Acabei de ler o livro A Guerra dos Gibis – A Formação do Mercado Editorial Brasileiro e a Censura aos Quadrinhos, 1933-64 (Companhia das Letras, 2004), escrito por Gonçalo Junior, que você soube do lançamento aqui no SoBReCarGa.
Essa leitura serviu para ratificar o que eu pensava sobre o trabalho de Gonçalo Junior que eu conhecia havia algum tempo. Minucioso, detalhista, muito bem pesquisado e rico em referências. O (Álvaro de) Moya já o elogiara em mais de uma ocasião o que, claro, crítico como ele é, me chamou a atenção.
Creio que nunca se fez um estudo tão profundo a respeito das Histórias em Quadrinhos no Brasil, bem, pelo menos, eu não conheço. Aliás, as áreas editorial e de quadrinhos têm pouco material bibliográfico ao nosso dispor. Torço pelo sucesso de A Guerra dos Gibis, fruto de mais de 10 anos de pesquisa, para que isso mude.
A Guerra dos Gibis conta de forma romanceada como Adolfo Aizen, depois de uma viagem aos Estados Unidos, se transforma no primeiro editor “brasileiro” (mais adiante você entenderá as aspas) a publicar revistas em quadrinhos, começando pelos famosos suplementos. A leitura também serviu para confirmar o que eu somente ouvira falar. Gonçalo narra que Aizen só encarou o desafio sozinho depois que Roberto Marinho recusou uma proposta sua de sociedade. Outro fato que eu também conhecia é revelado em detalhes, como, mais tarde, o próprio Marinho transformou-se no seu principal concorrente e conseguiu os direitos editoriais sobre os personagens que Aizen publicava.
A Guerra dos Gibis também narra como Victor Civita, da Editora Abril e Assis Chateaubriand, dos Diários Associados, considerados ao lado de Aizen e Marinho, os quatro maiores editores brasileiros, envolveram-se diretamente com a publicação de revistas de histórias em quadrinhos em algum momento de suas vidas. O livro ainda reservou espaço para uma revelação bombástica: Adolfo Aizen era Russo e não baiano – embora tenha morado na Bahia – como fez que acreditassem. Civita também não era brasileiro, mas isso é notório. Esse fato tem grande importância porque naquela época um estrangeiro não podia ser proprietário de uma empresa de comunicação no Brasil, o que só mudou em 2002 quando foi sancionada uma lei que viabilizou a abertura de empresas de comunicação para o capital estrangeiro.


O livro também fortalece a reverência que faço a Adolfo Aizen como o “pai do quadrinho”. Sinto não tê-lo conhecido pessoalmente. Em 1991, quando da sua morte, escrevi para a
Folha de Londrina a respeito e quando estive no Rio de Janeiro, pouco tempo depois, conheci seu filho
Naumim Aizen, que na noite de autógrafos de
A Guerra dos Gibis tive o prazer de reencontrar.
O
Dia Nacional do Quadrinho, instituído pela
Academia Brasileira de Letras e pela
Associação Brasileira de Imprensa, é comemorado em 14 de março, data em que Adolfo Aizen lançou, em 1934, o
Suplemento Infantil, um verdadeiro marco na história da imprensa brasileira.
Outro grande tema de
A Guerra dos Gibis é a censura que os quadrinhos enfrentaram, raiz do preconceito que ainda hoje assombra aqui e ali. Gostei bastante da grande pesquisa iconográfica realizada por Gonçalo e reproduzida para os leitores. Um folder em cores com capas do número 1 de séries famosas como
O Gury,
Gibi,
O Globo Juvenil,
Biriba,
O Lobinho e
Edição Maravilhosa é o grande destaque desta pesquisa.


Em recente bate-papo, Gonçalo confessou ser (claro!) grande fã de Histórias em Quadrinhos e fala com grande paixão sobre os quadrinhos produzidos no Brasil. No livro, discorrendo sobre as leis de reserva de mercado – outra polêmica muito interessante – que nunca chegaram a ser regulamentadas no Brasil, fica clara a diferença entre “quadrinho nacional” e “quadrinho produzido no Brasil”.
Gonçalo revelou-me que não tem uma coleção muito grande (por falta de espaço, creio) e que suas revistas estão divididas entre São Paulo e Bahia, de onde é natural. Ele adotou uma prática que eu também utilizo, principalmente porque guardo qualquer revista em quadrinhos que caia em minhas mãos. Sempre que conseguimos uma revista em melhor estado de conservação substituímos a da coleção. Com isso procuramos melhorar a qualidade do acervo que, às vezes por abrigar material para referência, nem sempre recebe exemplares bem cuidados. As repetidas são trocadas com colegas ou mesmo servem como presente.
A Guerra dos Gibis é, sem dúvida nenhuma, uma das mais importantes obras já publicadas em língua portuguesa sobre Histórias em Quadrinhos. Se você gosta de quadrinhos nem pense em deixar de ler essa obra-prima sobre a trajetória das HQs no Brasil. Leitura obrigatória.
É isso aí! Tchau e até breve. ¤