A melhor atuação de Ray Charles

Ele tinha um talento fenomenal para a música. Depois de perder a visão, aos sete anos, Ray Charles desenvolveu uma audição aguçada, permitindo ao cantor não só imitar com perfeição grandes intérpretes, como também desenvolver um estilo próprio. E que estilo! O que eu não sabia é que Ray atuava tão bem.
Podem esquecer
Jamie Foxx. Ele desaparece completamente ao colocar a prótese nos olhos, os óculos escuros e copiar os trejeitos do astro. O que se vê na tela, em todos os momentos, é Ray Charles. Está certo que, ao contrário do que Daniel de Oliveira fez em
Cazuza - O Tempo Não Pára, as músicas não são interpretadas por Foxx, sendo todas originais. Não importa, já que o ator captou completamente a essência do personagem, tornando alguns momentos do filme antológicos.
O maior deles é a apresentação da composição
Hit the Road Jack, um dos maiores sucessos do cantor. No filme, a interpretação da música é quase um duelo entre Ray e uma de suas amantes, a Raelette Margie Hendricks. As canções, aliás, são responsáveis por grandes sequências. Cada uma tem sua própria história, todas emocionantes. Cabe destacar também
Georgia on My Mind,
What'd I Say,
Mess Around e
I Got a Woman.
Seria realmente estranho se um filme sobre um dos maiores cantores do século XX não tivesse cenas musicais vigorosas e empolgantes. Mas basta lembrar do fraquinho
De-Lovely, biografia de Cole Porter, para ver que nem mesmo grandes canções salvam um musical. Por sorte, esse não é o caso de
Ray.

Além de Jamie Foxx e das músicas, outra peça-chave no sucesso da produção é o diretor
Taylor Hackford (
Advogado do Diabo), que tentou trazer a história às telas durante 15 anos, e não encontrava nenhum estúdio disposto a bancar a empreitada. Com o aval do próprio Ray Charles, ele fez uma produção enxuta, e não permitiu que sua paixão pelo projeto tornasse o resultado final exagerado e artificial. O que se vê é uma trama forte, repleta de cenas sinceras e emocionantes que não escorregam no melodrama.
A narrativa, convencional, é intercalada com
flashbacks da infância do cantor, mostrando como os acontecimentos do passado influenciaram sua vida adulta. Sua mãe, Aretha Robinson, é interpretada pela excelente
Sharon Warren, atriz novata, vinda do teatro. É ela que, com toda a sua simplicidade, fortalece os alicerces da vida de Ray, não deixando que ele se visse nem fosse visto como um aleijado. Há também a morte do irmão, quando o artista tinha apenas cinco anos, provocando uma culpa que ele carrega por toda a vida e mostrada no filme como o principal fator que o levou às drogas.
O vício de Charles, aliás, é apresentado sem nenhum pudor. A dependência de heroína o levou duas vezes à cadeia e quase arruinou sua carreira e família. Foi justamente com a força de duas grandes mulheres, a mãe e a esposa, que ele conseguiu superar o problema. A história termina exatamente no ponto em que Ray decide nunca mais se drogar, e quando sua vida pessoal e artística se estabiliza.
Ray é um daqueles filmes em que a conjunção de diversos fatores positivos leva a um enorme êxito. A coragem em abordar de forma sincera as fraquezas do personagem o tornam humano, palpável e ainda mais digno de respeito e admiração. Talvez nem tudo tenha acontecido como foi mostrado. Não importa, pois continuará sendo um grande filme, com uma história forte e uma das melhores atuações dos últimos tempos. ¤