Tomo emprestado do Professor Pasquale o nome de seu ótimo programa na TV Cultura para usar como título para esta CMYK.
Primeiro gostaria de registrar que só não erra quem não escreve; quem tem a escrita como profissão está sempre correndo o risco de cometer algum simples equívoco, ou até, erros crassos.
Se não me engano foi Mário de Andrade quem disse que a “crase não foi criada para desmerecer ninguém”. Aí está um bom exemplo de como se deve pensar em relação a nossa língua, considerada pelos especialistas como uma das mais difíceis de se ensinar devido ao grande número de regras gramaticais que a rege.
A Língua Portuguesa é bastante rica e cheia de recursos, por isso não entendo porque nela se está incorporando o verbo “checar” (oriundo do inglês “to check”) quando temos palavras como “verificar”, “conferir”, “averiguar” e “investigar” que podem cumprir plenamente sua função. Nesse caso, entre muitos outros, não vejo porque a necessidade de se criar uma nova palavra. Males do abuso do uso de estrangeirismos.
Nas Histórias em Quadrinhos a linguagem coloquial exerce um grande poder. Não podemos esquecer que nas HQs os balões podem (e muitas vezes devem) conter vícios de linguagem e, até, erros propositais. Enquanto nas telenovelas e nos filmes há a voz (som), nas HQs temos o espaço dos balões, recurso muito importante e que deve ser usado em todo o seu potencial, para colocar a “voz” dos personagens. No entanto, nos recordatórios, dependendo de quem esteja narrando, deve-se utilizar uma linguagem correta e, se possível, formal.
Chico Bento, por exemplo, perderia muito do seu sentido se não usasse o “caboclês” para se expressar. Num determinado momento, Mauricio de Sousa teve que passar a usar itálico e negrito nas palavras erradas proferidas pelo jovem matuto como se avisasse ao leitor que aquela palavra está grafada erradamente de propósito.
Diz a lenda, como costumamos brincar aqui no estúdio, ou eu li isso em algum lugar, que Stan Lee decidiu criar o Thor para mostrar aos “intelectuais de plantão” que ele dominava a língua inglesa. Possivelmente ele deve ter sido muito criticado pela linguagem extremamente simples e coloquial usada por Ben Grimm, o Coisa, do Quarteto Fantástico.
Em Preacher - Indo pro Texas eu coloquei o Xerife Root usando “qui” e “i” no lugar de “que” e “e”. Evitei o “ocê” e usei “cê” no lugar de você. Recurso que eu não havia utilizado quando editei, ainda pela Metal Pesado Editora, a série pela primeira vez. Essas decisões são sempre difíceis de se tomar, mas, neste caso, creio terem funcionado bem.
Uma das coisas que muitos leitores reclamam nos quadrinhos é o uso de você e tu numa mesma sentença. Por exemplo, “não sei porque você veio, mas é bom te ver!”. Informalmente se fala assim. Ninguém (pelo menos os meros mortais) diz: “Não sei porque tu vieste, mas é bom te ver!”, ou “Não sei porque você veio, mas é bom lhe ver!”.
“Há muito tempo atrás”, mais uma reclamação freqüente, é uma redundância horrorosa, mas muitas pessoas falam assim e muitos personagens podem falar assim também. Fomos criticados por usar muito “que nem” na boca do Lobo. Imagine o Maioral dizendo “tal qual” (tudo bem, tudo bem, às vezes simplesmente “como” poderia ter sido utilizado).
Recentemente acabei de ler os livros A Imprensa e o Caos na Ortografia, de Marcos de Castro (Editora Record, 3ª Edição revista, 2001) e Comunicação em Língua Portuguesa, de Maria Margarida de Andrade e João Bosco Medeiros (Editora Atlas, 2ª Edição, 2001). No momento estou lendo Conceitos de Jornalismo: Norte e Sul – Manual de Comunicação, de Michael Kunczik (EDUSP, 2002). Ótimos livros que, se você tem interesse em Língua Portuguesa e Comunicação, eu aconselho que leiam.
E se você deseja trabalhar como escritor ou roteirista procure dominar a Língua Portuguesa, mas, não tenha medo do desafio de pisar nesse terreno minado.
É isso aí! Tchau. Até a próxima! ¤