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Rock in Rio: há vinte anos (1ª parte)
Por Marcos Vasconcelos — Quarta, 19 de janeiro de 2005
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Em 1985 eu era apenas um adolescente bexiguento morando na provinciana Fortaleza quando um certo evento viria a mudar a minha vida e a de muita gente. Lá no Rio de Janeiro, minha amada terra natal, a mais de três mil quilômetros de distância, começava, no dia 11 de janeiro, o Rock in Rio, um festival de música que, segundo seu organizador, o heróico publicitário Roberto Medina, só teria comparação ao mitológico Festival de Woodstock, ocorrido em 1968 nos Estados Unidos.
Medina não estava errado. Naquela época, o Brasil não era uma rota habitual de shows dos grandes grupos de música estrangeira. O publicitário lutou muito para trazer ao país um time de atrações que, na época, parecia coisa de primeira. Para a realização do evento, foi construída uma infra-estrutura monumental. Em uma área de 250 mil m² na Barra da Tijuca, nasceu a Cidade do Rock. Nela foi erguido o que, naquele tempo, era o maior palco do mundo, com 5 mil m², que contava, entre outras coisas, com um cenário giratório. Alí também começava a nascer a cultura do comércio de entretenimento, pois além da estrutura voltada para as atrações musicais, havia dois imensos fast-foods - onde foi vendida a quantidade recorde de 58 mil hambúrgueres em um só dia - e dois shopping centers com mais de 50 lojas, com toda uma infinidade de artigos de consumo.
Todos esses dados me interessavam, sem dúvida – eu era um moleque pentelho à beira da faculdade de comunicação -, mas o que eu queria ver mesmo era música e eu quase que não a veria. Só no primeiro dia eu pude ver os espetáculos em cores. No dia seguinte eu viajei para a casa de praia, pois era época de férias. Na praia, havia apenas uma pequena e antiga televisão em preto e branco, que tinha sido levada quase que sem querer para a casa. Mas foi através dela que eu vi o resto do festival e esse fato contribuiu ainda mais para que, aos meus olhos, o evento fosse algo memorável.
E durante os nove dias restantes, tudo o que passou naquele pequeno televisor me marcou. Eu e o país aprendemos, por intermédio da jornalista Glória Maria, o que eram os metaleiros, termo que, segundo consta, ela criou. Também vi Nélson Motta, o mestre de cerimônia das transmissões, contar seus inúmeros casos, vestido eternamente com uma camisa listrada de vermelho e preto, que ele jurou não ser alusiva ao Flamengo. Eu vi naquele grayscale, que os músicos brasileiros reclamavam dos horários subalternos de seus shows, reclamavam de tocar com o dia ainda claro e então percebia-se o nascimento de um certo orgulho da música brasileira. Sem falar que o festival contribuiu muito no surgimento de toda uma enxurrada de grupos que tornaram o movimento Rock Brasil o que ele foi.
As atrações escolhidas para os dez dias de festival nunca obtiveram qualquer unanimidade em qualquer época e hoje mesmo percebe-se que os produtores de elenco da época pareciam não entender bem o que estavam fazendo. Músicos como Eduardo Dusek, Erasmo Carlos, Rita Lee e até mesmo Lulu Santos saíram muito abalados da Cidade do Rock e demoraram a se reerguer depois do fracasso de seus espetáculos, expostos irresponsavelmente a públicos que não eram os seus. Outros, como Alceu Valença, Moraes Moreira, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Baby e Pepeu Gomes e Ivan Lins conseguiram tão somente atravessar a correnteza, deixando a impressão de que eram artistas certos no festival errado.
Os mais jovens, como o Barão Vermelho, Kid Abelha e Blitz conseguiram não se deixar intimidar pela imensa platéia e fizeram sua parte. Quem salvou a pátria brazuca foi o Paralamas do Sucesso, com um espetáculo que é lembrado até hoje como um dos marcos do BRock.
Entre os shows dos esperados estrangeiros, grandes momentos e alguns fiascos. A exótica Nina Hagen, o sombrio Ozzy Osbourne e as desconhecidas Go-Go´s protagonizaram apresentações inexpressivas. Os grupos Scorpions e Whitesnake, simulacros de bandas de heavy metal, só conseguiram algum êxito por conta da imensa platéia de jovens ávidos por qualquer coisa que lhes parecesse música pesada, coisa que, na realidade, só os maravilhosos presepeiros do AC/DC e o fenomenal Iron Maiden, no auge da forma, entregaram. O show de rock progressivo do Yes, que me pirou o cabeção na época, foi na verdade, apenas adequado. O B-52´s e Rod Stewart jogaram para o público e se deram bem tocando seus maiores sucessos. Al Jarreau e George Benson, jazzistas que estavam no auge da carreira à época, decepcionaram. Os momentos antológicos do festival acabaram ficando por conta de um veterano cantor de folk e uma mítica banda inglesa. (continua)
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