Lembro-me que na época da exibição de
O Auto da Compadecida (janeiro de 1999) eu parei em um posto para abastecer e ouvi um frentista chamando o outro de Chicó. Para mim, isso demonstrou que “as aventuras de João Grilo (
Matheus Natchergaele) e Chicó (
Selton Mello)”, escritas por
Ariano Suassuna, quando transposta para a televisão atingiu uma grande faixa da população.

Considerada a quarta maior do mundo, a
Rede Globo, que tem como principal produto a telenovela – estudada como importante veículo de comunicação de massa, ditando comportamento e até tendências de moda – entrou o ano apresentando a minissérie
Hoje é dia de Maria, uma história inspirada no folclore brasileiro.
Quero registrar minhas impressões sobre essa obra dirigida por
Luiz Fernando Carvalho com roteiro escrito por Luiz Alberto de Abreu a partir das pesquisas realizadas por
Carlos Alberto Soffredini. Provavelmente eu não mencione pessoas que foram importantes para o excelente resultado final de um projeto tão grandioso como esse. O que desejo é apenas chamar atenção para obras desse calibre e sua importância para a cultura e, porque não dizer, para a educação.
Hoje é dia de Maria utiliza uma linguagem diferente da que os telespectadores estão acostumados a ver diariamente nas telenovelas. A principal delas, além do visual inusitado, é o texto elaborado e trabalhado com mais cuidado do que o que costumamos ver no dia a dia. Isso se deve pelo fato de não ser uma obra aberta e, sim, uma obra fechada, com começo, meio e fim pré-estabelecidos. Lembre-se que uma novela pode ser esticada, tendo seu final adiado até mais de uma vez, e com isso perder qualidade.
Em
Hoje é dia de Maria tudo é diferente; desde a trilha sonora (criada a partir de uma pesquisa minuciosa feita por
Tim Rescala) até a postura dos atores, que foram orientados a adotar uma linguagem teatral, vigorosa. A teatralidade da série é seu ponto forte e o que a diferencia de tudo o que até hoje foi mostrado na área.
O cenário foi montado no domo (bolha do palco principal) do Rock in Rio, que foi transportado para o Projac, idéia da diretora de arte
Lia Renha. Com isso, o pintor de arte
Clécio Régis e o cenógrafo
João Irenio tiveram ao seu dispor um painel de 360º para trabalhar. O simples fato do cenário não ter cantos muda muita coisa na hora da produção. Os fundos de cenas pintados lembravam os famosos clássicos de Hollywood.
O trabalho de iluminação, a cargo de José
Tadeu Ribeiro, foi feito com maestria e teve muita importância para contar a história, como o sol escaldante numa longa seqüência onde Maria atravessa a aridez do sertão. Tudo é amarelo, quente, árido. O figurino criado por
Luciana Buarque também cumpriu muito bem seu papel dando um ar de feito à mão. A maquiagem, no comando de
Vavá Torres, foi detalhista e precisa ajudando na caracterização dos atores. Iluminação, figurino e maquiagem trabalhando em sintonia, mais um ponto alto na produção.
O que talvez tenha chamado mais a minha atenção e a do público também foi a grande utilização de bonecos (marionetes) na minissérie. O
Giramundo, criado por
Álvaro Apocalypse,
Teresinha Veloso e
Madu nos anos 1970 e o grupo
Imaginário Periférico, do artista plástico
Raimundo Rodrigues foram os responsáveis por essa parte da produção. Gostei demais dos cavalos que apareceram no decorrer da história e que só se movimentavam por estarem sobre uma plataforma com rodinhas, e num nonsense total e absurdo essas plataformas com rodinhas eram mostradas com naturalidade.
A animação também merece destaque. Os Dois Executivos, interpretados pelos atores
Charles Fricks e
Leandro Castilho, que apareceram surrando diariamente um pobre defunto que morreu sem pagar suas dívidas, tiveram seus movimentos fotografados e depois animados. Parecia “humano animado em
stop motion”, idéia do animador
César Coelho, um dos diretores do Anima Mundi. A parte de computação gráfica, coordenada por
Eduardo Haffen e
Toni Lid, foi sabiamente utilizada na minissérie sem destoar do conjunto.
Vale destacar as interpretações dos atores que encarnaram Asmodeu, que apareceu na história com sete visuais diferentes (afinal cada um enxerga o Diabo de um jeito!). O Asmodeu principal foi interpretado por
Stênio Garcia; o Asmodeu Sátiro por
Ricardo Blat; o Brincante por
Antônio Edson; o Mágico por
André Valli; o Bonito por
João Sabiá; o Velho por
Emiliano Queiroz e, por fim, o Poeta por
Luiz Damasceno. O diretor poderia ter caído no lugar-comum, teria tido muito menos trabalho, mas não, resolveu ir pelo caminho mais difícil e isso fez diferença.
Todos os atores realmente estavam num nível muito bom de atuação, mas tenho grande prazer em assistir a
Osmar Prado que, ao meu ver, deu um show à parte. A menina
Carolina Oliveira, que interpretou Maria quando criança (na história Asmodeu lhe rouba a infância vingando-se por ter sido ludibriado por ela) atuou “como gente grande”. Também não seria justo deixar de mencionar o trabalho de
Rodrigo Santoro (Amado) e
Daniel de Oliveira (Quirino).
Podemos até questionar se o público de um modo geral entendeu o que estava diante dele, eu, particularmente, creio que sim, a alta audiência registrada pelo IBOPE ratifica isso. Se não, só o simples fato de levar cultura através da televisão que vem sofrendo de uma imensa crise criativa merece ser visto, valorizado e aplaudido. Essa é a televisão aberta que eu gostaria de ver, mas infelizmente, não é possível tê-la (nem fazê-la) durante toda a programação. Propostas como
Hoje é dia de Maria, devem ser vistas com bons olhos, devemos saber reconhecer seu valor cultural e artístico e apreciá-las, claro.
É isso aí! Tchau e até breve!