornalista, ex-fanzineiro e autor do livro A Guerra dos Gibis.
Claustrofobia, conta-se no prefácio, era um projeto inédita de Gonçalo Jr: aproveitar o talento de Julio Shimamoto em histórias mudas. Todas as histórias do álbum giram em torno da opressão da qual tentam escapar os personagens, opressão motivada pelas mais diversas causas: paralisia física, fome, sede, falta de grana. O desenrolar é sempre libertador, embora raramente conduza à redenção; as amarras são rompidas, mas com vitórias de Pirro, talvez mostrando que não haja saída da prisão maior da existência a que se está condenado (exceção apenas para Prólogo). Se o pano de fundo geral é o pessimismo, o tom de cada história alterna-se entre o drama psicológico, o terror e até um humor, ainda que negro (em Homo Sapiens) - é exatamente essa variação o grande mérito do álbum, posto que não seria possível encontrar temáticas tão diversas numa só revista, ou interpretadas por um único autor.
E que autor. Ler um roteiro levado ao papel com liberdade por Shimamoto é entender claramente do que os editores tanto reclamam quando pedem criatividade no portfólio de um desenhista. Shimamoto consegue uma planificação vertiginosa sem retirar a qualidade intuitiva da narrativa, consegue transmitir ternura com um traço expressionista que beira o gótico - pense numa cruza entre Neal Adams e um desenhista da EC Comics - e ainda acha espaço, sempre, para testar inovações técnicas, para experimentar: um efeito de chuva através de colagem de aparas de papel, contornos de quadros e divisão das páginas variando de história para história, e quando você acha que manjou todos os truques, ele tira da manga hachuras que nunca estiveram lá.
Já Crítica é o último álbum da grife 10 Pãezinhos, o terceiro dos gêmeos, que não lançavam um projeto desse porte desde Meu Coração, Não Sei Por Que, ou seja, há 3 longos anos. O conteúdo não é completamente inédito - ao menos não para os que os acompanham com um mínimo de cuidado: a história Feliz Aniversário, Meu Amigo! foi publicada isoladamente em edição independente; Qu'est que C'est? saiu no álbum Autobiographix, pela Dark Horse, que concorreu em sua categoria no último Eisner Awards; um arquivo digital com a história Fora de Moda foi feito disponível no blog dos irmãos, aliás, vencedor do troféu HQ Mix.
Se não ineditismo, a grande força de Crítica é, aliás, a mesma de Claustrofobia: a força de conjunto, de ver a usina criativa dos irmãos em plena carga. Mais: para quem achava que Gabriel Bá era explorado porque fazia a maior parte dos desenhos da dupla, vai gostar de ver aqui praticamente tudo traçado por Fabio Moon, agora mais liberto das influências iniciais, caminhando célere na direção de um estilo pessoal com ótimas soluções visuais. Dá gosto ver o esmero nos detalhes do figurino em Feliz Aniversário, Meu Amigo! E para quem não pode viver sem Bá, aulinha de clima e uso de espaços vazios em O Sapo (abaixo).
A temática segue o que os irmãos não cansam de repetir: narrativas de cunho pessoal, semi-autobiográficas, resvalando na metalinguagem (há um pouco dos autores em cada história e cada personagem do álbum). Aqui e ali, quando abrem alas para o elemento fantástico, o roteiro cresce em impacto, como em
Reflexões, sobretudo comparando-se com o mero relato biográfico, que depende muito do inusitado da situação ou da forma como ela é narrada (caso de
Qu'est que C'est?), ou com o rendição total ao fantástico. Curiosamente,
Reflexões aparece em duas versões, uma de cada irmão para o mesmo roteiro. Como a de Moon tem uma página a mais do que a de Bá, compará-los torna-se uma interessante aula de como sintetizar um roteiro em menos páginas e o quanto os efeitos de narrativa consomem em espaço visual. Enfim, um trabalho modelar da dupla
10 Pãezinhos.
Dois álbuns de quadrinhos repletos de histórias novas, um nome consagrado e dois em ascensão. Que a
Devir continue assim em 2005. ¤