Quando a revolução islâmica foi vitoriosa no Irã, em 1980, Marjane Satrapi estava completando 10 anos. Ela era bisneta do último soberano Qadjar, derrubado pelo soldado Rezah com apoio dos ingleses e estudava numa escola laica francesa. Passou a usar véu e ter aulas em separado dos meninos. Vinte anos depois, transformou suas memórias desse período – e dos anos subseqüentes, quando saiu e voltou a seu país – numa história em quadrinhos em quatro partes, a primeira das quais, Persépolis, foi lançada pela Companhia das Letras.
Não é possível entender completamente a memória de Marjane sem um conhecimento mínimo da história do Irã e da sua formação familiar. A segunda é explicada ao longo deste e dos outros volumes. A primeira é contextualizada muito resumidamente no prefácio de David B., onde o leitor aprende que, após a primeira invasão árabe, os então persas se converteram ao islamismo, "mas um islã de vencidos, um islã subterrâneo, [sic] esotérico e revolucionário: o xiismo", e que essa foi apenas a primeira de uma larga série de invasões que colocou a região sob domínio de estrangeiros por séculos a fio, culminando exatamente com a derrubada da dinastia Qadjar, em 1925, e de Mossadeq, em 1953, que levou o filho de Rezah, Pahlevi, ao poder.
O que ele não diz é que o xiismo é a versão fundamentalista do islamismo. Como Maomé não estabeleceu concretamente uma igreja, não existe no islamismo uma interpretação oficial do Corão, como a exemplo da Bíblia; se as divergências de Lutero ou Calvin levaram necessariamente à criação de nova religiões, separadas do catolicismo, o islamismo abrigou desde os seguidores da Tradição (herdeiros dos profetas e da família de Maomé) até os sunitas, mais moderados na leitura do livro sagrado, sob o mesmo guarda-chuva. Na ausência de uma autoridade central, essas facções passaram a se enfrentaram pelo resto dos tempos. Outra coisa que ele não diz é que o apoio de ingleses e norte-americanos acontece a partir do século XX também por causa do mar de petróleo, agora um combustível desejado, sobre o qual o Irã existia, não apenas para mediar conflitos geo-políticos regionais e reestabelecer a democracia. Tanto é que os soviéticos também meteram sua colher, fornecendo armas e apoio aos xiitas.
Se é relativamente simples compreender o contexto histórico, muito mais complexa é a maneira como a formação familiar de Marjane, tipicamente de classe média esclarecida (leia-se aqui: um bocado ocidentalizada), "Eu era muito religiosa, mas juntos, eu e meus país éramos modernos e avançados", leva-a a reagir à chegada dos xiitas ao poder. Criança, Satrapi sonhava em se tornar profeta e, em seus delírios, chegava a conversar com Deus em pessoa em seu quarto. Uma das passagens mais geniais da história acontece quando ela começa a ler sobre Arafat, a guerra do Vietnã e elege para ídolos guerrilheiros como Che Guevara e Fidel Castro (havia uma revolução em curso em seu país e aqueles comunistas vitoriosos eram exemplos apropriados, ainda mais aos olhos de uma criança). Sua leitura predileta passa a ser uma história em quadrinhos chamada Materialismo Dialético, protagonizada por Marx e Descartes; ela imagina a si própria uma revolucionária, atando uma faixa com uma estrela vermelha à testa. Um belo dia, após uma discussão com os pais, procura por Deus em seu quarto – mas ele não aparece.
Clique nas imagens para ampliá-las
Um dos grandes méritos da narrativa é evitar o discurso de vítima; Marjane consegue manter algum distanciamento dos fatos – ajudado pelos anos em que morou fora – e se clama inocência, é a inocência de uma criança que vai sendo perdida de forma tão abrupta quando a subida dos radicais islâmicos ao poder. É extraordinário como ela retrata suas tentativas infantis de se envolver, de participar do ativismo de seus pais: quando começa a ler sobre Guevara, as brincadeiras passam a ser sobre guerrilheiros. Nos primeiros momentos da revolução, quando os dissidentes são libertados e contam aos pais dela sobre as torturas pelas quais passaram durante o regime do Xá, ela fica tão impressionada que institui "torturas" para quem perdia, nas brincadeiras da rua. Porém, nada é mais marcante do vê-la sentindo-se inferiorizada entre os amiguinhos por não haver nenhum membro de sua família entre os dissidentes recém-libertados – não tinha nenhuma história para contar – e a alegria que sente com a volta de um tio distante, que se converte prontamente em herói quando lhe conta que havia sido preso e torturado por 9 anos no Azerbaijão: "mais que o pai da Laleh!"...

Os conflitos entre política e religião estão sempre presentes, mesmo que de maneira subjacente. No primeiro capítulo, Marjane diz que queria ser profeta "porque a empregada não comia na mesa com a gente", páginas depois, ela usa esse mesmo motivo para justificar por que a revolução deveria derrubar o Xá. Quando começa as leituras marxistas, chega a comparar fisicamente Marx com Deus, dois velhos barbudos, "o cabelo do Marx era um pouco mais crespo". Fico me perguntando por que ela escolheu essa imagem típica do Velho Testamento, a mesma que Michelângelo usou na Capela Sistina, para representar Alá... Os pais de Marjane tinham orientação marxista, queriam derrubar o imperador e acabar com as diferenças de classe, mas quando a empregada deles desenvolve um romance, por cartas, com o vizinho, é o pai dela quem vai até esse vizinho contar que a suposta irmã de Marjane era, na verdade, sua empregada e perguntar se ele queria continuar o namoro missivista ainda assim. É sutil, mas evidente, a presença da religião como elemento aglomerador do povo: os ingleses percebem isso e induzem Rezah a se tornar imperador, percebendo a predisposição popular para abraçar um governante sagrado (ao contrário da república laica); os revolucionários marxistas não, e são rapidamente descartados pelos xiitas islâmicos após a derrubada do Xá.
Quanto ao traço, Satrapi dá impressão de que não sabia desenhar antes de começar essa história, mas que tinha grande conhecimento de história da arte e da linguagem dos quadrinhos. Optou por um estilo naïf, quase primitivo, porém com elegante uso das influências orientais – lembra em algo as caricaturas moderníssimas de Nássara, mas que evocavam os hieróglifos egípcios com suas setas, ziguezagues e corpos em perfil. É de se destacar o uso carregado do preto, a mesma cor dos véu que foi obrigada a usar, que intensifica o tom emocional e serve como inúmeras soluções gráficas, inclusive substituindo os fundos.
Persépolis é um exemplo evidente da enorme capacidade narrativa dos quadrinhos, capaz de transmitir sentimentos pessoais e registrar a história de forma incrivelmente sintética, como se havia visto antes em
Maus, Stuck Rubber Baby e poucas outras. Um livro que passasse o mesmo grau de informações teria pelo menos o triplo de páginas. E isso foi só o primeiro volume.