Nós vimos: Alexandre

Por Diego Castro Araujo — Quarta, 12 de janeiro de 2005

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Um excelente filme, criticado pelos motivos errados


Há filmes que, mesmo antes de serem rodados, prometem polêmica. Há diretores de quem sempre se esperam filmes controversos. Junte os dois e você tem um caminho sem volta: ou toda a expectativa antes da estréia ajuda a promover o trabalho ou o afunda de vez. Alexandre, a abordagem histórica e pessoal do guerreiro helênico feita por Oliver Stone, infelizmente, parece ter trilhado o segundo caminho. Com bilheterias fraquíssimas nos Estados Unidos, o filme tem sido atacado por todos os lados. As críticas mais pesadas o citam como "uma superprodução gay".

Mas antes de atirar pedras, procuremos saber o que exatamente Oliver Stone se propôs a fazer: ele não quis mostrar meia dúzia de sensacionais cenas de batalhas épicas (O Senhor dos Anéis já mostrou tudo isso), ele não quis ser fiel a todos os livros de história do planeta (como poderia?), ele não se comprometeu a fazer um "relato histórico e completo" de Alexandre, o Grande. Mas ele também não quis esconder o que era fato. O guerreiro era, sim, bissexual. Mas por que diabos mostrar isso num filme causa revoltas tão intensas em diversas partes do planeta? Porque Stone mexeu num tabu.

Quando a homo ou a bissexualidade é mostrada num filme, peça ou comercial dentro do que atualmente se espera dela, "tudo bem" - e quase sempre tem sexo ou humor no meio: ou os personagens transam (sexo, sexo, sexo), ou são feitos pra fazer o público rir (como nas novelas brasileiras), ou, ainda, para causar às platéias pena ou constrangimento (como a personagem lésbica de Bridget Jones - No Limite da Razão). Fica "aceitável", "excêntrico", "cômico", e fica, dirão até alguns, "moderno". Mas e quando se mostra algo que as pessoas, as platéias, não esperam? E quando se mostra um protagonista guerreiro, líder incontestável que dominou 90% do mundo conhecido de sua época, tendo uma paixão de uma vida inteira por outro homem? E quando se faz um filme de três horas mostrando toda a virilidade nos campos de batalha, conquistas regadas à sangue, e, logo depois, uma cena de romance entre esses mesmos dois homens? Sim, para quem não sabe, uma informação importante: o filme Alexandre não tem cenas de sexo gay. O máximo que aparece é um beijo, e, assim mesmo, muito rápido. A única cena de sexo no filme é entre o protagonista e Roxana, sua primeira esposa. Talvez essa seja a única cena sexual (hetero) para "contrabalançar" todo o romance mostrado entre os iguais.


O que as pessoas parecem não entender é que a relação entre homens na época em que o filme se passa é vista de forma diferente da maneira que é vista hoje em dia. Nas palavras do próprio ator, dono do papel-título, Colin Farrell: "na época, a partilha de conhecimento e contato físico entre homens era o amor puro, Eros, tratando de crescer, dividir, aprender. Não havia 'homossexualismo' ou 'bissexualismo', mas apenas uma inevitável sexualidade. Heféstion era o amigo com quem Alexandre crescera, o único companheiro no sentido exato da palavra, que só queria o melhor para ele".

Uma crítica constante é a de que o diretor ocupou tempo demais das três horas de filme mostrando as relações amorosas gays de Alexandre. A crítica está imprecisa: houve muito tempo ocupado da projeção mostrando-se todas as relações pessoais do guerreiro, com o pai, Filipe, a mãe Olímpia, com a esposa Roxana e sim, com o amante Heféstion (Jared Leto, ao lado). Mas foi essa a intenção de Oliver Stone. Não era desejado abordar somente os feitos épicos: o filme é, de propósito, um produto interpretativo, como são todos os trabalhos de ficção histórica. Outro detalhe que escapa aos que criticam o filme de cara: Alexandre viveu em tempos antigos, e mesmo os primeiros historiadores apenas podiam supor a verdade. Assim, qual livro de história ou enciclopédia teria "a verdade" sobre o conquistador? O objetivo não era fazer algo como O Senhor dos Anéis ou como um documentário da BBC de Londres. É injusto e desonesto fazer essa comparação, pois o filme de Stone sairá perdendo sempre. Mas como grande parte da platéia espera a abordagem mais tradicional do mito de Alexandre, o Grande, ocorre a inevitável decepção e a decorrente crítica pesada.

E vamos colocar as cartas na mesa: criticar o filme por isso é preconceito, sim. Mel Gibson fez alguns anos atrás seu próprio épico, Coração Valente, mostrando como William Wallace enfrentou os poderosos para conseguir a independência de seu país. Seu filme não tem apenas um, mas dois romances permeando toda a narrativa. E as cenas românticas do filme de Gibson se assemelham muito às cenas do filme de Stone. Há aquelas tradicionais frases de efeito entre pessoas apaixonadas ("Você é tudo que mais importa pra mim no mundo. Sem você eu prefiro morrer", etc) em ambos. Agora, onde estão as milhares de críticas dizendo que Mel Gibson usou romance demais no filme? Que a história de William Wallace teria que ter mais cenas de batalha no lugar das declarações apaixonadas? Simplesmente não existiram essas críticas. Outros filmes épicos poderiam servir de exemplo: Rob Roy, com Liam Neeson, e até E O Vento Levou. Por que ninguém reclamou que o romance de Scarlett O´Hara e Rhett Butler ocupou grande parte do filme? Porque o objetivo era mostrar isso, a vida de Scarlett, tendo como pano de fundo a guerra de Secessão americana. Pois é esse o objetivo agora de Oliver Stone: fazer um filme sobre a pessoa de Alexandre e não só sobre seus feitos militares e históricos. Imaginem E O Vento Levou todo focalizado na guerra, mesmo com a protagonista no meio. Como seria?

Oliver Stone poderia ter ido mais fundo, se quisesse. Filipe, o rei, pai de Alexandre, interpretado por Val Kilmer, também poderia fazer parte da polêmica do filme, como mostra o livro Impérios em Ascensão (400 AC - 200 DC) da editora Abril Livros. Na parte intitulada A Odisséia de Alexandre, temos na página 18 o seguinte trecho: "Filipe secundava suas conquistas com sábios casamentos diplomáticos e pelo estabelecimento de uma corte de guerreiros devotados. Teve sete esposas, a maioria para selar alianças políticas, mas algumas por pura afeição. O amor físico entre homens era uma realidade aceita pelo mundo helênico, e numa sociedade de guerreiros o ideal de virilidade tinha fortes conotações românticas. Esse era na verdade o princípio organizador do Bando Sagrado tebano, baseado na teoria de que os pares de guerreiros-amantes se defenderiam um ao outro até a morte. Embora os observadores contemporâneos não registrassem se Filipe teve amantes homens, é verdade que ele se cercara de um grupo de jovens e belos nobres, os Companheiros, que lutavam ao lado dele na guerra e o assessoravam na paz".

Reforçando as críticas negativas ao filme através do mundo, vem a parte que diz respeito às mulheres. Assisti ao filme numa cabine para a imprensa cheia, com muitos jornalistas de veículos grandes e pequenos. Depois da exibição, pequenos grupos se juntaram para debater os prós e contras do filme e devo dizer que fiquei surpreso ao ouvir de um colega jornalista (supostamente) esclarecido que o filme é "uma aula de misoginia (aversão às mulheres); nenhuma das personagens femininas presta". Outro me disse, depois: "se hoje em dia as mulheres lutam pelos direitos e pelo respeito, imagine na época...". Esse colega disse tudo: como julgar a moral do filme com olhos atuais? Como julgar os personagens se eles viviam com outros conceitos e ideologias? Angelina Jolie interpreta a mãe de Alexandre, Olímpia, e Rosario Dawson faz a esposa do guerreiro, Roxana. De fato, as duas personagens são acusadas de intrigas, mentiras e até assassinatos. Mas personagens femininos são acusadas dessas coisas em quinhentos outros filmes. Por que somente nesse a crítica surge tão mordaz? Porque, assim, reforça-se a idéia de que o filme é uma "superprodução gay", que o objetivo era aplaudir o amor entre iguais e criticar todas as mulheres. Não é por aí. Pequenos erros de análise acarretam toda uma séria de conclusões negativas.

Aqui cabe um parênteses: este texto que escrevo está abordando, em grande parte de seu tamanho, a questão sexual do filme. Isso acontece porque essa é a parte mais polêmica, a mais criticada e a mais discutida. Quando cada um assistir ao épico, terá a visão de como esse assunto domina quase todos os debates depois das sessões, infelizmente.

Mas sobrou polêmica para outras partes do filme, claro: Angelina Jolie (Olímpia) como mãe de Colin Farrell (Alexandre), sendo a atriz somente um ano mais velha que o ator? Também não é uma crítica cabível. Angelina contracena com meninos fazendo Alexandre quase o tempo todo. E nas cenas com Colin, maquiagem, cabelo e roupas foram adaptados para torná-la mais velha enquanto ele ficava mais novo.

Até o sotaque da personagem de Angelina Jolie foi bombardeado. Não há explicação no filme para sua existência, mas as pessoas têm que pensar que ele está lá por algum motivo e não apenas para "ficar diferente", como ouvi de alguns. Outros personagens também têm sotaques distintos. A razão para eles é simples: o rei Filipe estendeu as fronteiras da Macedônia, incluindo territórios com povos vindos de outras terras. Resultou que o povo da Macedônia na época de Alexandre tinha diferentes maneiras de falar. Até mesmo os macedônios da parte alta e da parte baixa tinham dialetos diferentes. Para os gregos do sul, o grego da Macedônia tinha um sotaque pronunciado. Para refletir isso, os atores que interpretam gregos e macedônios falam com sotaques do inglês (irlandês, escocês, gaulês). O equivalente moderno seriam os diferentes dialetos do inglês falados nas ilhas britânicas. Como Angelina Jolie, no filme, faz a rainha Olímpia como uma nobre vinda de um reino grego distante, ela tem no filme seu próprio sotaque; sem dúvida o que aparece mais claramente.

Outras (infindáveis) críticas a Alexandre dizem que o filme "só mostra duas cenas de batalha em três horas". Responda rápido: quantas cenas de batalha há na trilogia O Senhor dos Anéis? Várias, com certeza. Mas, além de estarem retratadas nos livros de Tolkien, o diretor Peter Jackson resolveu mostrá-las. Oliver Stone em Alexandre, não. Seria impossível mostrar todas ou a maioria das guerras travadas pelo conquistador. É fato histórico que ele nunca perdeu nenhuma das batalhas nas quais lutou, e, através delas, conquistou 90% do mundo conhecido da época (hoje em dia, toda a região que corresponde à Grécia, Albânia, Turquia, Bulgária, Egito, Líbia, Israel, Jordânia, Síria, Líbano, Chipre, Iraque, Irã, Afeganistão, Uzbequistão, Paquistão e Índia). O diretor então resolveu mostrar duas das guerras que considerou mais emblemáticas: a Batalha de Gaugamela, em que as tropas de Alexandre eram em menor número e, ainda assim, derrotaram o exército persa do rei Dario III; e uma terrível batalha nas florestas da Índia, em que os soldados lutaram contra enormes elefantes. Em Gaugamela, para quem quiser saber a título de curiosidade histórica, Alexandre tinha 40 homens na infantaria e 7 mil na cavalaria. O rei persa Dario III tinha 250 mil homens. Essa foi a guerra que abriu o Oriente para os macedônios e que cristalizou o status de Alexandre como lenda viva.


O filme é mais do que as críticas, porém: há maravilhosos cenários e reconstituições de época. Poucos aspectos da filmagem de Alexandre foram tão complexos quanto a necessidade de recriar os elementos do mundo à volta do jovem guerreiro, cobrindo mais de 30 anos da História Antiga e atravessando o mundo conhecido à época. O resultado foi uma das mais detalhadas recriações do mundo antigo da história do cinema:

- Numa área de 13 quilômetros de deserto fora da região de Marraquesh, no Marrocos, o departamento de arte construiu o quartel-general de Alexandre, no seu acampamento nas fronteiras da batalha de Gaugamela. Também no Marrocos, as cenas do mercado de cavalos onde o protagonista conhece seu companheiro e montaria para vida toda, Bucéfalo.

- Foi construído num despenhadeiro quase vertical acima do mar do Marrocos um templo pequeno em ruínas para Palas Atenas, com o mapa rudimentar do mundo que intrigou o jovem Alexandre e que foi o lugar onde Aristóteles (interpretado no filme por Cristopher Plummer) deu aulas a ele e seus amigos, nos Jardins de Mieza.

- Em Boufarziza, foram construídos um anfiteatro macedônico e 20 edifícios, inclusive outro maior para Palas Atenas. Algumas locações, porém, tiveram que ser construídas nos estúdios Pinewood em Londres, onde se realizam os filmes de 007. Foi o caso do exótico pátio do palácio indiano.

- "A Babilônia é definitivamente o cenário mais rico que já fiz", diz entusiasmado o desenhista de produção Jan Roefls. "A entrada de Alexandre na Babilônia é o máximo de sua trajetória, ele jamais encontrara tal esplendor, jamais encontrara uma cultura, sob muitos aspectos, superior à dele. Decidi integrar os famosos Jardins Suspensos da Babilônia ao conceito geral; então, o palácio tem área externa e interna. Também queria tetos altos e um palácio de muitos níveis e camadas". O cenário tinha cerca de 15 metros de altura.


- Nos estúdios de Pinewood também foi criada uma caverna com mais de 20 pinturas primitivas e bárbaras, onde o rei Filipe educa o jovem Alexandre.

- Alexandre cresceu no Palácio Real de Pella, capital da Macedônia. O detalhamento na recriação do palácio foi notável. Os aposentos da rainha Olímpia, por exemplo, tem afrescos da Ilíada de Homero.

- Em outros estúdios usados, em Shepperton, Londres, foi construído um dos tesouros perdidos: a colossal Biblioteca de Alexandria, na qual Ptolomeu (Anthony Hopkins no filme) narra as memórias dos dias de Alexandre a escribas. O chão de mármore, geometricamente desenhado, contrabalança com afrescos descrevendo os feitos heróicos do conquistador. Nas prateleiras, 25 mil diferentes pergaminhos.

Os figurinos para o filme também são esplendorosos. A figurinista premiada com o Oscar Jenny Beavan criou mais de 20 mil trajes para abranger várias civilizações em diversas décadas.

A música de Alexandre foi composta por ninguém menos que o grego Vangelis (famoso por trilhas como do filme Blade Runner). Durante as filmagens, o diretor Oliver Stone aplicou uma técnica conhecida em sua carreira: tocar no set, entre as cenas, a música apropriada e que muitas vezes fica na cabeça, como um fundo musical, dando o tom para os atores e a equipe técnica. Embora em seus filmes anteriores Stone usasse uma "música temporária", dessa vez ele usou a música que estava sendo composta simultaneamente por Vangelis, em Atenas. O compositor foi fundo nas raízes e heranças da música grega e macedônia. Ele usou seu famoso sintetizador, mas também instrumentos antigos como gaitas de fole, tambores, alaúdes e harpas.

Enfim, depois de 94 dias, com intenso treinamento militar dos atores para as cenas de guerra (como aconteceu em Platoon), chagaram ao fim as filmagens de Alexandre. O diretor Oliver Stone, que acalentou a idéia para o filme por 15 anos, pôde, afinal, partir para a pós-produção e concluir seu trabalho.

O próprio slogan usado para a divulgação do filme e dito na história poderia ser aplicado a Stone: "A sorte favorece os corajosos".

Alexandre vai dividir opiniões no Brasil como está dividindo no resto do mundo. Mas sem dúvida é aquele filme imperdível, e do qual todo mundo estará falando. Por isso, concordando ou não com as críticas positivas ou negativas, ou mesmo com tudo que foi dito aqui, vale a pena prestigiar essa saga (não deixe de ver nos cinemas, quando sair o DVD ou VHS não será a mesma experiência).

E lembre-se: o filme não é um documentário. Não é uma história de amor. Não é um filme gay. Não é filme de guerra. É apenas a visão ousada de um diretor sempre polêmico, que escolheu um dos atores mais viris de Hollywood para interpretar um guerreiro épico que teve amantes homens e mulheres.

Apenas isso: Alexandre, o Grande. Como pessoa e como líder. Um filme à altura do mito. ¤




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