Ménage à trois

Por Luiz Eduardo Ricon — Terça, 7 de dezembro de 2004

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Desde os primórdios do Rock n' roll, existe o guitar hero. Dos passinhos de pato e os double stops de Chuck Berry ao jeito desengonçado de Buddy Holly, passando pelo blues elétrico de Muddy Waters e B. B. King, a guitarra passou definitivamente para a linha de frente nos anos 60, quando alguns guitarristas realmente fenomenais faziam miséria com o instrumento. O maior deles, obviamente foi Jimmi Hendrix que, se não reinou sozinho (já que “competia” com Eric Clapton, Jeff Beck, Pete Townshend e muitos outros), pelo menos cristalizou para o grande público a imagem do herói da guitarra, um tipo especial de músico, com uma relação muito especial com seu instrumento. Um músico que, mais do que tocar muito bem, abria novas fronteiras, experimentava, desbravava novos territórios estilísticos, criava timbres, manejava efeitos e de alguma forma mudava a forma como se encarava a guitarra até ali.

Durante anos, os guitar heros pipocaram aqui e ali, em muitas formas e estilos. Do blues pesado e viajandão do Led Zeppelin aos climas etéreos e eruditos do Yes (a epítome do rock progressivo), chegando ao proto-Heavy Metal do Deep Purple, a década de 70 teve sua cota de mestres da guitarra, que mantiveram viva a mística das seis cordas.

Nos anos 80, um garotão californiano com cara de bobo surgiu do nada e mudou completamente o jeito como se tocava guitarra pesada. Era Eddie Van Halen, que unindo técnicas surpreendentes (como os tappings, sweeps e vibratos) a uma tonelada de efeitos mostrou a um monte de outros garotões até onde a guitarra de rock poderia chegar. Desde Hendrix, ninguém influenciou tanta gente e nem provocou uma mudança tãop grande na forma de tocar guitarra no cenário rock/pop internacional.

Porém, depois disso, o guitar hero deixou de ser um mérito para virar profissão. Na trilha aberta por Van Halen, surgiram incontáveis bandas e guitarristas virtuosos, a maioria deles com passagem por grandes e prestigiosas escolas de música como Berkley ou o GIT, de Los Angeles. Esses candidatos a guitar heroes juntavam toda a influência recebida dos mestres do passado com cada vez mais e melhores efeitos, sem esquecer as roupas berrantes, uma boa dose de pirotecnia e aqueles cabelos emplastrados de laquê. O mais caricato deles era com certeza o sueco Yngwie Malmsteen, que surgiu como uma mistura do virtuosismo de Paganini com o mau-humor insuportável de Ritchie Blackmore e o gosto para roupas de Liberace.

No meio da multidão, dois músicos se destacaram: um era Joe Satriani, um conhecido professor de música com forte influência de blues e que chegou já um pouco tarde aos discos, com o petardo Surfing with the Alien (que trazia o bom e velho Surfista Prateado na capa!). Com o tempo, Satrani foi ganhando fama e perdendo os cabelos, flertou com o blues e a música eletrônica e foi cotado para substituir Ritchie Blackmore no Deep Purple nos anos 90. ele chegou a fazer alguns concertos com a banda quando Blackmore pirou e resolveu virar um menestrel new age. Mas não deu certo nem para Blackmore e nem para Satriani.

O outro era Steve Vai, que foi aluno de Satriani e surgiu para a fama através das mãos de Frank Zappa, com quem tocou durante um tempo. Mais tarde, Vai se alinhou com Dave Lee Roth (ex-Van Halen) e com muita pose e domínio de palco e alguns truquezinhos na manga (tipo fazer a guitarra rir, chorar e falar), acabou conseguindo se diferenciar da mesmice dos cabeludos fritadores de escalas que dominavam a cena guitarrística.

Em 96, professor e aluno se uniram para um projeto especial. E para apimentar um pouco mais a relação, resolveram chamar um terceiro guitarrista para tocar com eles. Nascia o G3. Ao lado de Eric Johnson (um virtuoso e detalhista por excelência), Satriani e Vai gravaram um CD e um DVD de grande sucesso, e passaram a alternar suas carreiras solo com turnês especiais do G3, onde recebiam a cada ano um guitarrista diferente.

A idéia era juntar sempre esses dois grandes músicos com outro expoente da guitarra em concertos onde primeiro cada um tocava suas músicas e no fim os três se juntavam para uma grande jam session regada a muitos clássicos do rock e do blues.

Desde então já passaram pelo G3 feras como John Petrucci (Dream Theater), Kenny Wayne Shepperd (um jovem blueseiro inlfuenciado um pouquinho demais por Stevie Ray Vaughan) e até mesmo o encrenqueiro Yngwie Malmsteen, com quem eles gravaram outro CD e outro DVD, há pouco tempo.

Na edição atual, o G3 conta com a participação de Robert Fripp, o lendário guitarrista e líder do King Crimson, famoso por seus timbres e efeitos absolutamente imprevisíveis. Você consegue imaginar como encaixar o estilo cheio de climas de Fripp no meio da porradaria de Vai e Satriani?

Bom, se você tiver sorte, pode conferir pessoalmente, pois o G3 2004 desembarca no Brasil neste fim de semana (03/04 e 05 de dezembro), para shows no Rio e em São Paulo. É a chance dos fãs brasileiros verem de perto como rola esse trelelê guitarrístico, além de conhecer melhor o trabalho de Robert Fripp, um ilustre desconhecido para a maioria dos fãs da dupla Satriani/Vai mas que é um dos mais inventivos e criativos guitarristas sobre a face da Terra.

Eu já comprei meu ingresso e encontro você por lá.




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