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Nós vimos: Lado Selvagem
Por Eloyr Pacheco — Quarta, 1 de dezembro de 2004
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“Você é menino ou menina?”
Olhar sem preconceitos, com neutralidade para as ruas cheias de criaturas, seres (humanos) completamente diferentes do que as que são consideradas normais é difícil. Estamos num mundo onde há muitos anos (para não dizer séculos), as minorias vêm sendo esmagadas, massacradas. Deixadas de lado, ignoradas, elas raramente são tema de alguma obra.
Em seu quinto filme, o diretor francês Sébastien Lifshitz (Les Corps Ouvertes, 1997; Les Terres Froides, 1998; Presque Rien [Come Undone], 1999, e La Traversee [The Crossing], 2000), despe-se da tentação do mero julgamento e cria Lado Selvagem (Wild Side, 2004) contando a história de três seres humanos: uma prostituta trans-sexual; um jovem michê franco-árabe, e um imigrante ilegal russo. Em Lado Selvagem testemunhamos a vida de Sylvie (Stéphanie Michelini), sustentando-se através da prostituição; Mikhail (Edouard Nikitine), ex-soldado russo que imigrou para a França e vive de subempregos, e Jamel (Yasmine Belmadi), jovem árabe que freqüenta banheiros públicos à procura de vender seu corpo para quem pagar, sem se importar se quem paga é homem ou mulher. Dia-a-dia vulgar, comum, cotidiano, às vezes, monótono, caso as personagens de Lado Selvagem não fossem o que são.
Embora a distância que os separe de suas famílias seja grande, as personagens não conseguem romper o cordão umbilical que as separa. Jamel sempre manda dinheiro para sua mãe através de seu irmão que vê de vez em quando; Mikhail sempre telefona para sua mãe, mas não tem coragem de se identificar e falar com ela; e Sylvie alimenta-se das memórias da sua infância, dos dias felizes quando podia brincar com sua irmã.
Esses três seres humanos formam um “estranho” triângulo amoroso até o dia em que Sylvie, através de um médico, fica sabendo que sua mãe (Josiane Storelu) está morrendo. Sylvie, depois de quinze anos longe de casa, decide ficar ao lado de sua mãe, que ainda a chama de Pierre, até sua morte. Com essa decisão vai morar sob um mesmo teto no norte da França com seus dois companheiros. A partir daí, Lado Selvagem segue mostrando a relação dos três seres que, em seus íntimos, só anseiam por ser felizes.
Sébastien Lifshitz, depois de ter realizado testes com vários trans-sexuais, encontrou a principal protagonista de seu filme por acaso, conheceu Stéphanie num café. Embora tímida, ela saiu-se muito bem, aliás, todos os atores do filme têm ótimas interpretações. Com ar de documentário, principalmente em cenas realizadas nas ruas como a que mostra as trans-sexuais tentando “ganhar” a vida e uma realizada durante o dia onde as “monas” aprendem a jogar bocha. Entre outras tantas, há uma cena genial para ser destacada: a da mãe de Stéphanie tentando dialogar com Mikhail que não fala francês e se comunica numa mistura de russo e inglês.
As cenas de sexo permeiam o filme e estão ali, lancinantes (principalmente para os que acham que meninos vestem azul e meninas, rosa), aumentando ainda mais o realismo de Lado Selvagem. Lifshitz fez um filme sobre o relacionamento humano, sobre o amor e não um filme sobre imigrantes ilegais, michês e putas.
Lado Selvagem, distribuído pela Paris Filmes/Lk-Tel, está sendo exibido em circuito alternativo. Procure informar-se.
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