Meus super-heróis morreram de overdose

Por Manoel de Souza — Terça, 1 de fevereiro de 2005

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Desde 1985, quando tinha 12 anos e virei fã de quadrinhos para valer, fui contaminado por uma febre insana de criar um sem-número de super-heróis e revistas que nunca chegaram às bancas. Acredito que muita gente deve sofrer do mesmo mal pois, ao contrário de outras artes, nos quadrinhos é possível fazer quase tudo sozinho. Basta ter lápis, papel, boas idéias, desenhos atraentes e muito, mas muito tempo livre. Não ser popular com as garotas do colégio também costuma colaborar no surgimento de novos quadrinistas.

No início eu desenhava à exaustão todos os super-heróis que apareciam na minha frente. Fosse Marvel ou DC, eu traçava. Gastei folhas e mais folhas de sulfite e, em pouco tempo, já arriscava a fazer minha primeira história em quadrinhos. Até tomei o Capitão América emprestado e nem paguei royalties para o Stan Lee.

Foi um começo pouco brilhante. Minha história de estréia não tinha pé nem cabeça, mas já vinha paginada em formato de revista (tipo aquelas grandes da Ebal, com 31 x 21,5 cm). Também tinha logotipo, capa colorida e até espaço de expediente com créditos da fictícia "Editora Obra Prima". Tudo era bem artesanal, com desenhos feitos à lápis em folhas de sulfite coladas com cola branca.

Gostei da experiência e parti para minha segunda história. Nela também usei o Capitão só que, desta vez, misturei diversos outros personagens da Marvel e fiz uma espécie de crossover com a participação de outros vilões. Nessa ocasião preferi adotar um tamanho mais próximo das "modernas" revistinhas da Abril (13 x 19,5 cm), o que gastava bem menos papel.

Surge o "Manuverso"


O próximo passo foi o mais ousado: conceber meu próprio universo de super-heróis. Daí surgiu a revista Clássicos da Ação, com personagens como o Esquadrão Combate (totalmente chupado dos Vingadores) e o Águia (que tinha mais cara é do Anjo, dos X-Men). Finalizava a revista uma cópia bem mal feita do Conan, que chamei de Kronus. Depois de desenhar umas 80 páginas da publicação me enchi e desisti dessa primeira leva do "manuverso" (Universo do Manoel).

Mas o vício continuou e logo eu já tinha outro lançamento, a revista Black-Out, que foi minha publicação que durou mais tempo (de dezembro de 1986 e até outubro de 1987). Ao todo foram dez edições e 320 páginas de quadrinhos. Desta vez consegui aprimorar o processo e adotei o sistema de "lombada canoa", em que eu dobrava cada folha de sulfite ao meio e tinha quatro páginas. Daí era só juntar várias folhas e grampear na lombada. Depois já desenhava direto no caderninho.

Black-Out teve em suas páginas uma verdadeira galeria de personagens fantasiados: Tornado, uma mistura de Nova com Johnny Cypher; Shaolin, um Shang Chi abrasileirado; Agente Philip, irmão bastardo do Nick Fury e Dínamo Fantasma, um alienígena à la Senhor Destino.


Depois da Black-Out, meu personagem principal, Tornado, ganhou um título próprio. Durou apenas quatro edições mas foi tempo suficiente para que ele vivesse grandes aventuras. Foi a partir dessa revista que minhas histórias realmente começavam a ter cara de quadrinhos de verdade.

Porém, já nessa época, não me sentia mais inspirado pelos super-heróis. Até tentei dar uma sobrevida ao Dínamo Fantasma, numa hq póstuma de 1989, em que transformei-o numa espécie de ninja, mas o resultado não me agradou.

Com o tempo, me esforcei em criar histórias com meus personagens que se passavam no Brasil. Não colou. Parecia que só em lugares "mágicos", como Nova Iorque, era possível encontrar heróis de verdade. Além disso, soava muito estranho uma identidade secreta em português, como por exemplo, Antônio Marrom. O legal mesmo era Tony Brown, que era perseguido no Central Park, e não no Parque do Ibirapuera. Foi aí que meus super-heróis começaram a morrer... de overdose de realismo.

O golpe final veio quando descobri o trabalho humorístico e anárquico de Robert Crumb e do pessoal da Editora Circo (Angeli, Laerte, Luiz Gê...). Daí virei quadrinista alternativo e fanzineiro contestador, inimigo dos heróis americanos e enlatados. Mas essa já é outra história que dias desses eu conto... ¤


Manoel de Souza (manoel.souza@europanet.com.br) escreve sobre quadrinhos, séries, cinema e curiosidades do mundo pop em geral. É autor do livro Loucuras dos Seriados da TV, lançado pela Panda Books.




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