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Quando o hype sai pela culatra
Por Douglas Donin — Sexta, 24 de outubro de 2003
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Façam suas apostas, senhores!
Do jeito que a coisa está, fica difícil falar de trash. Eu sei que deveria ficar muito feliz com isso, mas o cinema – americano e nacional – tem produzido filmes muito bons. Ora, me diverti horrores com "Piratas do Caribe", e "Lisbela e o Prisioneiro" é um grande filme. Daqui a pouco estrearão "O Retorno do Rei" (que ninguém ainda viu, mas que já é considerado o favorito para o Oscar), "O Último Samurai" e outras aguardadas produções. Diabos, onde foi parar o trash? A diversão pop barata de antigamente? Seria a hora de desistir e abandonar o assunto da coluna?
Não, senhores. Uma coisa ainda me dá esperanças: o poder das estatísticas. Nada pode desafiar as probabilidades! Sabemos que o cinema comercial deve ser, na média, medíocre. Logo, para compensar a boa safra de filmes recentes, podemos ter certeza que algumas bombas muito grandes vêm por aí! E isso é um pensamento encorajador!
Para o fã de filmes de super-heróis, por exemplo, parecia que os tempos negros de bombas inclassificáveis como "Batman & Robin" estavam há muito esquecidos. Afinal, a corrente ascendente da Marvel, com Blade/X-Men/Homem-Aranha parecia ter colocado um novo padrão nos filmes baseados em quadrinhos.
Mas bastou confiar, e pronto! "Demolidor" veio para fazer justiça ao nome nacional, demolindo a esperança antes inabalável de muita gente que finalmente estava acreditando que os quadrinhos seriam para sempre retratados na nas telas com obras adultas, bem-cuidadas e de qualidade. Claro que "X-Men 2" e "Hulk" vieram para reerguer a casa, mas aí o estrago já estava feito. Pelo menos os danos foram mínimos, já que "Demolidor" foi rapidamente esquecido pelo público geral - principalmente por ser um herói desconhecido.
A realidade é que o cinema não aprende mesmo. Não há lição, exemplo ou fórmula que vá impor um padrão de qualidade aos filmes feitos às pressas e com a única preocupação de aproveitar aquelas épocas do ano onde se pode vender bonequinhos, lancheiras e videogames licenciados na esteira do filme. Portanto, senhores, estão abertas as apostas: Qual será o próximo filme que aguardaremos com apreensão, mas que nos fará sentir raiva por ter ido ao cinema?
O PÁREO:
Cavalo: Catwoman
Jóquei: Pitof e Hale Berry. Sim, eu disse Pitof!
Volume de Apostas: Imenso. Ora, vocês viram aquelas fotos? Não bastasse dar um susto deste tamanhão nos fãs da personagem, resolveram mudar quase tudo na história da Srta. Selina Kyle (o que não era nem um pouco necessário). E os boatos que continuam chegando a nossos pobres ouvidos, dia após dia, não são nem um pouco animadores...
O que salvará este filme? Um milagre, aparentemente. Somente um milagre...
Cavalo: Superman
Jóquei: McG e uma penca de prováveis astros.
Volume de Apostas: Grande. "As Panteras" pode ser até um filme divertidinho, se você estiver com vontade de assistir algo despretensioso enquanto o cérebro termina de secar no varal. Mas sabemos que com o Homem-de-Aço o buraco é muito mais embaixo. O Super merece um filme imponente, grandioso. Richard Donner entendeu esta parte do recado, e chegou bem perto disso – mais perto do que alguém poderia chegar no futuro, segundo alguns.
Em um mundo perfeito, alguém perceberia rapidamente que o Super-Homem é, disparado, o maior herói dos quadrinhos, além de um ícone poderosíssimo da nossa cultura. Este alguém chamaria um especialista reconhecido e aclamado como Alex Ross para ajudar na produção, e iria preparar um filme visualmente arrebatador, simbólico, forte. Mas não vivemos em um mundo perfeito: temos que engolir boatos detestáveis sobre alterações profundas na história original e protagonistas de adequação duvidosa ao papel.
E como a televisão dos executivos da Warner parece sair misteriosamente do ar sempre que começa "Smallville", podemos perder as esperanças de que alguém, algum dia, vá aproveitar a óbvia e excelente oportunidade de fazer um filme ligado à popular série.
Cavalo: Batman: Intimidation Game
Jóquei: O excelente Christopher Nolan e o péssimo Christian Bale.
Volume de Apostas: Médio. "Batman" tem um belo trunfo nas mangas: a situação do herói no cinema não pode piorar. Qualquer coisa é lucro. Mas parece que depois de "Batman & Robin", a Warner tem razões suficientes para pisar em ovos quando o assunto é o morcegão. Querem a sugestão deste humilde colunista? Por favor, impeçam os envolvidos no projeto de se levantarem da cadeira enquanto não assistirem à primeira temporada inteira do desenho animado!
Cavalo: Star Wars, Episódio III
Jóquei: George Lucas e um monte de computadores.
Volume de Apostas: Médio. George Lucas é um mistério. Criou um universo fantástico imortal, uma mitologia fortíssima, e vinte anos depois, com suas próprias mãos, destruiu sua obra tijolo por tijolo. Fãs irados à parte, "Episódio II" mostrou que a alma de George ainda pode ter salvação – mas o fato de uma história cheia de tragédias como "Episódio III" ganhar classificação etária tão baixa preocupa...
Cavalo: Matrix Revolutions
Jóquei: Irmãos Wachovski, Keanu Reeves e dez mil cópias xerox do Hugo Weaving.
Volume de Apostas: Baixo. "Matrix" é um filmão, e ponto. "Animatrix" é um deleite, e ponto. Mas há alguns meses que os Irmãos Wachovski cavaram o próprio buraco com "Matrix Reloaded". Aprendendo direitinho a duvidosa lição do Tio Lucas, com uma adição de elementos completamente desnecessários e uma descaracterização do universo ficcional original não vista desde "Episódio I", os antes supervalorizados Irmãos Wachovski menosprezaram a inteligência de todos os seres humanos da Terra – e o poder de análise dos fóruns de discussão - entregando de mão beijada todo o final "surpresa" do terceiro filme. O resultado é que o "hype" por Matrix Revolutions não é sequer metade do que antecedeu Reloaded, e a única expectativa dos fãs agora é para saber se a pancadaria vai ser de qualidade ou não. No entanto, os Irmãos talvez reservem um golpe de mestre para o final, e há uma chance – remota, mas ainda assim uma chance - do filme mudar o modo de encarar os acontecimentos burocráticos e explícitos demais de "Reloaded".
Cavalo: O Novo Filme Genérico da Xuxa
Jóquei: A própria, Luciano Szafir, Sasha, algum cantor sertanejo e um balde de celebridades da Globo.
Volume de Apostas: Vamos combinar: apostar na Xuxa não vale! Seria muita falta de espírito esportivo!
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