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O avesso do lado direito - Ato 1 de 3: Lourenço Mutarelli
Por Eloyr Pacheco — Quarta, 8 de dezembro de 2004
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Eu estou freqüentando os bate-papos comemorativos dos dois anos da Gibiteca SESI, evento anunciado aqui. É estranho para mim que algumas questões continuem as mesmas que debatíamos há, pelo menos, quinze anos.
A primeira delas é o reconhecimento dos artistas que trabalham com quadrinhos. Ainda há o preconceito de que fazer quadrinhos não é uma profissão. Lourenço Mutarelli afirmou que só pôde desenvolver e produzir seu primeiro álbum porque estava doente na época e por isso não foi pressionado pelos parentes para “procurar trabalho”. Hoje, Lourenço é um dos mais prolíferos quadrinhistas brasileiros e, além do Brasil, é publicado na Espanha e Portugal.
Desconcertante é a sua idéia de diminuir seu ritmo de produção de HQ, de um álbum por ano, agora ele deseja fazer um a cada dois anos e encerrar sua obra de quadrinhos em quinze álbuns. No momento Lourenço está finalizando a produção de seu décimo primeiro álbum. Ele sentiu que houve maior acolhida e reconhecimento do seu talento através do trabalho literário. Seu livro o Cheiro do Ralo teve os direitos adquiridos por Heitor Dhalia (Nina) e está em fase de pré-produção, tendo o ator Selton Mello como protagonista.
Selton Mello é reconhecidamente um ator talentoso, eu particularmente sou um admirador do seu trabalho. Suas interpretações em O Alto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro, por exemplo, merecem destaque. Atualmente Selton apresenta o programa Tarja Preta, que vai ao ar as quarta-feiras, às 23 horas, no Canal Brasil, e está no sitcom Os Aspones, exibido pela Globo toda sexta-feira, às 23 horas.
No bate-papo com Lourenço fiz uma única intervenção quando alguém questionou a “febre do Mangá”. Depois de um comentário do artista de que os leitores de Mangá só lêem este gênero, discorri que a roteirista e desenhista carioca Eddie Van Feu (Alcatéia, Contos de Leemyar) escreveu em um dos seus artigos que há uma “ala xiita” que só lê o Mangá produzido no Japão, considerando este o “verdadeiro”. Fico espantado com isso, pois a minha geração é uma geração sem preconceitos, que lê de tudo. Eu, por exemplo, comecei a minha coleção com Zorro (The Lone Ranger) #44, de abril de 1974, da Ebal – Editora Brasil-América. Antes disso só ficava fuçando uma caixa cheia de gibis de um tio meu (que desenhava muito) com Os Quatro Fantásticos, Homem-Aranha, Capitão América, entre outros.
Talvez a própria Ebal tenha uma parcela de crédito nisso, pois ela publicava material bastante variado, de Flash Gordon, de Alex Raymond a Cinco Por Infinitus, de Esteban Maroto. Com isso eu cresci gostando de vários gêneros de quadrinhos, do americano clássico ao europeu. E, até hoje, o que importa para mim é o quadrinho, se é bom ou não, independente de seu gênero. Também gosto do Mangá; Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima, Vagabond, de Takehiko Inoue, e Blade, de Hiroaki Samura são meus preferidos. Isso não me impede de admirar o trabalho feito por Kia Asamiya com Batman, por exemplo.
O fato é que os leitores que estão se formando hoje com o Mangá não migram para outros tipos de quadrinhos depois que a febre passa, melhor explicando, ao se tornarem adultos não têm um caminho natural que os “sem-preconceito” podem trilhar. Esse caminho natural, conforme o leitor amadurece pode ser assim definido: começando com Turma da Mônica ou Disney; depois Homem-Aranha, Batman & Cia. e, finalmente, Quadrinho Europeu e linha Max e Vertigo.
Outro ponto de discussão é o fato do desenhista trabalhar. Muitos dos presentes se espantaram quando Lourenço afirmou que trabalhava até dezoito horas por dia e que demorava pelo menos dez meses para finalizar um álbum. Assim, quando terminava um projeto tinha que começar o seguinte. Hugo Ramirez Filho, poeta e professor de literatura amigo meu, diz sempre que “para cada um porcento de inspiração são necessários noventa e nove porcento de transpiração”, não sei se a frase é dele ou ele a emprestou de alguém. O que ele quer dizer é que depois que a idéia surge, ela tem de ser trabalhada, e muito.
Desenhista que queira ser reconhecido rala muito, cria uma rotina e “trabalha de verdade”. Lourenço Mutarelli é o que é porque trabalhou (e trabalha) muito, muito mesmo.
Até a próxima. Tchau! ¤
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