 |
D.C. Blues Suite
Por Pedro Serrano — Terça, 21 de dezembro de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
“Por que a coluna DC Blues?” Essa é a pergunta que martela na minha cabeça enquanto tento escrever mais um texto para o digníssimo SoBReCarCa, que acolhe tão bem as minhas fanfarronices. A proposta desta minha coluna é “trazer as excentricidades do povo de Sam” aos olhos tupiniquins do site. Ok, mas o que é isso, afinal? Sempre me enrolo com esta minha proposta e me vejo jogado em uma sinuca de bico. Como dizem nas mesas do carteado, fico com um medo escabroso de “morrer de pau duro”. E, já que fim-de-ano é época de se rever e se reconstruir (na teoria, claro), lá vai minha verborragia inócua de pensamentos toscos – buscando algum sentido pra tudo que é exposto aqui.
Lembro de tudo que dizem por aí a respeito dos americanos. Assim, vou tentando destrinchar algo para estampar uma folha de Word. Me aparecem na cabeça coisas que dizem por aí; que americanos são isso, aquilo outro, dessa forma, daquele jeito. Não sei o motivo, mas nunca senti tesão por essas questões, nunca quis enrijecer sobre elas de forma séria. Preferi escrever sobre o lado da imbecilidade forçada, transformar cada morador daqui em um pseudo-Homer e pregá-lo na cruz das bizarrices, como fiz e mostrei nesta coluna e em notas. Haja visto a questão da venda do fantasma do pai (link aqui), pagar US$ 28 mil por um sanduíche de queijo com a suposta imagem da Virgem Maria, casar em capelas drive-thru fantasiado de Elvis, abrir restaurantes pra gatos (aqui), colecionar bonecos em impulso quase que religioso, conseguir avaliar um amontoado de folha de um gibi nada popular em uma fortuna de fazer chorar. É uma loucura. Loucura triste. E, pelo que me parece, as coisas tendem a degringolar cada vez mais.
Pergunta: Onde isso vai parar? Resposta: Em nenhum lugar além, é claro, dos documentários inócuos (Ou na coluna deste que vos escreve. Igualmente inócua, só que diminuta.) tipo os fabricados pelo Michael Moore ou Morgan Spurlock. Aqui, no quintal do Sam, esses caras são uns camaradas medíocres, que não fedem nem cheiram. E eles vão se alimentando do pseudo-ódio daquele morador lá da Papua Nova Guiné e sua leviandade provinciana, tudo com a mesma fome com que seus rivais alimentam-se em outras paragens. Acabam cristalizando em todos a imagem do americano “ruim-toda-vida”. Até hoje não entendo os motivos que impulssionam Moore, por exemplo. Se ele briga por uma causa local, pra que lutar tanto pra exportá-la? Tem muita ambição tenebrosa por detrás dessa vontade de mostrar “verdades”. Pra mim, ele mais atrapalha do que ajuda, se é que essa é sua real vontade. Como disse, ele só sabe cristalizar em todos a imagem de “americanos são ruins e assim serão pra sempre, coitadinhos.” Shame on you! Now, gimme yer money, sucka!
Discordo desses tipinhos em praticamente tudo. Americanos são pessoas legais. Eles até usam camisetas estampadas com o rosto de Che, se isso te interessa. E, falando em questão política, pra ser muito sincero, a única pessoa que eu conheço que leu O Capital inteirinho foi um americano de meros 19 anos, estudante recém-iniciado na vida universitária, cursando Ciências Políticas. Acho que nenhum ativista do socialismo, chicoteador dos EUA, fez tal proesa. E, mesmo assim, vão citando Marx prostituidamente para tacar a almejada pá de cal na “vala onde os EUA serão sacramentados”. Eu ia até dizer pro garoto que o título lido foi inútil, coisa e tal, num serveria pra muito... Mas, sei lá, fiquei temeroso. Na verdade, não foi temor, foi respeito. Excesso de respeito. O cara é um dos poucos que não se engana, tenta buscar o que realmente acredita, de forma limpa. Não faz parte dos pobres americanos-padrão que vão buscar “iluminação” nas páginas dos livros da série “...For Dummies” (www.dummies.com), achando que, dessa forma, calçam a sandália da humildade. Não é o americano-padrão, que foi castrado por desvios errados do caminho e que tem por destino cair na mão vil de um cara de chapéu que se acha dono da verdade. Ele não faz parte dos que comem o pré-mastigado por oportunistas ou dos que se deixam levar na onda puritana de outrem.
Não entro no mérito politico-administrativo da coisa. Eu, estudante de matérias relacionadas à política, na minha dura e frustrante educação na causa, só consegui descobrir que a verdade é uma só: Não há verdade única na política e, as vezes, precisamos passar por cima de coisas maiores para atingir o objetivo proposto. E não vai ser por isso que vou colocar todos no mesmo saco que será atirado no rio. Coitados (e falo “coitados” de verdade) não são pessoas más, só são facilmente influenciados, assim como qualquer “povão”. Acontece que poucos lugares tiveram o azar de se deparar com “líderes natos”, como aconteceu com Portugal e Espanha medievais, França, Alemanha, Itália, Japão, Rússia, Cuba e os EUA. A pimenta nunca ardeu no nosso olho pra entendermos o que se passa. Desses todos, só os EUA vivem o período da informação - muitas vezes malediscente - de massa para poder sofrer o desgosto de cair no ridículo e ter de se confrontar de frente com tanta cara feia. E tudo tende a ir rachando.
A Plebe Rude cantou que “o concreto já rachou”, mas errou de cidade. A que vai rachando é Washington. E num é concreto, é mármore... Junto com o mármore, começa a ruir a credibilidade de uma das pontas-de-lança deste Estado – Afeganistão e Iraque estão aí pra provar que o tal Maior Exército do Mundo não anda muito bem das pernas, mesmo sendo o mais forte. Só falta achar um “David” certo pelo caminho pro gigante cair depois de levar a pedrada na testa. Não sou eu quem diz isso, são analistas sérios e respeitados pelas próprias Forças Armadas dos Estados Unidos. Quando algo chega ao cume, é porque veio de baixo. Quem sabe isso não é o espasmo de um povo desacreditado e desgostoso de seus valores, sem fé na causa... Outra ponta-de-lança das mais fortes e eficazes, o cinema yankee, também está indo ralo abaixo. Com produções pífias e apelando sem dó para as explosões e efeitos especiais, a sétima arte daqui, que já foi orgásmica, afunda-se mais e mais no poço do divertimento raso e sem qualquer peso. Abusa-se da “necrofilia”, Senhor dos Anéis ganha altura de grande épico, Aquiles dá golpes de kung fu ou sei lá o quê... Épico foi Ben-Hur. Alguém viu Ben-Hur? Filme bom, com cena de cair o queixo, foi Casa Blanca. O que é aquela cena da Marseillaise?! Formidável! Fantástica!! Hoje, coisas assim são improváveis. Eu não vejo mais cinema. Até mesmo porque não há nuvem de mudança no ar, já que a Academia parece gostar do que acontece por aí, com olhos gordos pro lucro. Lucro é lucro. E se há quem pague pra ver... A Academia grita a plenos pulmões: “I’m the king of the world!” Todos ficam felizes e quietinhos, suspirando apaixonados em sua poltrona.
Parece que o americano aceita as críticas de cabeça baixa, vai aceitando a michórdia em que se transformou a sua cultura e sua vida. Ele vai aceitando a leitura do estrangeiro para coisas que só ele sabe, com rabo entre as pernas. De tanto malharem seu lombo em qualquer canto da Terra, ele vai acreditando, curvando a espinha e murchando o peito, engolindo tudo com certa resignação até. A mente dele fechou-se pra si e vai definhando de leve. Dizem que se ficarmos um dia inteiro na mais completa escuridão, vemos coisas. Se ficarmos mais de três dias neste estado, ficamos cegos temporariamente. Ver coisas os EUA já vêem, basta vir a cegueira, que se aproxima à galope. Vou ficar aqui e esperar pra ver isso? Vai ser legal presenciar a cena? Sei lá. Não queria ter tanta escolha pra sacanear a terra das listras e estrelas. Eu até que gosto daqui. Nunca fiz parte do grupo que luta contra o Big Mac ou Coca-Cola. Sempre achei isso impraticável pra mim, um consumidor mais que fiel do rock e da literatura amerina, que cresceu vendo Bozo. Até hoje, vendo o que vejo, não consigo desgostar daqui. Desgosto, sim, da acomodação e da bestificação que esse povo vem sofrendo. Ele é, sim, vítima disso.
Na verdade, eu não gosto é de mim. Eu deveria é ter nascido nos anos 40 e vindo estudar aqui nos anos 60. Eu sou o grande culpado por estar experimentando tanta mediocridade. Fico me perguntando onde é que pode ter parado o espírito dos grandes americanos, onde seus ideais foram enterrados. Esse terra teve tanta gente boa... Onde elas foram parar? Disso, ninguém sabe. Mais vale pro americano de hoje cravar na entradinha lá da cidade de West Virginia uma placa gigantesca que grita pra todos que ali é o lar honrado da ex-POW ( Prisioneira de Guerra ) do Iraque, a soldado Jessica Lynch, e perpetuar a ogridão da ingenuidade. O país que foi escrito em “Democracy in America”, de Alexis De Tocqueville, francês sagaz que sacou que esse lugar seria potência quando, na verdade, era só um grande fazendão, a meu ver, espera pela nova obra da literatura mundial. Em breve, leremos “Declínio e Queda do Império Yankee”, plagio bestseller de “Declínio e Queda do Império Romano”. O The New York Times adorará publicar isso na sua primeira página. Acredite.
E as coisas vão parecendo que não têm mais jeito. O americano encara tudo como um grande joguete, não mede mais os pesos ou medidas. Não se reconhece mais no espelho. Isso me faz lembrar a cena de “Nascido pra Matar”, do Kubrik, quando Joker acaba com a agonia da jovem vietcong e ainda tem de ouvir dos seus coloegas de patrulha que aquilo tinha sido “fucking hardcore”. Depois, todos abstraem, seguem para o rio Perfume e vão cantando a “Mickey Mouse Club March” como se nada tivesse realmente acontecido. Mesmo estando no meio de uma destruição danada, eles iam convidando a todos para o seu clube. O homem cria ou é jogado em um mundo criado e, independente de qualquer coisa, acostuma-se. Bitola-se. Essa é a maior tragédia possível – usar bitolas.
Nossa, isso aqui já está uma grande confusão. Pra eu não me complicar mais, voltando à pergunta que fiz lá no alto, quando comecei este texto-sem-sentido, digo que só consigo achar uma única razão para aliceçar a minha coluna: saudosismo. Sou do time que quer ter um Mustang 67, que vibra com rocks do passado ( não essa porcaria de hoje ), admira as pin-ups, acha divertido o Pato Donald, personagens da Warner e toda a renca desenhada. Eu ouço Mingus e Baker e quero que toquem “When the saints go marching in” no meu funeral. Eu canto “Love me tender” pras minhas namoradas! Queria poder olhar pra terra daqueles que me influenciaram e não achar tanta distorção. Queria que os EUA fossem a França de Rimbaud, a argentina de Borges, ou somente a Califórnia de Morrison e o Sul de Twain. Mesmo que possivelmente inóspitos, eram lugares dignos e coerentes. Queria sentir vontade de vir pra cá pra me reconectar e conhecer melhor da onde bebo, mas isso, no aqui de hoje, é impossível. Assim sendo, visto minha máscara e foco no ponto que Thompson focou ao escrever “Songs of the Doomed”, para sentar a pancada satírica em tudo que cai na minha frente. Dessa forma triste, fica sendo a DC Blues, mesmo que tudo que eu tenho dito por aí seja estéril ou qualquer outra coisa. Se for, melhor, mais conecções com a terra da onde ela têm vindo, mais conexões com a sua – so called - essência. Entretanto, vamos agir com respeito e honrar tudo. Vamos fazer da forma que Morrison propunha, cantando o “hino” deste país: “Money”.
E eu tinha um monte de coisas esdrúxulas pra falar, fazer gracinha e dar o sentido quisto a essa coluna, mas não consegui fazer isso hoje. As vezes sinto um profundo sentimento de pena deste país, como a pena que já senti do meu próprio país.
Enfim, deixemos tudo posto de lado por hora. Pra vocês que têm a paciência inigualável de ler isso aqui, FELIZ NATAL e um PRÓSPERO ANO-NOVO. Saudações deste Expatriado!
Pedro Serrano é, acima de tudo, brasileiro. Sofre horrores com o banzo e sonha diuturnamente com o dia que voltará a andar pelas ruas do Rio – faltam só mais 7 meses.
|
 |