Um poema e uma petição
É incrível como, mesmo depois de ter explorado o tema da (re)descoberta do sexo em seus filmes,
Bernardo Bertolucci ainda consegue bater na mesma tecla sem parecer repetitivo. Pelo contrário, suas produções se completam, e
Os Sonhadores só vem somar muitos pontos positivos à grandiosa filmografia deste diretor, dotado de um amor incondicional à sétima arte.

Ao "trancar" o espectador com os três jovens cinéfilos dentro de uma casa, Bertolucci mostra que as transformações acontecidas no final dos anos 1960 não ocorriam apenas no mundo exterior, mas estavam por toda a parte. O que vemos é a caminhada dos protagonistas para a vida adulta, apenas pelas experiências intensas que vivenciam entre si dentro da casa. O filme não deixa de ter um caráter autobiográfico, uma vez que tanto Bertolucci quanto o roteirista Gilbert Adair estiveram em Paris nesta época, freqüentando a Cinémathèque Française e presenciando os protestos estudantis e toda a efervescência cultural e política daquele momento.
A trama, passada praticamente em um único cenário e com apenas três personagens, não se torna cansativa em momento algum. O espectador acompanha, junto com Matthew, personagem de
Michael Pitt, os jogos sensuais propostos pelos irmãos gêmeos Theo e Isabelle, que vivem intensamente a paixão pela vida e pelo cinema. A cada desafio, Matthew entra cada vez mais no mundo fechado e indivisível dos irmãos, e o envolvimento entre o trio traz o amadurecimento necessário para que eles prossigam com suas vidas. A cena final, com a belíssima voz de Edith Piaf, é emocionante.
O uso da trilha sonora, aliás, sempre foi uma grande qualidade nos filmes de Bertolucci. Assim como em
Assédio, onde ele misturou o som erudito do piano com os ritmos africanos, e em
Beleza Roubada, onde a música moderna contrastava com as canções italianas, em
Os Sonhadores há uma perfeita utilização das canções jovens dos anos 1960, com Janis Joplin e Jimi Hendrix e clássicos como a francesa
La Mer.
No campo das atuações, não há como negar que o filme é da estreante
Eva Green. Bertolucci confirma mais uma vez seu dom para descobrir (ou tornar conhecidos) novos talentos, como fez anteriormente com Maria Schneider, Liv Tyler e Thandie Newton. No papel da incestuosa Isabelle, Eva mistura inocência e sensualidade, e parece conduzir os outros atores em cena, assim como faz sua personagem.
Vale mencionar também a atuação de
Louis Garrel, que interpreta o ciumento Theo, irmão de Isabelle. O ator soube incorporar com perfeição o personagem, sendo prejudicado apenas pelo roteiro final, diferente do original, onde Theo tinha mais destaque. Michael Pitt completa o triângulo, vivendo o norte-americano Matthew. Seu trabalho, porém, não passa a mesma emoção, sendo apenas convincente.
Assim como a frase dita pelo pai dos protagonistas, "um poema é uma petição, e uma petição é um poema".
Os Sonhadores é um poema, para ser sentido e admirado, e uma petição, um pedido de reflexão sobre os jovens dos anos 1960. Cada quadro da película está impregnado pelo amor de Bertolucci à vida e ao cinema, tornando o ato de assistir ao filme uma experiência bela e intensa. Ao fim da projeção, é inevitável se deixar levar pelo espírito jovem e renovador da história. ¤