Um escândalo financeiro bastante estranho estourou semana passada na gigante americana
DC Comics. Primeiro, uma breve explicação: é costume entre as editoras de quadrinhos distribuir para os seus funcionários o que se chama de
comp comics, ou seja, gibis grátis como um dos benefícios do emprego.
Muitas vezes, os escritórios de funcionários de todos os níveis estão abarrotados com as HQs ganhas, e a maior parte do pessoal arranja algo melhor para fazer com os gibis do que deixá-los mofando em pilhas imensas. Tanto na DC Comics quanto em todas as maiores companhias americanas, é costume trocar as revistas excedentes em uma das maiores comic shops dos EUA, a
Jim Hanley's Universe. Diz-se que todos os maiores nomes das HQs têm créditos gigantescos na loja, trocando os gibis não-desejados por outros, por DVDs e por produtos diversos. Como não poderia deixar de ser, alguém achou um jeito de lucrar em cima da prática.
Descobriu-se que um funcionário da DC Comics trocava pilhas de “comp comics” por itens de colecionador (como estátuas em resina) na Jim Hanley’s Universe, e depois vendia os tais itens no site de leilões
eBay, tirando daí grande parte de seu sustento. O tal funcionário (cujo nome não foi divulgado) já havia sido demitido quando a descoberta ocorreu, então, a medida que
Vince Letterio, o gerente da DC Comics, tomou foi
proibir que as “comp comics” fossem trocadas na Jim Hanley’s Universe. Até aí, talvez um pouco de exagero, mas nada de mais. O pior são as conseqüências.
Em primeiro lugar, o bafafá sobre esta decisão se fez porque muitos (muitos mesmo) profissionais dos quadrinhos adquiriam todo tipo de produtos para si mesmos e para presentes através das trocas na loja, e isto abala as finanças de muita gente (como se sabe, a maior parte dos astros das HQs não é exatamente rica). Em segundo, a Jim Hanley adquiria a maior parte das encadernações mais caras (de capa dura e edições de luxo) através do sistema de trocas, e isto agora fica impossibilitado. O que quer dizer que uma das maiores lojas dos EUA deve refazer seu sistema de pedidos para a distribuidora
Diamond (que distribui praticamente todos os gibis lá fora), o que bagunça as distribuições e o próprio processo de impressão da DC Comics. Por último e pior, o sistema de trocas era em geral a única oportunidade em que figurões da DC adquiriam gibis independentes que mostram talentos novos. Portanto, aí se fecha mais uma porta para os pretensos profissionais dos quadrinhos. Tudo isso por causa de umas vendas na eBay...
O caso, que já está sendo chamado de
Comp Gate (em alusão ao famoso Watergate), é cômico pela seriedade com que está sendo levado. A indignação de Vince Letterio não tem muita explicação, principalmente levando-se em conta que a maior parte dos ramos de entretenimento (música, livros...) se utiliza de sistemas de trocas parecidos.
Um profissional (que preferiu se manter anônimo) declarou: “Só na DC Comics você ouve falar em tráfico de gibis...”