Entrou no ar esta semana a
nota do falecimento de
Will Eisner. Viesse um marciano à Terra, poucos autores serviriam para explicar o que é história em quadrinhos tão bem quanto ele.
Ainda um jovem e desconhecido desenhista, antes da criação do
The Spirit, antes mesmo de fundar estúdio com Jerry Iger, foi convidado pela Máfia para desenhar os chamados
eight pages, gibis pornográficos apócrifos com os personagens famosos de então, produzidos e distribuídos clandestinamente. Eisner recusou, anos depois confessando que aquela fora a decisão editorial mais difícil de sua vida (essa história é contada na
graphic novel The Dreamer). Quando fundou um estúdio junto com Jerry Iger para produzir páginas de quadrinhos em massa no final da década de 30 - o nome de Eisner vinha na frente,
Eisner & Iger, porque era dele a maior parte do capital investido - já enxergara essa demanda no mercado: as primeiras revistas limitavam-se a compilar tiras diárias, publicadas em jornal, cuja periodicidade não era suficiente para alimentar as revistas.
Talvez o maior talento de Eisner nem fosse o de
fazer quadrinhos, mas o de
ordenhar financeiramente esse talento: enquanto Jerry Siegel e Joe Shuster nem sabiam do carimbo estampado no verso do cheque que receberam como pagamento pelas história do
Super-Homem, garantindo os direitos sobre o personagem para a editora, Eisner correu a registrar
The Spirit após tê-lo criado. No estúdio, Eisner decupava e esboçava todas as páginas, passando-as para outros completarem os desenhos, fazerem a arte-final e as letras; entre esses outros, estavam apenas Jack Kirby, que depois criaria o
Capitão América e metade dos heróis da
Marvel, e Bob Kane, que criaria o
Batman. Não foi o único estúdio capitaneado por ele; durante a II Guerra, quando esteve alistado, fazendo quadrinhos didáticos para o exército, deixou
The Spirit a cargo de gente como
Wally Wood (desenhista da
Mad e
Little Annie Fanny),
Jack Cole (criador do
Plastic Man) e
Jules Feiffer, que ensaiou a futura carreira de humorista-intelectual numa tira chamada
Clifford, que completava a página de
The Spirit. Quando a
Fantagraphics colecionou os trabalhos completos de Feiffer, Eisner disse numa contracapa ele ultrapara o nível de respeito que os autores de Hq costumavam ter, tendo sido o primeiro a chegar na "cidade alta", mas foi discreto o suficiente para não mencionar que os primeiros passos de Feiffer haviam sido dados nas tiras de
Clifford e nos roteiros de
The Spirit.
As inovações de
The Spirit estão mais no campo formal do que temático, e são incontáveis: as páginas de abertura onde o logotipo era refeito a cada história, a influência do expressionismo alemão e dos planos cinematográficos na narrativa e na composição das páginas, as brincadeiras com o tempo de leitura (determinado pela distribuição espacial dos quadrinhos) - Eisner ao mesmo tempo dissecou e revolucionou a linguagem, mal entrada na adolescência, influenciando desenhistas da geração seguinte, na
EC Comics, até
Jeff Smith, criador de
Bone, na penúltima década do século passado. Tematicamente, Eisner não foi o primeiro a misturar desenho acadêmico e caricatura (Roy Crane já havia feito isso com o
Capitão César), a utilizar poesia nos textos (Herriman com
Krazy Kat) nem a misturar humor e aventura (Segar em
Popeye), muito menos a usar vilões maquiavélicos e mocinhas sexy, mas o fez com tanta maestria quanto qualquer um de seus contemporâneos (única exceção possível para Milton Caniff), relendo os clichês de maneira auto-crítica como até hoje pouca gente conseguiu:
Alan Moore comentou que não há e nunca houve um autor de quadrinhos como Will Eisner, e que nos dias mais pessimistas, imagina que nunca haverá.
No começo da década de 50, Eisner abandonou o personagem em nome da publicidade, como tantos desenhistas o fariam no Brasil durante os anos 60 e 70. Nunca mais voltaria a fazê-lo, a menos de edições especiais como
The Spirit Jam, na década de 80, uma franca homenagem onde cada quadrinho foi desenhado por todo mundo que era
alguém no mercado da época. Há alguns anos, concedeu que cederia o personagem para novas histórias, contanto que elas fossem produzidas pelos melhores nomes em ação. Um editor apareceu-lhe com páginas feitas por Alan Moore, Dave Gibbons, Eddie Campbell, Neil Gaiman. Will Eisner cedeu os direitos com satisfação frente ao time de ouro, mesmo que a revista não tenha tido muitas edições.
Quando voltou aos quadrinhos com
A Contract with God (
Um Contarto com Deus), em 1977, estava mais surfando na onda das novas tendências do que desbravando o terreno, como em 1941. Eisner notara que havia autores explorando o potencial dos quadrinhos de forma até então incomum, incluindo conteúdo adulto e "contrapartida social", especialmente no
underground - Robert Crumb, Art Spiegelman, Denis Kitchen, esses sim, os desbravadores - o que reacenderia sua vontade criadora, não aplacada até a morte, posto que ele criava praticamente uma graphic novel por ano, até depois dos 80.
A maior inovação da
graphic novel foi a própria concepção editorial em si, que lembra um livro, mas é em quadrinhos; um formato luxuoso que conquistaria prateleira própria nas livrarias a partir dos anos 1980, em grande parte por causa de
The Dark Knight Returns (
Batman - O Cavaleiro das Trevas), de Frank Miller, discípulo confesso (Aliás a editora
Dark Horse prometeu
uma edição especial chamada Miller-Eisner, um pingue-pongue sobre as idiossincrasias do meio para julho de 2003, cujo paradeiro é ignorado), conquistando respeitabilidade e, novamente, mercado. Tematicamente, a grande virada nas
graphic novels acontece a partir de
To the Heart of the Storm, sua autobiografia, quando passa a abordar frontalmente o preconceito anti-semita: Eisner era judeu, e a partir daquele momento abordaria diretamente as dificuldades enfrentadas ao longo da vida. Seus últimos dois álbuns,
Faggin the Jew e
The Plot (póstumo), centram-se em reparar danos históricos à imagem dos judeus na cultura popular: o segundo,
não-ficção sobre os Protocolos de Sião; o primeiro, a reinvenção de um personagem de Charles Dickens.
Eisner gostava do Brasil, esteve várias vezes por aqui, a última delas em 1999, no Rio, para o lançamento do documentário
Profissão: Cartunista, que pôs-lhe emocionado (um pouco mais de sangue latino o teria feito chorar). Estava sempre disposto, apesar da idade avançava, e muito bem humorado; suas filas juntavam fãs de 8 a 80 anos de idade, de gente carregando pastas repletas de edições antigas a crianças com sua adaptação de
Moby Dick. Quando comentei, em 1999, que fazia 8 anos que eu obtivera seu último autógrafo, ele respondeu de bate-pronto:
- Oito anos, uff! Você não parece oito anos mais velho!
¤
MANCHA GRÁFICA