Ainda Jules Feiffer

Por Rafael Lima — Quinta, 30 de outubro de 2003

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Semana passada falei sobre Tantrum, um dos grandes relançamentos da obra de Jules Feiffer pela Fantagraphics este ano. Hoje, o outro, The Great Comic Book Heroes
é um ensaio sobre o nascimento e a efervescência da indústria de quadrinhos de super-heróis, temperado com as memórias de um Feiffer ainda adolescente (1938-1950) e seus primeiros anos como profissional. Quando foi originalmente publicado, em 1965 – numa edição com o Super-Homem na capa, e republicações de várias histórias em quadrinhos no miolo – praticamente ainda não existiam estudos sérios, analíticos, sobre o que sempre foi considerado lixo cultural: quadrinhos. Apocalípticos e Integrados, de Umberto Eco, só viria na década seguinte; as exposições no Louvre, idem. Só mesmo em um certo país da América do Sul já se realizara uma grande mostra estudando o valor narrativo da linguagem das Hqs, mas essa história, peçam para o Álvaro de Moya contar... Hoje, depois das luxuosas encadernações, a reedição consta apenas do texto básico adicionado de algumas ilustrações.

O grande lance do livro é o modo como Jules Feiffer consegue equilibrar as impressões juvenis da época da primeira leitura com a análise intelectual adulta da relevância artística e cultural dos gibis. É ao mesmo tempo o fã e o profissional do meio, o leitor e o criador escrevendo. Se não fosse assim, não veríamos dentre as inúmeras observações argutas sobre a dinâmica dos quadrinhos de super-heróis, cada um dos principais personagens (Super-Homem, Batman, Capitão Marvel, Mulher Maravilha, The Spirit) e o estilo de seus criadores, como: “outros planetas podem ter seres ridículos, mas eles são mais espertos, sabem mais línguas (inclusive inglês) e estão na frente no negócio de construção de foguetes e armas de destruição”, ou quando se queixa do uso de balões retangulares (como nos álbuns do Tintin): “bons balões devem ser bolhas irregulares flutuando leves como ar na parte de cima dos quadros” e dos textos no pretérito: “o [uso do] tempo passado era uma violação ao decoro dos gibis. Quadrinhos eram uma experiência muito imediata para subjugar o leitor ao pretérito”.

O ensaio, rápido e inspirado, é certamente da maior densidade de sacadas brilhantes por linha já escrita sobre super-heróis. Admiráveis sacadas como a de que o surgimento de heróis com super-poderes foram um desenvolvimento lógico, já que os vilões há muito eram mais interessantes – esperava-se “alguém com um chamado”. Ou o fato de que não era Clark Kent quem se disfarçava para virar Super-Homem, era o Super-Homem que se disfarçava para virar Clark Kent: “a verdade seria que Kent existia não para os propósitos da história, mas para o leitor. Ele é a opinião do Super-Homem de todos nós”. Seu olhar crítico pega detalhes falsamente irrelevantes, porque quem desenha sabe o quanto eles podem alterar a percepção do leitor: “não só parecia fácil ser o Capitão Marvel, parecia fácil desenhá-lo”; “Batman popularizou a noção criada pelo Fantasma de que quando você põe uma máscara, seus olhos somem”; “o mundo de Eisner parecia mais real do que o mundo de outros porque parecia mais com um filme”; “o Spirit raramente usava meias, ou as usava da cor da pele”, enfim, o tipo de toque que só pode ser dado por alguém que gastou muito homem-hora em cima das páginas quadriculadas, lendo-as e desenhando-as.
Jules Feiffer não se limita a uma análise estética, dando-se ao trabalho de responder várias acusações do livro A Sedução do Inocente, do Dr. Frederic Wertham, entre as quais a de que a presença de duplas de super-heróis tutor-parceiro (Batman e Robin, Arqueiro Verde e Speedy) incentivava o homossexualismo: “vi todos os filmes de Astaire e Ginger e nunca me ocorreu que eles dormiam juntos”. Seus melhores momentos dão-se quando joga francamente: “Robin tinha o corpo de um peso médio, pernas de um pugilista. Ele era obviamente o melhor da classe, o centro de qualquer círculo, o escolhido. Deus, como eu o odiava. Pode-se imaginar quão satisfeito eu fiquei quando espalharam que ele era bicha”, ou sobre as acusações de que quadrinhos corrompiam a juventude: “Mas claro. Por qual outro motivo lê-los?”.

Num dos capítulos finais, Jules Feiffer rememora a pauleira de seus primeiros dias profissionais, quando a imensa demanda criara linhas e mais linhas de produção de desenhistas virando noites e finais de semana para cumprir prazos insanos, trancados em apartamentos às vezes sem cozinha ou comida. A melhor história desses tempos conta que, durante uma nevasca em que todas as lojas foram fechadas, depois de muito rodar, um artista faminto voltou para o estúdio onde seus companheiros esperavam com feijão em lata e duas dúzias de ovos. Não havia qualquer tipo de fogão ou fogareiro, e a saída foi arrancar alguns azulejos do banheiro, com o qual fizeram um forno; papéis velhos foram utilizados para alimentar o fogo com o qual aqueceram o feijão e fritaram os ovos, que eram servidos em azulejos limpos...
Se há um texto que explique exatamente o que se passa na cabeça de um fã que, um dia, almeja virar um profissional dos quadrinhos, este livro é The Great Comic Book Heroes. Agora só falta republicarem The Unexpurgated Memories of Bernard Mergendeiler.




COMPRAS
DVD > DVD Os Super-Heróis dos Quadrinhos (Richard Belfield)
Livro > Nossos deuses São Super-Heróis (Christopher Knowles)
Game > Jogo PC Ultimate Spiderman (Electronic Arts)
DVD > DVD Super Friends: Legendary Super Powers Show - Importado
Game > Game Marvel Ultimate Alliance 2 - Wii (Importado)
DVD > DVD Super Mouse e Seus Amigos
Livro > Batman : a Piada Mortal (Alan Moore)
Game > Game Marvel: Ultimate Alliance 2 - PS3 (Synergex do Brasil)

 

VEJA TAMBÉM...
24/10 > Feiffer na área
14/10 > Coleção completa de Charlie Brown anunciada

 

 

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